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ADRIANA FALCÃO: ESCREVER É O QUE MAIS GOSTO DE FAZER

Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho. (trecho do livro O doido da garrafa)

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Todo escritor tem uma característica. A de Adriana Falcão, sem dúvida, é a habilidade em lidar com as palavras com muita criatividade e uma pitada de humor. Arquiteta por formação, “uma das escolhas mais burras que fiz na vida”, Adriana conta que percebeu que criar projetos não era seu destino e acabou virando redatora de publicidade. “Ganhava dinheiro escrevendo, que é a coisa que mais gosto de fazer, tinha três lindas meninas, estava tudo certo. Apesar de carioca, desde os 11 anos morava no Recife. O João Falcão, com quem estou casada há mais de 20 anos, no entanto, tinha muita vontade de vir para o Rio e nós, num ato de coragem, largamos tudo e viemos com as meninas. Daí a sorte, a vida, Deus e nossa vontade nos ajudaram e terminei me tornando escritora e roteirista”. Seu livro A máquina (1999), segundo ela o início de tudo, conta a linda história de amor de Antonio por Karina, que o faz até viajar no tempo, e cativa pela narrativa delicada e cheia de humor. “Tentei escrever uma peça de teatro, não consegui, e escrevi a história num formato literário para meu marido adaptar para o teatro depois. Mas o livro foi publicado e eu virei escritora”. Como roteirista, Adriana está por trás dos programas mais espirituosos da televisão brasileira, começando por A grande família, onde há 10 anos escreve textos que retratam o cotidiano de uma típica família de classe média brasileira. Ela fez também textos para as séries Comédia da vida privada e Brasil legal, além de roteiros para cinema. Seu primeiro livro infantil, Mania de explicação, que relata a história de uma menina que adora imaginar e inventar explicação para as coisas complicadas do mundo, recebeu duas indicações para o Prêmio Jabuti 2001 e o Prêmio Ofélia Fontes, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, ela publicou o romance juvenil Luna Clara & Apolo Onze. Entre outras obras suas de sucesso, destacam-se O doido da garrafa (2003), Pequeno dicionário de palavras ao vento (2003), O Zodíaco – Doze signos, doze histórias (2005), Sonho de uma noite de verão (2007) e A arte de virar a página (2009). “Sempre gostei de ler e de escrever, mas achava inatingível ser escritora”, conta Adriana. “O Universo foi me ajudando e eu virei escritora ‘sem nunca ter escolhido’. Gosto de mexer com as frases, com as palavras, surpreender com elas, com uma ideia, com o sentido. Encontro inspiração para meus textos na vida, em algo que vi na rua ou que me contaram, na hora de escrever vai tudo! Sou muito disciplinada e muito insegura. E a minha insegurança é a minha melhor amiga. É ela que me faz querer sempre aprimorar, revisar, ter uma ideia melhor… Acho que só sei fazer humor. Sou assim na vida também. Se algo é ruim, logo vira piada. É completamente diferente escrever literatura, para o cinema e para a televisão, e faço tudo isso feliz da vida, me sentindo muito sortuda por trabalhar com algo tão instigante”. Entre os escritores que a influenciaram, Adriana cita, sem pestanejar, Fernando Pessoa e Gabriel García Márquez. Sempre leu muito e afirma que seu escritor preferido é o mineiro Paulo Mendes Campos, autor de A palavra escrita, Cisne de feltro e Os bares morrem numa quarta-feira, entre muitos livros. “Gosto de vários outros autores, mas o Paulo é uma paixão especial!” No momento, além do seriado A grande família, a autora está escrevendo para um novo projeto de João Falcão e para outro de Daniel Filho. “Estou trabalhando feito louca. Mas não me preocupo com os próximos projetos. A vida tem me levado e vou indo. Na verdade, o que eu queria mesmo era trabalhar menos, escrever mais literatura e ter tempo para a minha neta Isadora, que é a minha mais nova e maior paixão”.

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Aventuras no mar

 

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pelo!
(do poema Palavras ao mar, de Vicente de Carvalho)

 

“O mar fascina por seus mistérios. Fascina por suas profundezas. Fascina por suas cores, do azul ao verde. Fascina porque vai ao horizonte. Fascina porque inquieta”, diz o jornalista e escritor santista José Carlos Silvares, que atua há 38 anos na cobertura de assuntos sobre o Porto de Santos, o maior da América Latina. As inúmeras reportagens que realizou, com histórias e depoimentos de comandantes e passageiros, permitiram um contato intenso com tudo o que diz respeito à navegação e inspiraram a publicação de dois livros: Principe de Asturias, com material inédito do trágico naufrágio desse transatlântico espanhol, ocorrido no Brasil em 1916, e o recente Naufrágios do Brasil – Uma cultura submersa, que trata de 35 naufrágios ocorridos em sete estados brasileiros entre 1648 e 2005, com imagens e relatos baseados em declarações e fatos reais.

Apaixonado desde garoto por histórias de piratas, de grandes navegações e por todo o tipo de literatura fantástica ligada ao mar, Silvares considera que escrever sobre esse tema não tem limites… “Há tantos livros ótimos”, exclama, citando alguns, como Relato de um náufrago, de Gabriel García Márquez; O velho e o mar, de Ernest Hemingway; A expedição Kon-Tiki, de Thor Heyerdahl; o maravilhoso A viagem do Liberdade, de Joshua Slocum; as obras de Amyr KlinkCem dias entre céu e mar, Linha d’água, Paratii e Mar sem fim. A seu ver, as narrativas sobre episódios marítimos têm um fascínio especial porque representam partida e regresso, assim como mistérios e grandeza. “O mar foi palco de incontáveis aventuras desde a época das grandes navegações, dos descobrimentos de rotas. São histórias inspiradoras, que trazem consigo a sensação de liberdade e do inatingível”.

O mar parece ocupar um lugar especial em todas as culturas, comenta James Riordan, autor do belo volume Histórias do Mar, em que compilou narrativas de vários cantos do mundo, como A pequena sereia, Vento-do-mar, O dilúvio, O velho do mar e outras que têm em comum o respeito pelo poder maravilhoso e mágico do mar. Entre muitos povos, é o elemento da natureza mais citado e descrito nos contos. E, segundo Riordan, há uma boa razão para que seja assim: “O mar, com sua força absoluta e seu humor imprevisível, sempre inspirou medo e, ao mesmo tempo, profunda ternura. (…) Sempre teve também seus mistérios. Até hoje é fácil acreditar que o espírito do mar murmura e cintila quando está contente, ou ruge e se agita quando é contrariado”.

Na Trilogia dos Altos Mares, de Iain Lawrence, composta de três volumes – Os saqueadores, Os contrabandistas e Os bucaneiros -, não falta emoção e aventura. As proezas do personagem John Spencer têm início quando ele tinha apenas 14 anos e a embarcação de seu pai afundou na Cornualha. Único sobrevivente, o destemido rapaz enfrenta as ameaças de um pequeno vilarejo cujo povo vivia dos saques aos navios. No segundo volume, dois anos depois, ele assume o comando do imponente navio Dragão e, durante o percurso, defronta-se com perigos inesperados. O desafio maior, entretanto, virá no último volume, quando a caminho das Índias Ocidentais o jovem terá de reunir toda sua coragem e determinação para vencer os piratas e o maior dos facínoras, Bartholomew Grace…

Outra série empolgante é Mestres dos mares, que inspirou inclusive um filme famoso, estrelado por Russell Crowe. O autor, Patrick O’Brian, escreveu 20 livros, seis deles traduzidos e publicados no Brasil: A ilha da desolação, Expedição à Ilha Maurício, A Fragata Surprise, O capitão, O lado mais distante do mundo e Mestre dos mares. São romances históricos que conseguem transmitir, de forma vívida, os percalços de um navio em alto-mar. Repletos de ação e atos de bravura, os episódios são protagonizados pelo comandante Jack Aubrey e seu companheiro de aventuras doutor Stephen Maturin, envolvendo missões como a de impedir que a esquadra de Napoleão barre o avanço inglês no Oriente.

Quando se fala em aventuras no mar, não se pode esquecer dos clássicos imperdíveis que ganharam dezenas de versões, entre eles Moby Dick, de Herman Melville, considerado um poema épico em prosa sobre a eterna luta do homem contra as forças avassaladoras da natureza; Odisseia, de Homero, narrativa povoada de seres incríveis, como ninfas, sereias, monstros e gigantes, deuses benévolos e malignos que brincam com o destino dos homens; Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne, com o desbravador dos mares, capitão Nemo, e seu submarino Nautilos; e Simbad, o marujo, cujas viagens fantásticas povoam há séculos o imaginário das pessoas.

No Brasil, as aventuras marítimas também inspiram a literatura. Vários escritores têm enfocado o tema, como Ana Maria Machado, que em diversas ocasiões declarou seu amor ao mar, recontando histórias da tradição popular. Em Pescador de naufrágios, por exemplo, narra as aventuras do irlandês Jack Dogherty, que se dedicava à pesca de bens advindos de naufrágios, sendo conduzido por uma criatura do mar a lugares desconhecidos e misteriosos. E até mesmo as filhas do intrépido navegante Amyr Klink, Laura, Tamara e Marininha Klink já lançaram o livro Férias na Antártica, relatando suas interessantes e divertidas experiências. “Para ficar cara a cara com as focas-leopardo, passar por uma multidão de pinguins, escorregar em tobogãs de gelo e velejar sozinhas foi necessário ter coragem”, confessou Tamara. “Muitas pessoas falam em ‘criar coragem’. As viagens ensinam que a coragem já está dentro da gente; o que precisamos é aprender a colocá-la para fora”.

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