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Monteiro Lobato: uma paixão nacional

Seu talento conquistou gerações seguidas de leitores. Quantos brasileiros pegaram o gosto pela leitura através de seus livros e até hoje o elegem como o maior escritor infantil de todos os tempos. Monteiro Lobato, o genial criador dos divertidos e inesquecíveis personagens do Sítio do Picapau Amarelo, compreendeu como poucos a cabeça das crianças. E que riqueza de imaginação! A curiosidade sem-fim da boneca Emília, brejeira e insubordinada como o próprio autor, que sempre foi franco e direto em suas opiniões; as explicações do cultíssimo Visconde de Sabugosa; as aventuras de Pedrinho e Narizinho e suas incursões pelo universo dos seres encantados, fábulas e lendas mitológicas; os causos misteriosos contados por Tia Nastácia; os interessantes serões de Dona Benta, em que ela recontava clássicos da literatura de um jeito muito sedutor… Tudo em sua literatura contribui para envolver e cativar.

Autêntico, com uma visão aguçada dos problemas políticos e econômicos do país, o escritor não relutava em criticar e denunciar o que estava errado. Essa firmeza era uma de suas características marcantes, inclusive quando se posicionava no campo da literatura. Combatia veementemente, sem jamais perder o senso de humor, as regras de ortografia, por exemplo, qualificando o uso exagerado de acentos como imbecilidade pura. Sobre a vendagem de livros no Brasil, comentou: Se o livro não se vende é porque não presta, isso em português claro. Os bons livros vendem-se muito bem. Os maus não, os leitores não compram, recusam. Eu acho que essa situação está na perfeita normalidade. Também se recusou gentilmente, por coerência e fidelidade a si mesmo, a aceitar a indicação para fazer parte da Academia Brasileira de Letras. (…) Mal comportado que sou, reconheço o meu lugar. O bom comportamento acadêmico lá de dentro me dá aflição

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882. Cresceu numa fazenda e queria ser pintor, pois desenhava muito bem. Devido à oposição dos pais, entretanto, formou-se em Direito e acabou canalizando sua veia artística para a escrita, transportando para a literatura suas vivências como fazendeiro, como diplomata e até como leitor, ao fazer versões infantis de obras clássicas. Começou escrevendo para o público adulto, e já no livro de contos inaugural, Urupês, imprimiu um forte cunho nacionalista, introduzindo termos e tipos peculiares – como o Jeca Tatu – para falar das coisas de sua terra. Mas foi com o público infantil que ele obteve total ressonância. As crianças dizem que eu escrevi pouco para elas, que eu deveria ter escrito muito mais. E eu creio que sim. Eu perdi tempo escrevendo para gente grande, é uma coisa que não vale a pena, disse ele na última entrevista que concedeu a um radialista, dois dias antes de falecer por causa de um derrame, em 4 de julho de 1948.

Desde 2007, sua obra vem sendo relançada pela Editora Globo com projeto visual totalmente reformulado e ilustrações de diferentes artistas gráficos. Entre as novas publicações, encontra-se a extensa série de títulos infantojuvenis, como Viagem ao céu; Reinações de Narizinho; Caçadas de Pedrinho; O Picapau Amarelo; A reforma da natureza; Memórias da Emília; Emília no País da Gramática; Histórias de Tia Nastácia; Aventuras de Hans Staden; O Minotauro; Os doze trabalhos de Hércules; O poço do Visconde; Dom Quixote das crianças – puro encanto, em qualquer idade – e outros.

“A fantasia e o humor, uma homenagem à inteligência dos leitores, assim como o coloquialismo da linguagem, estão na base da ampla aceitação da obra lobatiana”, considera a escritora, professora e especialista em literatura Marisa Lajolo. Grande estudiosa de Monteiro Lobato, ela é autora e organizadora de vários livros sobre o escritor, entre eles Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida, narrando fatos de sua vida, e Monteiro Lobato livro a livro – premiado com o Jabuti na categoria melhor livro de não-ficção 2009 -, que focaliza toda a trajetória da obra infantil de Lobato, mostrando como ele era sensível às expectativas de seu público e antenado com seu tempo.

Fruto de sua extraordinária capacidade inventiva, a obra de Monteiro Lobato se destaca também pela cuidadosa elaboração. E isso não aconteceu por acaso. Segundo Marisa Lajolo, o escritor era um trabalhador absolutamente incansável, que fazia e refazia os textos, mudava título, tirava capítulo, mexia e remexia em tudo até chegar aonde queria. A identificação com as crianças fica por conta do espírito insubordinado do autor que revolucionou o ambiente de aprendizagem: “Era no sítio que as crianças aprendiam”, ressalta Marisa. “Os livros ‘paradidáticos’ de Lobato nunca se apresentam como ‘parceiros’ ou ‘aliados’ da escola. Os personagens, inclusive, volta e meia dizem que a escola é enfadonha e que o bom é aprender com Dona Benta. Essa irreverência com a instituição escolar estabelece uma cumplicidade com o leitor, que retribui se tornando leitor cativo”.

 

Matéria da Revista Platero, produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Monteiro Lobato, sempre atual

O Minotauro, escrito por Monteiro Lobato em 1939, é uma das mais lembradas aventuras da turma do Sítio do Picapau Amarelo. Agora, o mito ganhou nova edição, com ilustrações do premiado Odilon Moraes.

Resenha:
Ninguém chamou mais a atenção de Dona Benta naquela festa do que um jovem de nariz feio. A sábia senhora, matriarca do Sítio do Picapau Amarelo, encontrava-se emocionada diante de ninguém menos do que o jovem Sócrates, que viria a se tornar um dos maiores filósofos de todos os tempos. Enquanto a avó e sua neta Narizinho frequentavam os elegantes salões atenienses do século de Péricles, Emília, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa se envolviam numa aventura com os semideuses e as criaturas mitológicas da Grécia Antiga.

Mas, afinal, o que o pessoal do Sítio estava fazendo tão longe do Vale do Paraíba e tantos milênios no passado? Óbvio! Eles foram até lá para salvar a Tia Nastácia, que havia sido raptada por monstros no casamento da Branca de Neve enquanto se distraía com o cozimento de mil faisões…

Foram relançados, também pela Editora Globo, outros três clássicos de Monteiro Lobato, cada um ilustrado por um artista diferente! Histórias de Tia Nastácia recebeu os desenhos de Cláudio Martins, Peter Pan foi ilustrado por Fabiana Salomão e Aventuras de Hans Staden ganhou as ilustrações do artista plástico Luiz Maia.

Sempre vale a pena reler e relembrar as histórias que povoaram a mente brincalhona do eterno Monteiro Lobato. Afinal, como bem disse certa vez a escritora Tatiana Belinky em entrevista para a ML: “O adulto inteligente entende muito bem as coisas de criança”.

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