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Revista Platero nº 19 – maio

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Transtornos alimentares – A ditadura da balança


A importância que se dá à beleza é maior atualmente e o tratamento destinado às pessoas que não se encaixam no padrão é perverso

Os padrões de beleza foram mudando ao longo do tempo. A gordura, que antes era um ideal social, tratada como símbolo de prosperidade e fartura, tornou-se amplamente rejeitada. O valor dos indivíduos passou a se relacionar com a habilidade de resistir aos excessos. Há muitos anos o corpo magro está em voga e as pessoas fazem de tudo para conquistá-lo e mantê-lo.

Essa verdadeira ditadura da beleza pode levar aos transtornos alimentares, sendo os mais conhecidos a anorexia nervosa (AN) e a bulimia nervosa (BN). Na primeira, a pessoa tem um distúrbio na percepção e na forma do próprio corpo, que a leva a uma progressiva e grave restrição alimentar e à eliminação gradual dos alimentos, causando perda significativa de peso. Mais frequente, a bulimia nervosa caracteriza-se por uma alimentação compulsiva, muito acima do necessário, seguida de métodos compensatórios para evitar o ganho de peso, como vômito autoinduzido, abuso de laxantes e diuréticos, exercícios físicos em excesso, assim como períodos de restrição alimentar.

Segundo a nutricionista Marle Alvarenga, supervisora do grupo de Nutrição do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e diretora do Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares (Genta), os transtornos alimentares costumam aparecer da adolescência até uns 30 anos, sobretudo em mulheres – cerca de 10% são homens -, que normalmente são mais preocupadas com as questões ligadas à beleza e ao peso. “O problema tem se manifestado cada vez mais cedo. O típico é surgir no início da puberdade, mas temos atendido até meninas e meninos menores de 10 anos”.

Autora dos livros Nutrição e transtornos alimentares – Avaliação e tratamento e Transtornos alimentares – Uma visão nutricional, ela explica que os distúrbios alimentares ocorrem devido a quatro grandes fatores: o biológico – apesar de não ser hereditário ou genético, há fatores hereditários envolvidos, como alterações de hormônios e neurotransmissores; o psicológico, que se caracteriza sobretudo pela autoestima baixa; o familiar, que inclui tanto as dinâmicas emocionais como a relação da família com a comida e com o peso; e o sociocultural – enaltecimento da magreza e desprezo pelas pessoas gordas. “Um fator pode pesar mais que o outro, mas para que alguém desenvolva um transtorno alimentar, ele precisa ter esses quatro elementos de predisposição”, afirma Marle. “E também um agente precipitador que desencadeie o problema, como um trauma, por exemplo, para que a doença comece. Foi constatado que o maior fator de precipitação é fazer dieta”.

A nutricionista ressalta que não dá para prevenir o risco biológico, mas os outros, é possível. “Do ponto de vista psicológico, é importante trabalhar com a questão da autoestima, que influi muito. Os fatores socioculturais podem ser combatidos explicando que esses ideais de peso colocados hoje são irreais, mostrando o que é verdadeiramente o corpo saudável e trabalhando a questão da insatisfação corporal. Outra dica é os pais estabelecerem uma boa relação das crianças com a comida desde pequenas. Crianças com problemas alimentares na infância têm mais chances de desenvolver um transtorno na adolescência. Elas são crianças extremamente restritivas, seletivas ou fóbicas para comer. Estudos mostram que um importante fator de prevenção é comer em família, algo que as pessoas estão deixando de fazer. Além de beneficiar o convívio, a alimentação com certeza é mais adequada pois, de modo geral, os pais escolhem e definem o que vai para a mesa, não é a criança ou o adolescente que escolhe o que vai comer”.

Marle Alvarenga afirma que a leitura pode ajudar a ampliar a compreensão sobre o problema e indica alguns livros: Do altar às passarelas – Da anorexia santa à anorexia nervosa, de T.A. Cordás e Cybelle Weinberg; Anorexia e bulimia nervosa, de Henriette Abramides Bucaretchi; Diários da anorexia, de Linda M. Rio, Mulheres famintas, de Angelyn Spignesi; A mulher escondida – A anorexia nervosa em nossa cultura, de Suzanne Robell; e, para os adolescentes, Só saio daqui magra, de Stella Florence e Espelho maldito, de Giselda Laporta Nicolelis.

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero nº 19/maio, publicação da Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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