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Revista Platero nº 10 / agosto

Estamos postando a nova edição da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes, produzida pela ML Jornalismo.

Nesta edição trazemos temas bem variados: em Resgate literário, especialistas na obra de Jane Austen falam porque seus romances conquistam fãs em todo mundo até hoje, 200 anos após sua morte. Na nova seção CÃOportamento, a veterinária Cláudia Terzian, da equipe de Alexandre Rossi (Dr. Pet), mostra que conhecer melhor o comportamento canino é fundamental para uma boa convivência. Em Espaço jovem, o escritor Mouzar Benedito apresenta seres encantados e histórias curiosas do folclore brasileiro. Fechamos com o jornalista Matthew Shirts indicando excelentes livros. Boa leitura!

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Espaço jovem – A riqueza do folclore brasileiro

Quem anda pela Floresta Amazônica, quando há ameaça de tempestade, escuta batidas fortes ecoando mata adentro. Pá, pá, pá… É o Curupira, que dá chutes com o calcanhar (ele tem os pés virados para trás) em grandes árvores, para ver se elas não correm o risco de cair. Se houver esse perigo, ele avisa os animais para não ficarem debaixo delas durante o temporal.
(Lenda contada por Mouzar Benedito)

São muitos os seres mitológicos de origem indígena que fazem parte do folclore brasileiro. A começar pelo Saci, o mais popular. Em qualquer região do Brasil, todo mundo sabe que ele é um negrinho de uma perna só, pita cachimbo, tem um gorrinho vermelho mágico e anda no meio de redemoinhos. Segundo o geógrafo e jornalista Mouzar Benedito, grande estudioso do assunto, autor do Anuário do Saci e seus amigos, entre outros livros, no início o Saci era um curumim (menino índio) guarani que ajudava as pessoas perdidas a sair da mata. Mas só as que não estavam ali para destruir a floresta.

“Com a chegada dos europeus”, explica, “os mitos indígenas foram demonizados pelos religiosos, no intuito de facilitar a dominação branca, e o Saci se tornou, no conceito deles, um demoniozinho. Foi adotado pelas negras contadoras de causos e virou negro. Depois ganhou o gorrinho vermelho que existe em muitos mitos europeus. É cativante porque, além de reunir elementos dos três grandes formadores do nosso povo, indígenas, africanos e europeus, possui características tipicamente brasileiras – é pobre (não tem roupa, só aparece de calção na TV por moralismo), é negro, portanto vítima de preconceitos, e, apesar de perneta, é alegre e brincalhão. Gozador, ele apronta muito, mas só por brincadeira. Quer algo mais brasileiro que isso?”

Há vários outros personagens expressivos, como ressalta Mouzar. Um deles é o Curupira, protetor das matas e, por conseguinte, dos animais que vivem nelas. O Caipora, que protege os bichos pequenos (os grandes são protegidos por Anhangá) e persegue quem os mata por prazer, é conhecido em alguns lugares do Nordeste como ‘a Caipora’ – é fêmea e namoradeira, namora homens comuns e é muito ciumenta. São famosos ainda o Boitatá, que vigia os campos e castiga aqueles que fazem queimadas, e a Iara, que protege os animais que habitam as águas doces, zelando também pelas águas, para garantir a sobrevivência dos peixes.

Todas essas figuras folclóricas, conforme ele esclarece, pertencem à mitologia tupi-guarani, que tem três grandes deuses. O Sol (Guaraci), criador e protetor dos animais, tem como auxiliares o Caipora, o Anhangá e a Iara. A Lua (Jaci), criadora e protetora dos vegetais, tem como auxiliares o Curupira e o Boitatá. O Saci, que faz parte desse grupo, é um auxiliar menor e também protege as matas, especialmente a Mata Atlântica, onde nasceu. E a terceira grande entidade é o Rudá, ou Perudá, deus do amor. Ele faz com que os seres se amem e se reproduzam e tem dois auxiliares: Cairé (lua cheia) e Catiti (lua nova), cuja missão é despertar saudade no amante ausente.

Em diversas localidades do país, esses mitos estão muito presentes. No Ceará, por exemplo, muita gente só entra na mata depois de deixar uma oferenda para Caipora. Na Amazônia inteira há muito respeito pelo Curupira. E há outros mitos regionais também bastante respeitados, como o Macunaima em Roraima, o Mapinguari em boa parte da Floresta Amazônica, principalmente no Acre, o Negrinho do Pastoreio no Rio Grande do Sul e o Pé de Garrafa em algumas partes do Cerrado.

“Conhecer esses mitos que permaneceram no inconsciente coletivo e expressam a cultura brasileira é se inteirar das nossas origens”, salienta Mouzar Benedito, que considera fundamental resgatar o folclore brasileiro. “São mitos que têm tudo a ver com a gente e não ficam nada a dever a outras mitologias. Percorrendo e estudando o país, como jornalista e geógrafo, fui descobrindo todas essas riquezas que têm sido desprezadas e passei a escrever sobre o tema. Algumas pessoas acham que falar do Saci, do Curupira e da Iara é um atraso, mas respeitam a mitologia grega e romana, até a nórdica, como se fossem mais adiantadas. E não são. Um povo que não valoriza a sua cultura e acha a dos outros superior é um povo predisposto a ser dominado.”

O Anuário do Saci e seus amigos, com texto de Mouzar Benedito e ilustrações de Ohi, traz uma série de lendas curiosas do folclore brasileiro. E há outras dicas para os leitores interessados em saber mais sobre esse universo cheio de encanto e magia: Lendas brasileiras para jovens, de Luis da Câmara Cascudo; Saci, o guardião da floresta, de Mouzar Benedito e Ohi; Viagem pelo Brasil em 52 histórias, de Silvana Salerno; Armazém do folclore, de Ricardo Azevedo; Um saci no meu quintal, de Monica Stahel; Curupiras, sacis e outras criaturas fantásticas das florestas, de Fábio Sombra; Mata – Contos do folclore brasileiro, de Heloisa Prieto; Lendas brasileiras, de Carmen Dolores.

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