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O leitor indica: comentários de Heloisa Prieto


Um conto português sobre uma princesa travessa que não queria aprender a ler teve influência decisiva na vida de Heloisa Prieto: estimulou seu gosto pela leitura, ainda pequena, atraindo-a definitivamente para o universo literário. “A partir daí, ler passou a ser tão interessante quanto as brincadeiras que eu adorava, virou sinônimo de aventura”, conta a escritora. “Ganhei logo depois O sítio do picapau amarelo, do Monteiro Lobato, que também guardo até hoje. Como diria minha avó, ler livros me ajudou a ler a vida. São os livros que me conduzem a pessoas e lugares. Costumo brincar que sou uma boa filha de Hermes, deus grego das palavras e das estradas”.

Do prazer pela leitura à escrita foi um caminho natural e bem-sucedido. Atualmente, essa doutora em literatura francesa, mestra em comunicação e semiótica, tradutora e escritora, tem 58 livros publicados, entre os quaisDivinas aventuras e Divinas desventurasLenora, a série Mano, em co-autoria com Gilberto DimensteinO super-herói e a fraldaA dona da bola e a dona da históriaA princesa que não queria aprender a ler e, o mais recente, Cidade dos deitados, de terror, que ganhou o Prêmio Jabuti 2009 na categoria Juvenil. No prelo, estão o oitavo volume da série Mano, uma homenagem ao filme As melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky, que se inspirou no personagem Mano, e Memórias de um corsário, além de outros projetos.

Como leitora voraz, que devora diversas obras ao mesmo tempo, a lista de livros marcantes de Heloisa Prieto é longa. Para a Revista Platero, ela destaca alguns dos que está lendo no momento – e “adorando!”:

Viagem a IxtlanCarlos Castaneda. Castaneda tem uma obra vasta, de altíssimo nível, superdensa e maravilhosa, inclusive do ponto de vista literário. Na história do Ixtlan, ele decide fazer uma tese sobre os índios yaki e encontra Don Juan, um mestre no conhecimento das ervas medicinais. O livro registra os diálogos entre os dois, que são belíssimos.

Livro das mil e uma noites, tradução de Mamede Mustafá Jarouche. É o livro da minha vida, já li várias versões. Esta tradução é muito minuciosa, tem detalhes que não vi nas outras e que fazem a diferença na maneira de compreender uma história.

Atrás das linhas inimigas de meu amorLeonard Cohen. Um dos grandes ícones da literatura de vanguarda, Cohen tem uma poesia sombria e, ao mesmo tempo, lírica e irônica. Já conhecia seu lado musical e me encantei também com seu lado poético.

O fazedorJorge Luis Borges. O Borges é sempre maravilhoso, é essencial, estou relendo todas as suas obras. Este livro fala sobre memórias, misturando lembranças pessoais e literárias. O autor inventa histórias no meio, atribuindo-as a outras pessoas, mas na verdade são dele. Gostei especialmente porque mescla os dois lados de Borges: o lírico e o prosador.

Assunto encerradoÍtalo Calvino. São ensaios sobre literatura com uma profunda visão de mundo. Falam sobre a natureza e a história do romance, sobre objetividade, narradores primordiais, filosofia e literatura, ciência e literatura. É inclusive um convite para ler os livros mencionados, pois Calvino não apenas cita cada um, como resume, contando uma parte da narrativa e despertando a curiosidade.

A caixa de PandoraDora e Erwin Panofsky. Fala do percurso desse mito através dos séculos, de como ele foi sendo re-significado, de como cada tempo, cada época e cada lugar se apropriaram dele. Particularmente, foi um mito da minha infância; li quando era pequena e desenvolvi um carinho especial por Pandora.

 

Matéria da Revista Platero http://www.revistaplatero.com.br/n2/leitor_indica.htm 

A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Qual é sua princesa favorita?

Engana-se quem imagina que as princesas, para merecerem o título, precisam necessariamente cumprir o estereótipo da mocinha sempre impecável e obediente. Ao menos no universo da literatura, o retrato não precisa ser tão restritivo. É o que garante a escritora Heloisa Prieto, autora de vários livros infantojuvenis, entre eles A princesa que não queria aprender a ler. Inspirado num dos contos de fadas que ela mais amava na infância, tem como protagonista Rosa, uma princesa hiperativa que não se interessava pelos ensinamentos do professor. Até que surge um momento no qual a leitura vira uma necessidade de vida ou morte…

“Princesas podem simbolizar a beleza, a sorte, a bondade, uma vida de riqueza, cuidados, e, quem sabe, um casamento com um príncipe”, observa Heloisa. “Particularmente, quando garota, eu não sonhava com isso, preferindo a liberdade de brincar. Daí minha identificação com uma princesa moleque e rebelde”. No rol de suas preferidas, estão a princesa Walquíria, guerreira que luta e cavalga durante as aventuras; Morgana, a princesa maga da corte do rei Arthur, “uma figura muito polêmica e rica”; e Etaine, originária de um mito celta, jovem transgressora que se apaixona por um elfo, Midhir. Na opinião da autora, a figura da princesa é sinônimo de generosidade de espírito e não está relacionada a riquezas ou beleza concretas. “Manter-se corajosa, idealista, saber sobreviver aos perigos são qualidades inatas de toda princesa, algo a ser cultivado sempre, não importa a idade.”

Presentes principalmente nas sagas, narrativas de famílias lendárias e nos contos de fadas, as princesas habitam o imaginário e a mitologia há muitos séculos. Princesas esplêndidas são encontradas na obra O senhor dos anéis, de Tolkien, um dos maiores narradores de todos os tempos. Para Heloisa Prieto, princesas são figuras de sonho, e a maneira como imaginamos a beleza, a sorte ou a felicidade diz muito sobre uma cultura particular. “Além disso, ao longo da vida, a identificação com personagens fantásticos pode variar conforme a sensibilidade e o momento pessoal de cada um. A cada escolha, um pedaço do leitor se revela por meio de seu sonho infantil”. Será que hoje, depois de ter passado por momentos históricos como o feminismo e a luta pelos direitos civis, a figura da princesa permanece a mesma? “Pessoalmente, vejo uma figura de ficção como a aventureira Lara Croft vestindo o traje de princesa contemporânea”, afirma a escritora.

A importância da diversidade

Embora concorde que a imagem das princesas varie com o tempo e a sociedade, Heloisa Pires Lima, estudiosa da cultura africana e autora de livros voltados ao público infantojuvenil como Histórias da Preta e A semente que veio da África, acredita que a representação dessa personagem nem sempre abrange essa diversidade. “No Brasil, prevalecem as princesas de origem europeia, que circulam durante a infância nos livros, brinquedos e filmes. Se toda menina é uma princesa, aquelas que constroem sua identidade numa origem africana podem se deliciar no modelo tanto quanto uma menina chinesa, que pode brincar e gostar de ser uma princesa africana. Quanto maior a diversidade para a ideia de princesa, melhor a noção de igualdade e o prazer em conhecer a diferença”.

Atenta à presença da origem africana nesse acervo, a escritora apresentou algumas princesas explorando repertórios culturais diversos. Para o livro O espelho dourado, encontrou inspiração nas sociedades achantis do noroeste daquele continente, e nesse cenário surge a princesa Nyame, divindade cujo corpo de fogo provocou o nascimento do universo. Organizado por ela, o livro Lendas da África Moderna, de Rosa Maria Tavares Andrade, traz a lenda O brinco da princesa, que remete ao antigo reino de Gana, onde o brinco de uma princesa tem poderes extraordinários.

Para Heloisa, hoje as versões das princesas podem não permanecer as mesmas, desconstruir o padrão fora de moda e até dispensar o príncipe para ser feliz. No entanto, a audiência do recente episódio do casamento do príncipe William demonstra o quanto o ícone faz sentido para os contemporâneos. Diante disso, bom mesmo é poder descobrir em qual tipo de princesa você se reconhece, e viver feliz para sempre!

Leia mais

Princesas – Esquecidas ou desconhecidas, de Philippe Lechermeier
Até as princesas soltam pum, de Ilan Brenman
A princesa que salvava príncipes, de Cláudia Souza
Omo-Oba – Histórias de princesas, de Kiusam de Oliveira
O livro das cartas encantadas – A correspondência secreta das princesas, de Índigo
18 histórias de princesas e fadas, da Ciranda Cultural
Cada sapo com seu papo, cada princesa com sua sutileza, de Fátima Miguez
Coleção Princesas da Disney
Coleção Diário da Princesa, de Meg Cabot
Coleção Clube da Tiara, de Vivian French

 

Matéria da seção Espaço Jovem da Revista Platero nº 23 / setembro 2011 www.revistaplatero.com.br 

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ESPAÇO JOVEM – Histórias de coragem

…Naqueles tempos do passado, o herói era o cavaleiro que seguia um código de honra, o código da cavalaria. E, segundo essas leis, ele deveria ser justo, leal, obedecer ao rei, defender os injustiçados e proteger donzelas em perigo.
(Heróis e guerreiras, de Heloisa Prieto)


No final do século V, com a saída do Império Romano e, posteriormente, com a morte do rei Uther Pendragon, a então chamada Bretanha tornou-se palco de invasões e ataques de guerreiros bárbaros. Enquanto os lordes brigavam entre si para se apoderar do trono, as lutas sangrentas e a destruição dos vilarejos se alastravam. É nesse contexto de anarquia que tem início a lenda do rei Artur, o jovem que, ajudado pelo mago Merlim, foi o único a conseguir arrancar da pedra a espada mágica Excalibur, sendo coroado como o verdadeiro rei de toda a Inglaterra, com a missão de levar união e paz ao seu povo. O novo soberano também recebeu de presente uma grande Távola Redonda, ao redor da qual reuniu os melhores cavaleiros da Europa.

Esses bravos homens, que tinham como código de honra proteger as mulheres e defender a justiça, conquistaram muitas glórias, tornando-se famosos pela coragem, pela generosidade e pela retidão. Transmitidas oralmente durante séculos, suas proezas foram escritas na Idade Média e, desde então, vêm ganhando seguidas versões literárias, além de adaptações cinematográficas. O rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda continua encantando o público com suas histórias cheias de magia e mistério. Como as do druida Merlim, que tinha poder sobre as trevas e a luz, e da feiticeira Morgana, que usava seus poderes para fazer o mal. E quem nunca ouviu falar de sir Lancelote, o belo cavaleiro invencível que despertou suspiros até da rainha Guinevere, mulher do rei Artur?

Entre outros heróis que se consagraram na literatura, um dos mais célebres é Robin Hood, imortalizado como o ‘príncipe dos ladrões’. Hábil no arco e flecha, ele vivia na floresta de Sherwood, no centro da Inglaterra, e roubava dos ricos para dar aos pobres, defendendo os injustiçados e punindo os opressores. Suas intrépidas aventuras e seu romance com a nobre e arrojada donzela Marian inspiraram incontáveis versões em livros que, mesclando fantasia e realidade, conduzem o leitor a um passeio fascinante pela Inglaterra medieval. Ivanhoé, o destemido jovem que acompanhou o rei Ricardo Coração de Leão em sua cruzada à Terra Santa, também ficou famoso pelas façanhas e arrebatou corações – não só de sua amada lady Rowena, como de inúmeras jovens leitoras que se imaginam protagonizando episódios emocionantes.

Autora de Heróis e guerreiras, um livro que reúne histórias de personagens marcantes ao longo do tempo e se destaca pela originalidade das narrativas, Heloisa Prieto considera que a palavra coragem geralmente remete a cenas de ação, “um herói de espada em punho diante de um temível dragão”, por exemplo. Para ela, um dos heróis mais famosos de todos os tempos foi o rei Artur: “A família de lendas que gira em torno de seu nome imprime um código de honra e justiça: o código da cavalaria. Respeito pelo adversário, ética no modo de lutar e proteção aos mais fracos eram valores defendidos pelos cavaleiros da Távola Redonda. Após a publicação, no século XV, da obra de Thomas Malory, A morte de Artur, virou moda na Europa ser descendente de algum cavaleiro. Escritores eram contratados por nobres para simplesmente inventar feitos de antepassados ilustres. Biografias fantasiosas se espalhavam em livros cuidadosamente ilustrados, cujas capas continham brasões e outros símbolos”.

Foi para se contrapor a essa farsa, segundo ela, que Miguel de Cervantes criou “o cavaleiro mais atrapalhado de todos os tempos, Dom Quixote, o louco que via dragões onde havia moinhos, o anti-herói por excelência”. Uma obra-prima que se consagrou como o clássico mais importante da literatura espanhola, a segunda obra mais traduzida e editada do mundo, depois da Bíblia. Dom Quixote era um fidalgo imaginativo que, influenciado pela leitura excessiva de livros de cavalaria, sai pelas planícies espanholas para impor justiça, na companhia de seu fiel escudeiro Sancho Pança. Heloisa Prieto comenta que anos depois, na França, o intrépido e ousado escritor Alexandre Dumas criou Os três mosqueteiros e o personagem D’Artagnan, em homenagem tanto ao rei Artur quanto a Dom Quixote – “D’Artagnan é distraído e faz muita bobagem, mas tem a habilidade de espadachim de um cavaleiro arturiano, bem como os mesmos ideais de justiça. No lugar dos dragões, D’Artagnan enfrenta intrigas políticas e, por isso, pode ser considerado um herói contemporâneo”.

A escritora vai até o Oriente, lembrando outros heróis e outras conquistas. Fala do mais famoso de todos os samurais do Japão, Miyamoto Musashi, perito em artes marciais e autor do O livro dos cinco anéis (1645). A trajetória de Musashi e sua peregrinação em busca do autoconhecimento e do aperfeiçoamento não só como guerreiro, mas também espiritual, o levou a ser conhecido como o ‘Sábio da Espada’, um dos mais hábeis e dignos samurais de sua época. O que remete, como observa Heloisa Prieto, ao ensinamento do sábio chinês Lao-tse, em cuja filosofia se baseiam os praticantes de tai-chi: Quem vence os outros é forte. Quem vence a si mesmo é invencível.

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