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O leitor indica – Raimundo Carrero


O encontro de Raimundo Carrero com a literatura foi, no mínimo, inusitado. Por volta dos seus sete anos, o menino de Salgueiro, no sertão nordestino, descobriu uma verdadeira biblioteca de seu irmão mais velho escondida embaixo do balcão da loja do pai. Foi uma alegria e, a partir de então, ele não parou mais de ler, desde Dostoiévski, Bernard Shaw, até literatura brasileira, como Rachel de Queiroz. “Foi Deus quem deu essa biblioteca para mim”, afirma. “No sertão, eu passava o tempo todo lendo e aprendendo música”.

Quando a família se mudou para o Recife, Carrero, já adolescente, enveredou para o jornalismo. Trabalhou por mais de 20 anos no Diário de Pernambuco, passando por vários cargos, como editor de polícia e diretor de redação. Foi também jornalista concursado do serviço público por 30 anos. Junto com Ariano Suassuna, participou em 1970 da implantação do Movimento Armorial, que cria uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste. Atualmente, além de escrever, dedica-se às oficinas de criação literária voltadas para jovens interessados na carreira de escritor. Com o dinheiro que recebeu do Prêmio São Paulo de Literatura pelo livro A minha alma é irmã de Deus (Melhor Livro do Ano 2009), comprou uma casa no Recife que está reformando para instalar um centro cultural, com salas de oficinas literárias, auditório para cinema e teatro e cafeteria.

“A literatura leva ao conhecimento da perfeição”, ressalta Carrero que desde cedo começou a escrever. Ele tem uma produção ampla e reconhecida, sendo seu primeiro sucesso A história de Bernarda Soledade, a tigre do sertão (1975). Depois, vieram vários outros, entre os quais Maçã agreste, Sinfonia para vagabundos, Somos pedras que se consomem, que lhe valeu os prêmios APCA e Machado de Assis, e As sombrias ruínas da alma, consagrado com o Prêmio Jabuti. Seu livro mais recente, o romance Seria uma sombria noite secreta, narra a história de Raquel, uma moça de boa família que começa a se prostituir e encontra Alvarenga, um homem protetor que quer tirá-la das ruas.

Raimundo Carrero selecionou para os leitores da Revista Platero alguns livros e autores que considera indispensáveis:

Os possessos (Os demônios), de Dostoiéviski, é um livro de 1848 atualíssimo, que denuncia o clima de violência vigente entre um grupo socialista revolucionário em São Petersburgo.

Por quem os sinos dobram e Adeus às armas, de Ernest Hemingway são dois romances importantes e fundamentais pela qualidade literária acima da linguagem precisa e uniforme, com personagens muito fortes.

Madame Bovary, de Flaubert, apresenta uma nova perspectiva do romance literário e da estética a partir de um estudo precioso da palavra e da frase. Flaubert é responsável por grandes alterações e mudanças no romance moderno.

Vidas secas, de Graciliano Ramos, enfoca uma família de retirantes do sertão brasileiro, sua vida sub-humana diante de problemas sociais como a seca, a pobreza e a fome.

São Bernardo, de Graciliano Ramos, traça o perfil da vida e do caráter de um homem rude e egoísta, onde não há espaço nem para a amizade nem para o amor.

Dom Casmurro, de Machado de Assis, é o romance mais sofisticado e mais comentado do Ocidente, com muita qualidade literária e um enredo brilhante, a primeira digressão de um monólogo interior.

Romance d’A pedra do reino, de Ariano Suassuna, foi considerado um marco da literatura nordestina.

Avalovara, de Osman Lins, o ritmo poético precede e ordena os textos narrativos, numa união entre prosa e poesia que marcou o romance brasileiro contemporâneo.

Sol das almas, de Hermilo Borba Filho, é um romance que narra nordestinos sem puxar as ideias para o folclore nem para as atividades pitorescas do Nordeste.

Judas, o obscuro, de Thomas Hardy, é um clássico da literatura universal. Hardy, que até aí era poeta, depois desse romance transformou-se num dos maiores prosadores da Inglaterra antiga, com uma obra de linguagem muito forte e poderosa.

Essa terra, de Antoni Torres, retrata o impacto da cidade grande sobre o retirante nordestino. Torres é um escritor moderno que vale a pena ler pela qualidade literária excepcional e pela criação dos personagens. Possivelmente é o livro brasileiro mais traduzido na Europa e nos Estados Unidos.

 

Matéria da seção O Leitor Indica da Revista Platero nº 21/julho  www.revistaplatero.com.br.

A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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O leitor indica: Manuel da Costa Pinto


Colunista da Revista sãopaulo, editor do Guia Folha – Livros, Discos, Filmes, editor dos programas Entrelinhas e Letra Livre, da TV Cultura, o jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto assumiu mais uma função: diretor de programação da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). A escolha não foi por acaso – ele é hoje uma das pessoas que mais entendem de literatura no Brasil. O jornalista se tornou referência no mundo literário com a publicação de Albert Camus: Um elogio do ensaio, sobre as obras não-ficcionais de Camus, além de Literatura brasileira hoje e Antologia comentada da poesia brasileira do século 21, em que analisa a prosa e a poesia contemporâneas no Brasil.

O que despertou esse amor tão grande pelas letras? “A sensação ambivalente de estranhamento e de apego ao mundo – uma tensão expressa pelo escritor com o qual me identifico, Albert Camus“, afirma. É na leitura também que Manuel encontra inspiração e subsídios para seus textos. “Posso dizer que fui despertado para a literatura e, em especial, para a obra de Camus, por um livro escrito sobre ele pelo ensaísta argentino Horacio González. E leio sempre, todos os dias, seja por razões profissionais – minha coluna na Folha me obriga a ler um livro por semana -, seja como antídoto contra a realidade: literatura como legítima defesa!”

Para os leitores da Revista Platero, o jornalista selecionou alguns livros que considera indispensáveis:

Pensamentos, de Blaise Pascal – o projeto do físico e filósofo francês era escrever uma “Apologia da Religião Cristã”, destinada a converter os libertinos da corte francesa, porém ele morreu aos 39 anos, deixando apenas uma coleção de fragmentos, aforismos que constituem uma meditação sobre nossa miséria e nossa noite interior.

A Princesa de Clèves, de Madame de Lafayette – este clássico da literatura francesa revela os tormentos da paixão. Casada com um nobre da corte de Henrique II, a princesa de Clèves se apaixona pelo príncipe de Nemours, mas resiste ao adultério menos por respeito às convenções do que em nome do controle de si, da vitória sobre suas fantasias. Nenhum outro livro soube pintar com cores tão passionais essa paixão moderna: a conquista da autonomia, a preservação da integridade por meio daquilo que o ensaísta Roger Shattuck chamou de “prazeres da abstinência”.

O Vermelho e o Negro, de Stendhal – Stendhal criou o protótipo do herói que desafia a hipocrisia de seu tempo. Julien Sorel é um filho de camponeses que idolatra Napoleão Bonaparte e tenta ascender socialmente pela astúcia e pelas conquistas amorosas. Ele jamais deixa seu cruel ressentimento se converter em mero arrivismo pecuniário e vê sua vitalidade individualista ser punida por uma sociedade que reduziu o ímpeto revolucionário ao mais medíocre calculismo.

O Idiota, de Dostoiévski – o simplório príncipe Michkin (o “idiota” do título) disputa com o devasso Rogójin o amor da bela e ultrajada Nastácia Filíppovna. Dostoiévski transtorna as noções convencionais do realismo literário ao incluir, entre as determinações do mundo objetivo, nossas pulsões psicológicas (que oscilam entre o reles e o sublime, o amor e a perversidade) e nossa ambivalência espiritual, dilacerada entre desespero e desejo de redenção, culpa e expiação.

Dom Casmurro, de Machado de Assis – por trás dessa narrativa irônica, que descreve a passagem do devaneio amoroso à loucura do ciúme, está um dos romances mais cruéis de todos os tempos. O autor leva 120 capítulos, de um total de 148, para edificar a felicidade conjugal de Bentinho e Capitu. Em seguida, porém, tudo desmorona: a morte do amigo Escobar e os “olhos de ressaca” que Capitu deita sobre o defunto despertam em Bentinho a incontrolável suspeita de adultério. Machado mostra sadicamente que todo idílio traz o germe de sua devastação.

Poemas de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa – o engenheiro Álvaro de Campos criou uma poesia futurista, que ainda hoje capta o ritmo da modernidade – como em “Saudação a Walt Whitman”, “Passagem das Horas”, “Ode Triunfal” e “Ode Marítima” -, inoculando nessa paisagem em transe suas inquietações existenciais, como no hermético e deslumbrante “A Casa Branca Nau Preta” e, sobretudo, em “Tabacaria”, maior poema da língua portuguesa.

Os Sete Loucos & Os Lança-Chamas, de Roberto Arlt – estes dois livros devem ser lidos em conjunto (e por isso estão editados num único volume): trata-se de um romance em que desfilam sonâmbulos e visionários envolvidos em conspirações grotescas, que remetem à tradição dos folhetins e dos filmes B, mas mostram, com sua “teologia bufa” e suas metáforas alquímico-siderúrgicas, o lado fantasmagórico da civilização industrial, da utopia de plasmar a matéria e o mundo.

O Estrangeiro, de Albert Camus – é a expressão ficcional do absurdo, da equivalência de todas as coisas. Meursault, funcionário de um escritório em Argel, leva uma vida banal, sempre com distanciamento e indiferença, até o momento em que, sem nenhum motivo ou premeditação, comete um assassinato “por causa do sol”. Nesse “primeiro romance clássico do pós-guerra” (segundo Roland Barthes), Camus enxerga no cotidiano uma gratuidade que pode conduzir ao cadafalso e à clarividência sobre o absurdo de nossa condição.

O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa – é a história da decadência de uma família da nobreza siciliana do século 19, escrita por um aristocrata italiano. Livro de beleza crepuscular, o romance chegou às telas do cinema em 1963, na obra-prima homônima do cineasta Luchino Visconti.

Desonra, de J. M. Coetzee – sintetiza o pessimismo do escritor sul-africano, prêmio Nobel de 2003: o professor de literatura David Lurie cai em desgraça na universidade após transar com uma aluna. Vai para o interior, onde a filha vive numa comunidade alternativa e onde ambos sofrem a desgraça de um violento assalto perpetrado por um grupo de negros. O ateu e racionalista Lurie vive e assiste a tudo isso com um ceticismo frio e analítico, sem consolo ideológico, sem qualquer esperança de redenção ou graça espiritual.

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