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A Revista Platero de julho está no ar!

A revista Platero de julho está imperdível: a escritora Patrícia Melo fala de seu novo livro;  o autor Walcyr Carrasco indica suas leituras prediletas; Sidney Gusman, editor do site Universo HQ, comenta sobre os melhores quadrinhos; e tem uma entrevista muito legal com Edson Nery da Fonseca, amigo pessoal de Gilberto Freyre, falando sobre a vida e obra do grande historiador brasileiro, que é o homenageado deste ano da Flip. Boa leitura!

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Resgate literário: “Gilberto Freyre era uma pessoa encantadora”

De seus livros, muitos críticos e estudiosos já falaram e ainda vão falar muito. Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e progresso, entre tantos mais que ele escreveu sobre a formação do povo brasileiro, são referências essenciais para quem quer compreender o Brasil. Mas de como era e o que pensava Gilberto Freyre, quem melhor para falar do que um amigo e especialista em sua obra?

O ensaísta Edson Nery da Fonseca, professor emérito da Universidade de Brasília, teve “o privilégio de conviver com ele”, como diz, e de acompanhar de perto sua trajetória. Era seu compadre, amigo íntimo e confidente. “Ele foi o maior mestre que eu tive. Era uma pessoa encantadora, recebia todos muito bem. Fabricava em casa um conhaque de pitanga, cuja receita dizia ser um ‘segredo maçônico’, e ele próprio fazia questão de servir aos visitantes em cálices de cristal e bandeja de prata. Era muito requintado nesse ponto, mas sem nenhuma pose, com a maior naturalidade”, recorda com afeto.

“Eu costumo definir Gilberto Freyre não propriamente como o antropólogo, o sociólogo e o historiador social que ele foi, mas como um grande sedutor. Ele nos seduzia – mesmo a quem não o conheceu – com suas ideias originais a respeito da formação brasileira. Mostrou que quem fez o Brasil não foi nem a igreja católica nem a coroa portuguesa, foi a família patriarcal, os portugueses, os índios e os negros. E ele defendeu a miscigenação, que era considerada, até por grandes sociólogos, um mal para o país. Para Gilberto, o mal foi a subnutrição causada pelos alimentos trazidos de Portugal, que passavam dias e dias naquelas naus e acabavam se estragando. Era por causa dessa alimentação deficiente que o povo brasileiro, no início, tinha aspecto de subnutrido.”

A sedução de Gilberto Freyre, entretanto, vai além da extraordinária análise que ele fez da sociedade brasileira. “Ele nos seduzia também pelo estilo literário”, ressalta Nery da Fonseca. “Gilberto foi acima de tudo um escritor literário, muitas vezes criticado por sua linguagem irreverente, que fugia aos padrões acadêmicos dos cientistas sociais. Seu estilo se distinguia pelo uso de dois elementos singulares: o ‘imagismo’, isto é, o uso de imagens para exprimir as ideias, como se a palavra não fosse suficiente, e a ‘enumeração caótica’ – sequência de palavras vinculadas a uma ideia, mas sem ligação entre si. No livro Sociologia da Medicina, por exemplo, quando define a civilização atual como civilização do homem sentado: (…) sentados em sofás, em cadeiras, em cadeiras de balanço, sentados nos escritórios, sentados nas fábricas, sentados para assistir jogos de futebol, sentados nos aviões, nos trens, sentados andando e sentados descansando…”

Na série Introdução ao estudo da sociedade patriarcal no Brasil, Gilberto Freyre aborda desde o período colonialista até o Brasil República. São três volumes, com títulos simbólicos: Casa-grande & senzala, publicado pela primeira vez em 1933, hoje com mais de 50 reedições, retrata os primórdios da sociedade patriarcal, a relação dos senhores com os escravos, os hábitos e a sexualidade. Sobrados e mucambos analisa a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento urbano, com os senhores mudando-se para grandes sobrados, na cidade, e os escravos libertos, abandonados pelo Estado e pela Igreja, construindo mucambos para morar – começou aí a pobreza brasileira. E o terceiro, Ordem e progresso, abrange o período de transição da monarquia para a república e a expansão industrial.

Ordem e progresso traz uma enumeração caótica de tudo o que caracterizou aquela época: estilos de residências, de móveis, de automóveis, de roupas, de chapéus…, incluindo os fenômenos da moda, como os ataques histéricos nas saídas de enterros e em outras situações dramáticas. “Eu assisti a esses ataques quando era menino, as moças davam gritos e caíam duras no chão, não estavam fingindo não, era preciso que o médico aplicasse uma injeção de óleo canforado”, conta Nery. “O Gilberto era muito impressionado com o fenômeno da moda, que atinge até a parte fisiológica das pessoas. Há inclusive um livro dele sobre o tema, Modos de homem & modas de mulher“.

Uma característica marcante de Gilberto Freyre, ressaltada pelo amigo, é que ele não gostava de conclusões. Isso provocava a reação de críticos, que elogiavam muito sua obra, mas faziam uma restrição: o livro não conclui. Ele concordava e esclarecia: Meu empenho não é em concluir, é em sugerir, porque a verdadeira ciência é humilde. “O Gilberto dizia que, quando você conclui, você fecha o assunto, como se não houvesse nada mais a acrescentar. No entanto, o saber está sempre progredindo. Introdução a, em torno de, a propósito de são expressões frequentes em seus livros e ilustram essa sua prudência científica de não querer ser definitivo. Ele era um ensaísta, não um tratadista”.

Gilberto Freyre será o homenageado da FLIP 2010, a famosa festa literária internacional realizada no início de agosto em Paraty (RJ). No evento, sua obra será debatida de diversos pontos de vista – da antropologia, da sociologia, da literatura -, e Edson Nery da Fonseca foi convidado a participar da mesa Ao correr da pena, sobre a escrita de Freyre. Autor de vários livros, entre eles Vão-se os dias e eu fico, de memórias; Estão todos dormindo, sobre grandes escritores de quem foi amigo; e Em torno de Gilberto Freyre, Nery vai ressaltar a sedução dos textos do grande historiador social. “O Gilberto tem um vocabulário muito rico, sabe? Mas não queria ser hermético, usar terminologias científicas, pois queria ter leitores de todos os níveis. Muitos escreveram sobre o Brasil, mas ninguém fez uma interpretação tão original e autêntica como ele”.

Curiosidade: Edson Nery da Fonseca conta que Gilberto Freyre tinha intenção de escrever o quarto e último volume da série iniciada com Casa-grande & senzala. O título seria Jazigos e covas rasas, a última morada dos senhores e dos escravos. “Ele preparou uma grande documentação para escrever esse livro, mas não escreveu. Dizia que a documentação tinha sumido de sua casa em Apipucos. Madalena, mulher dele, dizia: Gilberto, ninguém ia entrar aqui para pegar isso! Minha explicação é a seguinte: Ele não escreveu porque não queria concluir nada”.

* Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero n. 9 / julho 2010, publicação da Livraria Martins Fontes

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