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Erico Verissimo – A história de um contador


“Sozinha no seu quarto, sentada na sua cadeira de balanço, e enrolada no seu xale, a velha Bibiana espera…[…] Viu guerras e revoluções sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro, quando menina, esperou o pai; depois, o marido. Criou o filho e um dia o filho também foi para a guerra. Viu o neto crescer, e agora o Licurgo está também na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto do corpo. Era morte de parente em cima de morte de parente, guerra sobre guerra, revolução sobre revolução. Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.” (O tempo e o vento – O Continente I)

Ele foi um emérito contador de histórias. Desses que é capaz de atrair de tal forma para o universo de sua imaginação que dali ninguém mais quer ir embora – conta-se que Erico Verissimo era abordado na rua por quem desejava saber o que havia acontecido com esta ou aquela personagem, como se tratasse de gente à solta na vida e não nos livros de sua autoria. Nesse papel sedutor, ele investiu no romance histórico como nenhum outro escritor do Brasil. O tempo e o vento, a obra mais significativa de sua carreira, diz respeito aos acontecimentos que alimentaram, entre 1745 e 1945, o cotidiano das famílias Terra e Cambará – obra colossal em três volumes, com um estilo narrativo que aproxima e induz à identificação.

“A arte de narrar de Erico Verissimo pode parecer simples, às vezes até descuidada – o leitor desavisado nem percebe o quanto há de trabalho nos modos que ele escolhe para contar histórias… Erico não optou por uma estética da palavra, mas sim pela da estrutura do texto”, realça Maria da Gloria Bordini, professora de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das mais renomadas especialistas da obra desse gaúcho, nascido em Cruz Alta, em 1905. Foi Maria da Gloria a escolhida por Mafalda Verissimo para organizar documentos e escritos deixados pelo marido, após a sua morte (1975). “Reler a obra de Erico é encontrar um autor que, sem propor aos leitores os enigmas de uma linguagem sofisticada, domina com firmeza as técnicas narrativas que surgiram ao longo do século 20, como se fossem triviais.”

Tudo o que ele escreveu – e escreveu às dezenas – soube fazer de modo diferenciado. Na narrativa de viagem, da qual Gato preto em campo de neve e México são exemplos, transmitiu detalhes coloridos dos lugares e pessoas que conheceu. No gênero infantil, exercitou a curiosidade de um jeito próximo ao de uma criança em As aventuras do avião vermelho e Os três porquinhos pobres. Nas memórias, contou sua vida “como se de um romance se tratasse, com recursos narrativos usados mais para ocultar a si mesmo do que para revelar-se”, comenta Maria da Gloria, o que torna “cativante” a leitura de Solo da clarineta. Gloria tem muito o que dizer sobre a obra de Verissimo. E não só: em seus tempos de estudante, acostumou-se a frequentar a casa do escritor em Porto Alegre, que abria as portas para os mais jovens sempre no início da noite. “Ele era amável e modesto, não se achava um grande escritor.”

Foi no romance que Erico Verissimo se sentiu mais à vontade “para denunciar a injustiça social, a perversão do sistema de classes, o uso pessoal e político da violência, as ditaduras que afligiram o país e as guerras locais e internacionais”, sintetiza a professora. Instrumento de luta que Verissimo utilizou a partir de Clarissa (1934), o primeiro romance publicado, assim como em Caminhos cruzados, escrito segundo a técnica do contraponto, O resto é silêncio, de estrutura em círculos concêntricos, e Incidente em Antares, cujo enredo alterna fatos reais, atravessando o Estado Novo e o período que antecedeu o golpe militar, e outros, fantásticos, como o julgamento moral da sociedade por mortos insepultos. “Há também O senhor embaixador e O prisioneiro, de teor político explosivo, pois punham em dúvida o papel das revoluções latino-americanas e a guerra de intervenção dos Estados Unidos”.

Com O senhor embaixador, Erico Verissimo ganhou o Prêmio Jabuti na categoria romance. A sua história mais conhecida, no entanto, é Olhai os lírios do campo, traduzida em mais de uma dezena de idiomas – o enredo de apelo sentimental narra a trajetória de um médico pobre que sobe na vida e se apaixona por uma médica exemplar que acaba morrendo, o que o modifica por completo. Ambientada em Porto Alegre, ela traduz outra característica emblemática da obra deste escritor: o vínculo ao urbano. “Erico Verissimo é decididamente o romancista da cidade, o que o aproxima ainda mais dos leitores”, conclui Maria da Gloria.

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero nº 19/maio, publicação da Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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Revista Platero nº 19 – maio

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Espaço Jovem: A força das ilustrações

Não só as crianças se encantam com livros ilustrados. Em qualquer idade, é fascinante passear por esse universo criativo, que conduz a imaginação a voos surpreendentes. Os desenhos são capazes de transmitir intenções, sensações e pensamentos muitas vezes difíceis de serem traduzidos em palavras. Interagem com as histórias de maneira perspicaz e divertida, dando mais vida às situações e aos personagens, despertando os sentimentos e a emoção do leitor.

E como são talentosos os profissionais dessa área! Alguns artistas renomados se destacam inclusive pelo trabalho autoral, cativando o público com suas histórias sem palavras. É o caso de Eva Furnari e sua série dedicada “aos bichos assustados”, com livros como Bruxinha Zuzu e gato Miú, que traz várias querelas entre gato, cachorro e rato, intermediadas pela bruxinha Zuzu. As aventuras de Bambolina, de Michele Iacocca, inspirou até peça de teatro ao narrar, através da expressiva linguagem visual do autor, a comovente trajetória de uma boneca que é desprezada e jogada fora, trocada por um novo brinquedo.

O artista gráfico Istvan Banyai mescla realidade e imaginação em sua curiosa obra O outro lado, apresentando cenas e objetos vistos de dois ângulos, de dentro para fora e de fora para dentro. O mote é: tudo tem um outro lado. O escritor e ilustrador Odilon Moraes, por sua vez, confirma que é possível dizer muito e tocar o coração das pessoas com desenhos sem qualquer rebuscamento. É nas nuances e nos contrastes das cores que ele imprime a força das mensagens, como no premiado Pedro e Lua e em O presente.

Há muitos livros em que as imagens não apenas acompanham o texto, como acrescentam conteúdo, enriquecendo a história. Um bom exemplo é o livro Gracie, a gata do farol, de Ruth Brown. Cada página é uma pintura digna de ser emoldurada. Isso, porém, não é tudo. Ao mesmo tempo que retratam a luta desesperada de uma gata para salvar seu filhote do mar revolto, os desenhos mostram um episódio verídico, ocorrido em setembro de 1838 na Inglaterra: o resgate de náufragos, numa noite de tormenta, por Grace Darling e seu pai, vigia do farol de Longstone.

Nessa linha, vale ressaltar o trabalho diferenciado de Mariana Massarani, que não se limita a ilustrar os textos. Com um traço “simples, selvagem e gaiato”, como ela mesma define, seus desenhos criam uma atmosfera propícia à história, adicionando elementos divertidos ao contexto. Uma de suas parcerias brilhantes pode ser vista no livro Mania de explicação, de Adriana Falcão, em que uma menina muito astuta inventa uma explicação para cada coisa: Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja. Tristeza é uma mão gigante que aperta o seu coração. Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe…

A imaginação também não tem limites nas bem-humoradas e nada convencionais ilustrações de Suppa, que interagem com as narrativas de forma inusitada, como em Sonho de bruxa, Onde tem bruxa tem fada e A coisa. Outro desenho bastante original é o da dupla Lalau e Laurabeatriz, autor e ilustradora de livros infantis poéticos como Uma cor, duas cores, todas elas e Faz e acontece no circo. E há uma infinidade de publicações que estimulam o contato com a natureza e os animais, desde séries singelas e graciosas como as do casal Mary e Eliardo França, que marcaram tantas gerações e continuam fazendo sucesso, até trabalhos inovadores como o Abecedário de aves brasileiras, de Geraldo Valério, que retrata mais de vinte espécies, utilizando a técnica de colagem sobre papel.

“As crianças são muito visuais e, quando vão escolher um livro, o que mais chama a atenção delas são as ilustrações”, afirma Valeria Breganholi, vendedora da Livraria Martins Fontes que tem grande conhecimento do setor infantojuvenil. “As imagens ajudam a passar a mensagem e vão puxando as histórias. Isso desperta a vontade de ler e desenvolve a imaginação. Muitas vezes é o que dá o clique da leitura. Até poesias ganham encanto maior quando ilustradas. A nova edição de A arca de Noé, poemas infantis de Vinicius de Moraes, ficou ainda mais atrativa com os desenhos de Nelson Cruz.”

Segundo Valeria, muitos ilustradores têm um traço característico e são facilmente identificados pelo público. “Alguns cativam pela simplicidade, pelo toque infantil e divertido, como Mariana Massarani e Suppa. Eva Furnari, que tem um desenho encantador, é reconhecida especialmente pela sua Bruxinha, personagem que a consagrou, além de textos como Pandolfo Bereba, que se tornaram célebres. Ela foi convidada a ilustrar as obras infantis de Erico VerissimoRosa Maria no castelo encantado, As aventuras do avião vermelho e outras que, com novo projeto, ficaram uma delícia de ler e passaram a ser muito mais procuradas. Os bons desenhos sempre enriquecem o livro. É gostoso ver ilustrações bonitas e inteligentes”.

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