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Arte é ver com os ohos e com a emoção


Estimular as crianças e os adolescentes a vivenciar a arte é transformar e ampliar seu universo cultural (Carlos Barmak – artista plástico)

Os pintores Ticiano, Rubens e Renoir retratavam mulheres gordíssimas porque, no tempo em que eles viveram (séculos XV e XVI), esse era considerado o ideal de beleza. Michelangelo fazia a cabeça, os braços e as mãos das figuras de seus quadros e esculturas bem grandes para que expressassem força, poder e firmeza. Dizem inclusive que esse famoso artista achou sua escultura Moisés tão perfeita, tão viva, que se pôs a conversar com ela. Como não obtinha resposta, exclamou, furioso: “Parla!” (Fala!) e, em seguida, golpeou o joelho da estátua com um martelo, deixando ali uma cicatriz que ainda pode ser vista. Foram crianças que, por acaso, acharam grandes tesouros de desenhos e pinturas pré-históricas: em 1879, uma menina de cinco anos fez uma grande descoberta ao achar, nas cavernas de Altamira, na Espanha, pinturas coloridas de animais representando touros, mamutes e bisontes; e, em 1940, um grupo que brincava de se esconder na gruta de Lascaux, na França, encontrou a figura de um boi de cinco metros de comprimento pintada na rocha. Estas são algumas curiosidades do livro História da arte para crianças, de Lenita Figueiredo.

Como esse, existem inúmeros livros que visam apresentar, de maneira atraente, o universo da arte para crianças. Para entender a importância desse contato e o impacto que ele tem para os jovens leitores, a Revista Platero foi conversar com Katia Canton, professora e também curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP, autora de mais de 40 livros sobre o tema, dentre eles Retrato da arte moderna, que enfoca aproximadamente 100 anos que marcaram o mundo ocidental através da arte, baseado em imagens e fatos. Para a escritora, a arte é um exercício constante de liberdade e de atenção. “Ela se molda através da sensibilidade de seus artistas e do contexto de suas vidas, de suas experiências. A vivência da arte nos fornece ferramentas de sensibilidade e compreensão para lidar com a vida como um todo (…). Arte é ver com os olhos, com a emoção e com a história. Arte é sentido. E treino também. Um exercício de refinar os sentidos (…). A arte pede atenção para as particularidades formais – cores, contornos, luzes, texturas, massas e dimensões -, assim como para os conceitos, as ideias, as emoções e os sentidos de suas construções. Ela pede um olhar curioso, livre de ‘pré-conceitos’.”

Katia Canton recomenda que as crianças tenham contato com as várias expressões de arte desde que nascem. “Por ser um estímulo sensorial, de inventividade, ela é usufruída em qualquer fase do desenvolvimento humano. Criança que tem acesso à arte tem mais possibilidade de ser criativa. E também tem condições de entender melhor a nós, seres humanos, compreendendo nossos desejos e anseios e a maneira como deixamos nossos registros na história, na civilização, através de artefatos e objetos artísticos. Desde a Idade da Pedra, o homem criou arte, é um rastro da história da humanidade. Estar exposto a isso é entender melhor a história da nossa própria civilização”.

Na opinião da escritora, a melhor maneira de falar sobre arte para as crianças é estimulando seu lado inventivo, a criatividade que elas têm potencialmente liberta, mais solta e aflorada que nos adultos, já que não foram ainda completamente moldadas para a adaptação na sociedade de consumo. “O tema pode ser visto sob dois grandes vieses: um é o viés da subjetividade e da invenção; o outro é arte como conhecimento, como índice da realidade, como a história da civilização; enfim, arte é um aprendizado completo”.

Ela ressalta que, para fazer com que as crianças gostem de arte, é preciso, primeiro, buscar um aspecto atraente e próximo delas, por exemplo, contando um pouco da história das obras. “Elas vão relacionar uma narrativa a uma obra de arte, o que é importante. Elas podem, por exemplo, olhar uma obra de Monet: aquele risquinho ali foi porque um menino saiu fora do caminho, para que ele fosse mais esperto e não se perdesse… A criança sempre vai inventar e atribuir suas próprias experiências de vida a essas narrativas. Vale a pena incentivar essa interação!”

Katia afirma ainda que a leitura é tão importante quanto a ida ao museu, faz parte de uma formação humanista que é fundamental resgatar, “ainda mais num momento como o nosso em que percebemos que a falta de criatividade é um problema grave, pois a tendência da sociedade é mesmo a padronização, a globalização. A alta tecnologia tende a nos desumanizar. A disposição à leitura e à obra de arte são o resgate, o contraponto a essa tendência pasteurizada”.

Leituras com arte

O trem da história – Uma viagem pelo mundo da arte, de Katia Canton

Coleção Mundo de Artista: Bicho de artista, Mesa de artista e Espelho de artista, de Katia Canton

Retrato da arte moderna
, de Katia Canton

Coleção Arte conta histórias, de Katia Canton – cada livro é ilustrado por um artista contemporâneo, como Luiz Hermano, Beatriz Milhazes, Leda Catunda e L. P. Baravelli

Arte brasileira para crianças
, de Marilyn Diggs Mange

Arte barroca brasileira para crianças
, de Marilyn Diggs Mange

Série de Richard Mühlberger: O que faz de um Degas um Degas?; O que faz de um Van Gogh um Van Gogh?; O que faz de um Picasso um Picasso? e outros

Saber e ensinar – Arte contemporânea
, de Renata Sant’Anna

De dois em dois – Um passeio pelas Bienais
, de Edgard Bittencourt, Maria do Carmo Escorel de Carvalho e Renata Sant’Anna

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero nº 19/maio, publicação da Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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Revista Platero nº 19 – maio

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MERCADO LIVREIRO – Em contato com o belo

Entrar numa livraria e percorrer as estantes e displays de livros de arte é sem dúvida uma fonte de inspiração. Independente de entender ou não do assunto, apreciar o belo agrada aos olhos e faz bem ao coração, e isso está ao alcance de todos. Cada um tem um conceito do belo, mas quem não se sente enlevado ao ver e folhear publicações de alta qualidade gráfica, com reproduções primorosas de pinturas, esculturas, desenhos e fotografias de diferentes estilos e épocas? É sempre surpreendente constatar como o ser humano é capaz de exprimir percepções, emoções e pensamentos de forma tão diversa e extraordinária.

O prazer de visitar a seção de artes, entretanto, vai muito além, quando se descobre as possibilidades que a literatura oferece de conhecer melhor esse criativo universo e ampliar os horizontes. De edições que se ressaltam pela riqueza de imagens a volumes que apresentam a biografia e a iconografia dos autores, ou trazem valiosos registros sobre a história da arte e seus movimentos ao longo dos tempos, são inúmeras as opções.

Há edições nacionais e importadas dos mais expressivos artistas, catálogos de museus brasileiros e estrangeiros, catálogos de exposições, livros teóricos para o estudo aprofundado das artes visuais, críticas e opiniões de profissionais sobre diferentes períodos e tendências, livros específicos sobre fotografia, design gráfico, arquitetura, moda… Sem falar nos vários tipos de coleções disponíveis. A editora Taschen, por exemplo, tem uma coletânea em formato condensado com mais de 50 títulos ilustrados, abordando de maneira sucinta a vida e a obra de mestres da pintura como Cézanne, Picasso, Botticelli, Caravaggio, Dalí, Monet, Rembrandt, entre outros, e uma série mais sofisticada e completa, com volumes de capa dura, que abrange nomes consagrados. Questões atuais também ocupam espaço importante nas prateleiras. É o caso da coleção Temas da Arte Contemporânea, organizada pela PhD em Arte Interdisciplinar Katia Canton, que realça a arte brasileira.

Para quem não sabe por onde começar, nem como se orientar nesse campo, Daniel Honorato, que integra a equipe especializada da Livraria Martins Fontes e tem grande experiência no assunto, sugere: “O ponto de partida é buscar referências que atendam às necessidades e ao perfil de cada um. O leitor é mais tradicional ou tem um olhar dinâmico em relação às coisas? Gosta de antiguidades ou de algo mais contemporâneo? Prefere uma arte mais performática, frequenta museus, ou quer se informar sobre alguma exposição do momento antes de visitá-la? Vamos ter a Bienal de Artes agora em setembro e outubro, por exemplo, o que motiva lançamentos de obras sobre artistas que terão trabalhos expostos. Alguns, como Amélia Toledo, Daniel Senise, Antonio Dias e Cildo Meireles, já têm várias publicações disponíveis”.

Muitos procuram livros na seção de artes para presentear alguém, conforme ressalta Daniel. Livros como objetos de desejo que, além do conteúdo informativo, são visualmente atrativos e dão charme ao ambiente. Nessa linha, uma das obras de grande repercussão é Debret e o Brasil, com o acervo fantástico do artista francês que, de 1816 a 1831, se dedicou a retratar o Brasil. Entre as que se diferenciam pelo projeto gráfico, vale destacar A vida secreta das árvores, com reproduções em silk-screen, feitas artesanalmente, de gravuras da tradição gonde, da Índia central, onde as árvores são consideradas o centro da vida. E há livros que enfocam estilos artísticos, como A história do Impressionismo; a coleção Movimentos da Arte Moderna; Renascimento e Expressionismo (Coleção Basic Genre).

Se o intuito é conhecer a evolução da arte, há opções para vários níveis, a começar pelos principiantes. História da arte ocidental – Da pré-história ao século 21, da editora Rideel, é uma obra introdutória, que destaca os principais aspectos de cada estilo e traz desde pinturas rupestres e arte antiga até o impressionismo, pós-impressionismo e modernismo, chegando ao final do século 20. O livro da arte, da Phaidon Press, do gótico à pós-modernidade, reúne os 500 pintores e escultores mais importantes. A nova História da Arte de Janson, com mais de mil páginas, apresenta o vasto mundo da arte ocidental para quem quer se aprofundar no tema.

“Livros de arte têm muito a ver com a busca interior de cada um”, diz Daniel. “Um dos grandes benefícios desse tipo de literatura é treinar um pouco mais o olhar das pessoas e aguçar sua percepção para que possam observar melhor os trabalhos artísticos. A literatura permite inclusive um distanciamento que facilita a compreensão de determinados períodos e conceitos. No contexto contemporâneo esse diálogo fica mais complexo, embora algumas editoras como a Phaidon, a Thames and Hudson e a brasileira CosacNaify já estejam efetuando a aproximação dos novos expoentes com o público. Isso é importante, pois quanto mais conhecimento se tem sobre a trajetória e a proposta de um artista, mais intenso é o prazer da apreciação de sua obra.”

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