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Tolstói: um escritor genial

Cem anos após sua morte, o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) permanece em destaque como um dos maiores talentos literários de todos os tempos.  “É  extraordinária a capacidade que ele tinha de formulação, de expressar o que pensava, abordando verdades simples e corriqueiras de maneira penetrante”, exclama Boris Schnaiderman, que fez várias traduções do autor diretas do russo, entre elas Khadji-Murát, lançada recentemente pela Cosac Naify, Felicidade conjugal e A morte de Ivan Ilitch, pela Editora 34. “O início de Anna Kariênina, por exemplo: Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. As coisas que ele diz em A morte de Ivan Ilitch, uma obra-prima. A forma como exterioriza sua própria energia vital em Khadji-Murát, ao descrever uma florzinha que, esmagada por uma roda de carroça, sobrevive, insistente e teimosa apesar de tudo.”

A metáfora da planta que fora pisada, mas se reerguera, persistente em seu afã de vida, que marca o início e o final da história do guerreiro tchetcheno Khadji-Murát, ilustra bem, segundo Schnaiderman, o quanto as construções desse grande escritor têm algo de prodigioso. Nesse romance conciso, que demandou exaustivas reelaborações e só foi concluído em seus últimos anos de vida, Tolstói aborda os violentos acontecimentos no Cáucaso, parte dos quais presenciou, expressando sua condenação veemente da guerra e dos abusos do poder personificados por Nicolau I, czar da Rússia.

O tradutor se declara fascinado pela exuberância, riqueza de perspectivas e intensidade dos textos de Tolstói, que descrevem os estados de alma dos personagens com uma perspicácia incomum e abrangem de vastos panoramas, como Guerra e paz, considerado um dos romances mais importantes da literatura universal, a contos de poucas páginas, detendo-se com maestria no gênero intermediário, a novela. “Quando se lê Tolstói, resulta – não estou exagerando, falo de impressões pessoais – uma sensação como que da existência física de suas personagens, a tal ponto a sua imagem é habilmente entalhada; ela parece estar diante de você, dá até vontade de tocá-la”, escreveu no prefácio de Khadji-Murát.

Rico herdeiro de uma família de aristocratas ligada aos czares, Tolstói ficou órfão ainda criança. Depois de ter servido no exército, em 1856, viajou pela Europa, retornando então à terra natal para administrar suas propriedades e dedicar-se à literatura. Com uma vida pessoal cheia de conflitos, sua trajetória foi marcada pela aguçada consciência do sofrimento do povo e pelos questionamentos existenciais. Chegou a criar uma escola para os empregados de suas propriedades, com novos métodos de ensino de caráter libertário. Seus últimos anos de vida são de engajamento social. Após várias crises espirituais, tornou-se profundamente religioso e renegou os ensinamentos da igreja ortodoxa, sendo perseguido e excomungado. Tentou também renunciar ao seu patrimônio em favor dos pobres, mas foi impedido pela família. Acabou fugindo de casa e, com a saúde debilitada, viu-se obrigado a saltar do trem na aldeia de Astápovo, onde viria a morrer.

Em seus romances, Tolstói trata de questões que o inquietavam, como as fraquezas humanas, a sociedade em crise – conjugal, familiar, cultural e social -, a guerra, o autoritarismo do regime czarista e a religião institucional. Guerra e paz (reeditado em 2008 pela Cia. das Letras em versão adaptada e pela L&PM Pocket em 4 volumes), ambientado no início do século 19, tem como pano de fundo a invasão napoleônica na Rússia e apresenta um retrato da aristocracia russa, mostrando tramas e intrigas, manobras políticas e a brutalidade da guerra. Em Anna Kariênina (publicado pela Cosac Naify em 2005, com tradução de Rubens Figueiredo), a guerra da Sérvia e temas como o regime de propriedade de terra, a relação com os trabalhadores, a decadência da nobreza, educação infantil, casamento e religião permeiam os conflitos protagonizados por uma mulher presa às convenções sociais e um proprietário de terras filósofo, que tenta melhorar a vida de seus servos.

O rico percurso literário de Liev Tolstói, conforme ressaltou Rubens Figueiredo, denota a agudeza crescente de sua visão crítica dos problemas da Rússia. Segundo ele, entretanto, tudo indica que Tolstói não tinha resposta pronta e fixa para as questões que formulava, e as constantes hesitações e dúvidas de seus personagens dão um bom testemunho disso. Atrelada ao contexto social, político e religioso do país, sua obra expõe dramas humanos de alcance universal, convidando o leitor a partilhar de suas hipóteses e experiências de pensamento.

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo:  http://www.revistaplatero.com.br/n7/platero4.asp

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Na seção O leitor indica, o irreverente Xico Sá, colunista da Folha de São Paulo, indica seus livros favoritos. Entre os títulos, Medo e delírio em Las Vegas, de Hunter S. Thompson: “não poderia faltar pelo menos uma obra-prima do rei do jornalismo gonzo, a forma mais maluca e ousada de contar histórias e fazer reportagens”.

Tradução: O que caracteriza uma boa tradução na opinião de nomes como Boris Schnaiderman, Modesto Carone, Mamede Mustafá Jarouche e Paulo Werneck. E em Resgate literário, um passeio pela vida e obra do russo Liev Tolstói, cem anos após sua morte.

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