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Fabrício Carpinejar

Liberdade na vida é ter um amor para se prender
Fabrício Carpinejar

A poesia esteve sempre presente na vida de Fabrício Carpinejar. Filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, ele cresceu “respirando literatura”. O escritor ressalta, no entanto, que os pais nunca o pressionaram; a opção pela literatura foi um caminho natural. Aos 15 anos, começou a escrever poemas e, em 1998, lançou As solas do sol, o primeiro de muitos livros que se seguiram. Entre poemas e crônicas, foram 16 obras publicadas até agora, todas numa linguagem extremamente poética e, ao mesmo tempo, irreverente. Meu filho, minha filha traz poemas que abordam com realismo o universo da família contemporânea; Cinco Marias retrata o universo passional e sensível de uma mãe e suas quatro filhas; Um terno de pássaros ao sul são músicas em forma de poemas; Canalha!, coletânea de crônicas sobre a mudança de comportamento do homem no convívio doméstico, foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2009. Seu livro mais recente, Mulher perdigueira, recebeu da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre o Prêmio Açorianos 2010 de melhor livro de crônicas. Original como sempre, Carpinejar defende a mulher ciumenta: “O ciúme é um exercício saudável da imaginação. É muito melhor uma mulher ciumenta do que uma mulher indiferente. Prefiro o excesso à falta”.

O humor e a fina ironia fazem parte da personalidade desse gaúcho de Caxias do Sul, que diz buscar inspiração para seus textos na banalidade da vida cotidiana. “O sobrenatural é banal, é aquilo que a gente não fala porque quer ser melhor que os outros, mas está na nossa vida, na nossa cara, na nossa frente. Aquilo que a gente pensa que todo mundo já sabe, as pessoas não sabem, e tudo o que a gente pensa que não sabem, elas sabem. O que mais gosto de fazer é desafiar as aparências. Todo meu processo de escrita vem da contação de histórias, do suspense dentro de casa. A gente aprende a se abrir, a se humanizar através da leitura”.

Colunista do jornal Zero Hora e da Revista Crescer e professor universitário da Unisinos, de Porto Alegre, o escritor prepara dois lançamentos: um livro de crônicas, mais autobiográfico, em que compara a própria infância com a infância dos filhos, e um livro de poemas. E quem quiser desfrutar de seus comentários bem-humorados, vale a pena acompanhar seu twitter (@carpinejar) e seus três blogs, que ele faz questão de atualizar constantemente. Aliás, foi assim, filosofando, que Fabrício Carpinejar selecionou seus livros preferidos para os leitores da Platero:

Belo, Belo e outros poemas, de Manuel Bandeira – pela simplicidade melódica e essa capacidade de reconhecer a si mesmo ouvindo os outros.

A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector – não há melhor inseticida do que a metafísica!

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – é um livro narrado, falado, em que a voz é uma corrente oceânica. Quem somente lê em silêncio aprende a necessidade de ler em voz alta.

Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto – quando a gente canta, espanta o sofrimento. E não há vida pequena que não possa virar teatro.

Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles – o machismo da literatura brasileira terminará quando proclamarmos Cecília como a maior poeta da língua portuguesa.

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – a imaginação sempre conserta nossas memórias.

As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino – ele me condicionou a viajar, sempre percebendo uma cidade como se fosse uma mulher.

Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade – a timidez é a maior coragem que existe, o olhar de viés, torto, capaz de conciliar o escuro com o claro. Toda grande amizade nasce de uma desconfiança.

A poética do devaneio, de Gaston Bachelard – ele mostrou que a teoria pode não ser chata e que, para escrever sobre poesia, só poetando.

A Divina Comédia, de Dante Alighieri – a gente pensa que o Inferno é insuportável, até conhecer o Paraíso. É a maior realização lírica, quase uma bíblia profana.

Poemas de W. H. Auden – esse poeta inglês prima pelo humor e pela ironia. Reconhecemos quando uma pessoa está feliz pelo seu talento em fazer graça.

Crônicas de Rubem Braga – a delícia do cotidiano, tão insignificante, tão desnecessário. Somente o provisório é eterno. Rubem passeia enquanto muitos correm. O passeio é mais rápido, é quando deixamos o pensamento correr.

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resgate literário – MANUEL BANDEIRA

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha,andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

Como expressar o vazio de uma vida de forma mais econômica, potente e, por outro lado, até cômica? Como conseguir tamanho grau de tristeza, sem apelar para nenhuma subjetividade ou lirismo auto-piedoso? Todos sabem que rir de si mesmo é sábio e trágico ao mesmo tempo, mas poucos saberiam, como Manuel Bandeira, transformar essa verdade do senso-comum em um poema simultaneamente simples e tão contundente.

Manuel Bandeira é uma das três faces do triângulo de grandes autores da poesia brasileira, na opinião unânime de críticos, pesquisadores, professores e do público. Os outros dois são Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. No entanto, durante toda sua vida, Bandeira fez questão de se autodenominar poeta menor. Não que na palavra “menor” haja alguma comparação de valor em relação aos outros dois, ou mesmo em relação a qualquer outro poeta, daqui ou de qualquer lugar. O termo “menor” é justamente a medida exata de sua grandeza e, quem sabe, o traço que o diferencia.

É fato que, após a invenção de sua “poesia menor”, surgiram dezenas de discípulos e de imitadores desta poesia misteriosa, que é grande exatamente por ser pequena. Mas, além do fato de ser pioneira, nenhum de seus seguidores chegou ao grau de destilação, simplicidade e perfeição a que chegou Manuel Bandeira. Sua poesia é “menor” porque é a poesia do pequeno, dito de modo pequeno.

Davi Arrigucci Junior, um dos pesquisadores que mais fundo penetraram na obra de Bandeira, diz que o poeta “desentranhava” seus poemas da língua e da vida. É justamente essa a palavra. Bandeira extrai, de coisas aparentemente inócuas, isentas de carga afetiva ou simbólica, todo seu valor poético oculto. Assim, um cacto enorme atravessado numa rua qualquer, que, ao cair, atrapalha o trânsito, lembra Laocoonte contorcendo-se em meio às serpentes, ou Ugolino, um dos condenados no Inferno de Dante. Mas tudo isso sem a menor sombra de eloquência ou elevação linguística. Seria melhor dizer que a mitologia grega e a Divina Comédia é que vêm à rua conversar com o cacto que, este sim, é “belo, áspero, intratável”, palavras que traduzem, como poucas, o caráter do nordestino encravado na cidade grande.

Da mesma forma, desentranham-se do cotidiano um gatinho descansando numa pensão burguesa, um vendedor de balões, os negrinhos carvoeiros e a tuberculose do próprio poeta, como materiais de carga poética quase imanente, como se eles emanassem poesia sem que fosse necessário tocá-los com ela. Porque, em Bandeira, é como se não houvesse esforço no ato de atribuir poesia ao aparentemente não poético. Pelos seus olhos, ou melhor, com suas palavras, qualquer coisa parece capaz de conter força de poesia, embora só as palavras de Bandeira sejam capazes de fazê-lo.

No Itinerário de Pasárgada, espécie de tesouro autobiográfico e poético, em que Bandeira narra a genealogia de vários de seus poemas, o autor conta sobre sua produção feita a partir de “alumbramentos”, um tipo de iluminação súbita de que ele era acometido e que o fazia escrever de forma urgente, como que incontrolável. É importante, entretanto, que leitores mais incautos não confundam essa ideia de alumbramento com outra ideia, sua parente, de inspiração romântica, improviso, escrita do puro sentimento. Ao contrário. Na simplicidade de Bandeira esconde-se (e mostra-se) um grande rigor semântico, musical, sonoro e especialmente rítmico.

Maior mestre do verso livre, em sua poesia sobram musicalidade, firmeza e cuidado. Seus alumbramentos, por assim dizer, são certamente fruto de uma mistura inédita e única de grande conhecimento literário, experiência (de poesia e de vida), muita leitura, intuição, pensamento e, inegavelmente, um talento poético incomparável. Como conseguir, afinal, transformar fatos de sua vida, como a tuberculose, a morte do pai, da mãe, da irmã, a infância em Recife, suas visitas a Minas Gerais, em uma poesia sem nenhuma sombra de biografismo, apelação sentimentalesca, rompantes subjetivos?

Somente Manuel Bandeira foi capaz de construir esse rio, essa casa, essa concha da língua, em que simplicidade, humor, melancolia e densidade se reconhecem para formar uma poesia total.


Noemi Jaffe é doutora em Literatura Brasileira pela USP, escritora e professora, autora dos livros Todas as coisas pequenas; Do princípio às criaturas; Folha Explica Macunaíma e Ver palavras, ler imagens, entre outros.

 


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