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A Revista Platero de julho está no ar!

A revista Platero de julho está imperdível: a escritora Patrícia Melo fala de seu novo livro;  o autor Walcyr Carrasco indica suas leituras prediletas; Sidney Gusman, editor do site Universo HQ, comenta sobre os melhores quadrinhos; e tem uma entrevista muito legal com Edson Nery da Fonseca, amigo pessoal de Gilberto Freyre, falando sobre a vida e obra do grande historiador brasileiro, que é o homenageado deste ano da Flip. Boa leitura!

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Palavra do autor com Patrícia Melo – Suspense do começo ao fim

Nem sei direito como tudo aconteceu. De repente, uma explosão, e o avião mergulhou no Paraguai, como uma ave pescadora.
(…) entrei na cabine e sentei no banco do copiloto. Fiquei alguns minutos ouvindo a água bater na fuselagem, pensando no que fazer. Talvez o melhor fosse tirar o rapaz do rio. Não havia, no entanto, a menor chance de carregá-lo até a camionete. Era mais forte que eu, o rapaz, talvez pesasse uns oitenta quilos. Eu poderia arrastá-lo até o carro. A ideia me perturbou. Arrastar cadáver.
(trecho do livro Ladrão de cadáveres)

Patrícia Melo acaba de lançar mais um livro de suspense: Ladrão de cadáveres. Como todos seus outros romances, eletrizante! Você começa a ler e não consegue mais parar… Assim é em Acqua Toffana; O matador; Elogio da mentira; Inferno (ganhador do prêmio Jabuti); Valsa Negra; Mundo perdido; e Jonas, o copromanta, que estão sendo reeditados pela Rocco com novo e arrojado projeto gráfico. A força dos personagens e da narrativa, em ritmo ágil e fluente, captura de forma definitiva o interesse do leitor. Mas o talento da autora vai além da boa trama, perscrutando e desvendando, por trás dos fatos e da ocorrência policial, os sentimentos e fraquezas humanas que levam a uma ação criminosa. E mesmo nas cenas mais cruéis, ela consegue dar leveza e um toque de humor ao texto.

“Tudo é forma. Literatura é pura linguagem. Eu busco ritmo e frescor na linguagem. Busco uma certa qualidade das histórias contadas oralmente. Isso cria uma dicção rápida, vertiginosa”, comenta a autora. “Ainda assim, a escrita é sempre angustiante para mim. É uma busca, e geralmente o processo é lento, minucioso e também neurótico. Escrever é reescrever e reescrever incansavelmente até que, num determinado momento, surge a forma que você procura, ou pelo menos algo que lhe agrada em termos de resultado. É uma labuta diária.”

Onde encontra inspiração para suas instigantes narrativas? “Na própria vida, nas pessoas, nas situações que surgem no meu caminho. Escrever tem a ver com o exercício constante de observação. É ele que alimenta nossa imaginação. A observação nos dá o ponto de partida, e então a viagem começa. Minhas tramas são pura imaginação. Mas eu pesquiso muito para deixá-las verossímeis”.

Seu novo romance, Ladrão de cadáveres, que já tem um blog, www.dodecimoandar.wordpress.com, conta a história de um rapaz que se muda para Corumbá depois de passar por uma situação traumática no ambiente de trabalho e, longe da capital paulista, tenta encontrar um novo rumo profissional. Numa tarde de pescaria no Pantanal, ele presencia o acidente de um monomotor, fato que muda radicalmente o curso de sua vida. “O livro fala sobre perda, sobre a necessidade de rituais para a morte e, acima de tudo, sobre nossa capacidade de explorar a tragédia e o sofrimento alheio”, diz Patrícia, que, no decorrer do enredo, expõe as reações emocionais diante de situações extremas. Por exemplo, o horror que é vivenciar o desaparecimento e a morte incerta de alguém querido. Os mortos precisam morrer de verdade. Precisam ser colocados no caixão e enterrados. Ou incinerados. Você tem que estar lá, quando jogarem a última pá de areia. (…) É esse o significado da palavra enterrar. Colocar ponto final. (…) Enquanto não enterramos os mortos, os vivos ficam lá, sangrando.

O que mais fascina a autora no gênero policial são os personagens: “São sempre figuras trágicas, cheias de pathos (paixões, emoções), que vivem no limite. Chega a ser vertiginoso nos colocarmos no lugar delas, seja como leitor, seja como autor. Gosto de investigar essas figuras, entrar na mente delas”. Talvez por isso suas narrativas pareçam tão reais e os personagens conquistem sempre a empatia do leitor, por mais criminosos que sejam. “Eu coloco primeiro para mim o desafio de amar aquele personagem, não interessa qual seja a sua história. Se consigo amá-lo, sei que o leitor também conseguirá. Com o protagonista de Ladrão de cadáveres não foi difícil. Ele é um homem fraco, e sua maldade não é diferente da nossa: ela está muito mascarada e muito protegida. E como a nossa, ela vem à tona na primeira oportunidade”.

Considerada uma das mais expressivas representantes da literatura brasileira contemporânea no gênero policial, Patrícia Melo terá presença de destaque na FLIP 2010 (Festa Literária Internacional de Paraty). Seus livros fazem sucesso não só no Brasil como no exterior, tendo sido publicados nos Estados Unidos e em vários países da Europa, premiados na França e na Alemanha. Em sua sólida trajetória, a escritora alcançou um caminho próprio e hoje se guia por uma busca pessoal. “Não há influências literárias nesse processo, mas há autores que me inspiram, como W.B. Sebald, S.Y. Agonon, Amós Oz. Quando leio seus livros, me sinto motivada a trabalhar”.

* Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero n. 9/julho 2010, publicação da Livraria Martins Fontes

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