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Fernando Pessoa – O poeta filósofo

Costa Pinheiro, Fernando Pessoa - Heterónimo, 1978, óleo sobre tela

Costa Pinheiro, Fernando Pessoa – Heterónimo, 1978, óleo sobre tela

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
 (…)
(do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

É impossível falar de poesia sem lembrar Fernando Pessoa. “O notável poeta português foi ao mesmo tempo um filósofo, pensando sempre as grandes questões, as contradições e os impasses do nosso tempo, minando as falsas verdades e desdenhando as possibilidades de uma verdade absoluta”, afirma o escritor e crítico literário Carlos Felipe Moisés, autor de vários livros, entre os quais Noite nula (poesia) e Histórias mutiladas, além de outros sobre a obra de Pessoa, como Roteiro de leitura: Mensagem de Fernando PessoaFernando Pessoa: almoxarifado de mitos e Conversa com Fernando Pessoa.

O fascínio que o poeta exerce até hoje, quase 80 anos depois da sua morte, começa pela sua heterogeneidade. “Com uma linguagem marcada pela ironia, o gosto do paradoxo, a notável precisão vocabular, o poder de síntese e a extraordinária capacidade de imitar ‘estilos’, do mais tradicional ao mais ousado, Pessoa sempre jogou ludicamente com as possibilidades da escrita”, destaca Carlos Felipe. “Ele é atualíssimo porque enxergou tão fundo as pulsações latentes no seu tempo que foi capaz de antever a complexidade cultural que ainda hoje vigora e que só hoje nós conseguimos enxergar com alguma clareza, graças em parte à sua poesia”.

Com sua linguagem, o poeta consegue tocar ao mesmo tempo o homem comum e aquele muito bem preparado e informado, pois sua visão de mundo lida efetivamente com a realidade que cerca a todos nós. O romancista português Vergílio Ferreira diz: “Não há quem não se sinta mais inteligente do que é ao ler Fernando Pessoa”. Carlos Felipe complementa: “Pessoa instiga, excita a inteligência do leitor, mas aquela forma de inteligência que é indissociável da sensibilidade, das emoções, da intuição”.

Segundo o crítico, a criação dos heterônimos – diferentes nomes que o poeta utiliza como autores de sua obra – foi uma grande sacada: ninguém é igual a si mesmo o tempo todo, em todo lugar; as pessoas imaginam ser diferentes do que realmente são. “Os heterônimos nascem daí, cada um deles é um modo diferente de ser, de sentir, de se expressar, e no conjunto eles representam a negação da possibilidade de termos uma personalidade única, indivisível. Os vários heterônimos criados por Pessoa têm, cada qual, o seu perfil próprio: Alberto Caeiro é o homem do campo, simples, aparentemente ingênuo mas extremamente sagaz na sua falsa simplicidade; Ricardo Reis é um sujeito formal, tradicionalista, conservador, mas profundamente revolucionário com sua proposta de volta ao paganismo; Álvaro de Campos é rebelde, inconformista, nervoso, inquieto, apaixonado pela tecnologia do mundo moderno, naufragado em dúvidas e incertezas; Pessoa ele-mesmo (na verdade, só mais um heterônimo), é tímido, introvertido, sentimental e ao mesmo tempo racional e intelectualizado, esforçando-se por apreender o significado de todas as coisas”.

A vida do poeta exerceu uma grande influência em sua obra, desde a perda do pai aos quatro anos, a mudança da cidade natal, Lisboa, para Durban, na África do Sul, onde viveu dos 7 aos 17 anos e onde recebeu a educação britânica que o marcou por toda a vida. Carlos Felipe ressalta que isso lhe deu “certa consciência de ‘despaisado’, de expatriado ou mesmo apátrida, essencial para que ele encarasse o mundo do lado de fora, mas paradoxalmente sintonizado com o lado de dentro”.

Autor de uma infinidade de poemas, Fernando Pessoa publicou em vida apenas um livro assinado por ele: Mensagem. Deixou outros dois mais ou menos organizados: O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro, e Livro do desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares (sobre semi-heterônimo, Pessoa explica: não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afetividade), além de uma enorme quantidade de inéditos. “Esses três títulos merecem destaque”, enfatiza Carlos Felipe, “mas a obra toda é de excepcional qualidade, ainda que ele não a tenha organizado na forma de livros definitivos: as odes de Ricardo Reis, a lírica atribuída a Fernando Pessoa, os poemas de Álvaro de Campos, os poemas ingleses, além da variada prosa ficcional e ensaística”.

Mais Fernando Pessoa

Poesia completa de Álvaro de Campos
Poesia completa de Alberto Caeiro
Poesia completa de Ricardo Reis
O poeta fingidor
Aforismos e afins
O banqueiro anarquista e outras prosas, de Massaud Moisés (sel.)
Fernando Pessoa – Quando fui outro, de Luiz Ruffato (org.)
Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho
Poemas para crianças, de Alexei Bueno (org.)
Aquém do eu, além do outro, de Leyla Perrone-Moisés
Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, deFernando Cabral Martins (coord.)

Matéria da ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Monteiro Lobato: uma paixão nacional

Seu talento conquistou gerações seguidas de leitores. Quantos brasileiros pegaram o gosto pela leitura através de seus livros e até hoje o elegem como o maior escritor infantil de todos os tempos. Monteiro Lobato, o genial criador dos divertidos e inesquecíveis personagens do Sítio do 


Picapau Amarelo
,

compreendeu como poucos a cabeça das crianças. E que riqueza de imaginação! A curiosidade sem-fim da boneca Emília, brejeira e insubordinada como o próprio autor, que sempre foi franco e direto em suas opiniões; as explicações do cultíssimo Visconde de Sabugosa; as aventuras de Pedrinho e Narizinho e suas incursões pelo universo dos seres encantados, fábulas e lendas mitológicas; os causos misteriosos contados por Tia Nastácia; os interessantes serões de Dona Benta, em que ela recontava clássicos da literatura de um jeito muito sedutor… Tudo em sua literatura contribui para envolver e cativar.

Autêntico, com uma visão aguçada dos problemas políticos e econômicos do país, o escritor não relutava em criticar e denunciar o que estava errado. Essa firmeza era uma de suas características marcantes, inclusive quando se posicionava no campo da literatura. Combatia veementemente, sem jamais perder o senso de humor, as regras de ortografia, por exemplo, qualificando o uso exagerado de acentos como imbecilidade pura. Sobre a vendagem de livros no Brasil, comentou: Se o livro não se vende é porque não presta, isso em português claro. Os bons livros vendem-se muito bem. Os maus não, os leitores não compram, recusam. Eu acho que essa situação está na perfeita normalidade. Também se recusou gentilmente, por coerência e fidelidade a si mesmo, a aceitar a indicação para fazer parte da Academia Brasileira de Letras. (…) Mal comportado que sou, reconheço o meu lugar. O bom comportamento acadêmico lá de dentro me dá aflição

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882. Cresceu numa fazenda e queria ser pintor, pois desenhava muito bem. Devido à oposição dos pais, entretanto, formou-se em Direito e acabou canalizando sua veia artística para a escrita, transportando para a literatura suas vivências como fazendeiro, como diplomata e até como leitor, ao fazer versões infantis de obras clássicas. Começou escrevendo para o público adulto, e já no livro de contos inaugural, Urupês, imprimiu um forte cunho nacionalista, introduzindo termos e tipos peculiares – como o Jeca Tatu – para falar das coisas de sua terra. Mas foi com o público infantil que ele obteve total ressonância. As crianças dizem que eu escrevi pouco para elas, que eu deveria ter escrito muito mais. E eu creio que sim. Eu perdi tempo escrevendo para gente grande, é uma coisa que não vale a pena, disse ele na última entrevista que concedeu a um radialista, dois dias antes de falecer por causa de um derrame, em 4 de julho de 1948.

Desde 2007, sua obra vem sendo relançada pela Editora Globo com projeto visual totalmente reformulado e ilustrações de diferentes artistas gráficos. Entre as novas publicações, encontra-se a extensa série de títulos infantojuvenis, como Viagem ao céuReinações de NarizinhoCaçadas de PedrinhoO Picapau AmareloA reforma da naturezaMemórias da EmíliaEmília no País da GramáticaHistórias de Tia NastáciaAventuras de Hans StadenO MinotauroOs doze trabalhos de HérculesO poço do ViscondeDom Quixote das crianças – puro encanto, em qualquer idade – e outros.

“A fantasia e o humor, uma homenagem à inteligência dos leitores, assim como o coloquialismo da linguagem, estão na base da ampla aceitação da obra lobatiana”, considera a escritora, professora e especialista em literatura Marisa Lajolo. Grande estudiosa de Monteiro Lobato, ela é autora e organizadora de vários livros sobre o escritor, entre eles Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida, narrando fatos de sua vida, e Monteiro Lobato livro a livro – premiado com o Jabuti na categoria melhor livro de não-ficção 2009 -, que focaliza toda a trajetória da obra infantil de Lobato, mostrando como ele era sensível às expectativas de seu público e antenado com seu tempo.

Fruto de sua extraordinária capacidade inventiva, a obra de Monteiro Lobato se destaca também pela cuidadosa elaboração. E isso não aconteceu por acaso. Segundo Marisa Lajolo, o escritor era um trabalhador absolutamente incansável, que fazia e refazia os textos, mudava título, tirava capítulo, mexia e remexia em tudo até chegar aonde queria. A identificação com as crianças fica por conta do espírito insubordinado do autor que revolucionou o ambiente de aprendizagem: “Era no sítio que as crianças aprendiam”, ressalta Marisa. “Os livros ‘paradidáticos’ de Lobato nunca se apresentam como ‘parceiros’ ou ‘aliados’ da escola. Os personagens, inclusive, volta e meia dizem que a escola é enfadonha e que o bom é aprender com Dona Benta. Essa irreverência com a instituição escolar estabelece uma cumplicidade com o leitor, que retribui se tornando leitor cativo”.

Matéria da Revista Platero, produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Grandes histórias de amor

“Histórias de amor são tão antigas quanto a humanidade, mas parecem jamais perder a capacidade de seduzir novos corações”, diz a jornalista, escritora e professora de História da Literatura Thaís Rodegheri Manzano, que tem vários títulos publicados, entre eles Artimanhas da ficção – Ensaios de literatura. “Ao longo dos séculos de produção romanesca, inúmeros heróis se imortalizaram à custa de suas aventuras amorosas. Alguns desses heróis tornaram-se símbolos de sedução ‘maligna’, outros, de vítimas inocentes dela. Os leitores, porém, jamais se importaram com os desvios de seus heróis, apenas desejaram emocionar-se com suas desventuras.”

Ela comenta que Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, teve um efeito tão fulminante na época de sua publicação, 1774, que até hoje é um paradigma de paixões malsucedidas. Werther, fascinado pela jovem Charlotte, prometida a outro, é incapaz de conquistá-la e se entrega ao desespero. “Essa prosa poética arrebatadora conquistou as almas atormentadas por dores semelhantes. Espalhou-se uma febre wertheriana. Os menos contagiados vestiram-se com as cores do par romântico: as jovens, de branco e rosa; os rapazes, de azul e amarelo. Os mais contaminados suicidaram-se, e cidades da Alemanha chegaram a vetar a circulação do livro. Goethe, horrorizado com a onda que desencadeara, advertiu no prefácio da segunda edição: Seja homem, e não me siga!“.

Felizmente, nem todas as sagas amorosas têm um desenlace trágico. “Na Antiguidade já era possível se emocionar com o desespero de jovens apaixonados, separados pelo destino, mas reunidos em um final feliz”, pondera a jornalista. “Um desses pares sobreviveu ao desaparecimento do mundo antigo: Dafne e Cloé (Longo de Lesbos: Dafnis y Cloe), primeiro romance pastoral, datado do século II. Sua qualidade é tanta que permanece até hoje como uma das mais sutis análises dos estados amorosos. Abandonados na ilha de Lesbos, Dafne e Cloé crescem juntos; na adolescência, apaixonam-se, mas não têm noção do que seja o sentimento. O leitor acompanha a paulatina descoberta das emoções e a iniciação amorosa dos jovens”.

Na Idade Média, as histórias de amor continuaram fazendo sucesso, transmitidas de forma oral. Lendas sobre paixões imorredouras foram depois registradas pelos romancistas. Uma das mais famosas é a de Tristão e Isolda. Ele vai à Irlanda convencer a jovem Isolda a se casar com seu tio, Marco, rei da Cornualha. Durante a viagem em que a conduz para seu futuro reino, os dois bebem o elixir destinado a ela e ao marido, tornando-se indevidamente ligados por um amor indissolúvel.

Uma das particularidades interessantes em alguns livros de amor que marcaram época é que os protagonistas não se encaixam no perfil do herói bom caráter. Thaís cita como exemplo o conde de Valmont, personagem de As ligações perigosas, de Choderlos de Laclos, um libertino que se comprazia em seduzir e destruir suas vítimas. Nesse jogo cada vez mais ardiloso, ele parte para a conquista de uma jovem senhora, Madame de Tourvel, admirada por sua virtude incorruptível, e acaba caindo na própria armadilha, experimentando um sentimento que desconhecia e do qual não saberá se desvencilhar: o amor verdadeiro. “Com toda a sua libertinagem, trata-se de uma grande história de amor, com um fim romântico”.

Não se pode esquecer também do Drácula, de Bram Stoker, universalmente conhecido como o monstro impiedoso que se alimenta do sangue de suas vítimas. Thaís considera o pobre drácula um injustiçado, pois se tornou famoso apenas pelo lado “ruim” de sua natureza, sendo pouco lembrado pela sua tragédia amorosa. O conde retorna da guerra e descobre que sua amada mulher, acreditando-o morto, se suicidou. Revoltando-se contra Deus, torna-se um ser amaldiçoado. Séculos depois, ao conhecer Mina, acredita ter reencontrado sua mulher. Revive a paixão, mas se debate com sua consciência, desejando poupá-la dos horrores da vida de um vampiro. É com esse invólucro sedutor que ele retorna transfigurado na atual série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, um delírio entre os jovens.

Histórias de amor são mesmo imprevisíveis e superam todas as barreiras. É o que confirma D. H. Lawrence no romance O Amante de Lady Chatterley, que, segundo Thaís Rodegheri Manzano, causou escândalo na recatada Inglaterra ao unir abertamente amor e sexo. A jovem Constance Reid casa-se com o lorde Clifford Chatterley. Logo após o casamento, ele vai para a guerra, da qual retorna inválido. Romântica e inexperiente, Constance acaba se apaixonando por um empregado de sua propriedade, um homem de nível social inferior ao seu, vigoroso e sensível, com quem vive um tórrido romance.

“Ontem como hoje, para os leitores não há bandidos ou mocinhos nas histórias de amor”, conclui a especialista em História da Literatura. “O que conta é a intensidade emocional das obras. Assim, até maquiado como um pálido mocinho, Drácula continua, com o mesmo sucesso, a oferecer a sedutora proteção de sua capa manchada de sangue.”

Matéria produzida pela ML Jornalismo para a Revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes

 

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Honoré de Balzac: O grande retratista da natureza humana

A imensidão de um projeto que abarca a um só tempo a história e a crítica social, a análise de seus males e a discussão de seus princípios autoriza-me, creio, a dar à minha obra o título que ela tem hoje: A comédia humana. É ambicioso? É justo? É o que, uma vez terminada a obra, o público decidirá.

O que o próprio escritor anteviu e registrou no prefácio de sua obra monumental concretizou-se: A comédia humana foi mundialmente consagrada como uma das mais importantes e preciosas realizações literárias de todos os tempos. Nesse imenso projeto, que teve início em 1830 e engloba 89 romances, novelas e histórias curtas, Honoré de Balzac (1799-1850) compôs um painel vivo de sua época, mesclando ficção e realidade. Sentimentos contidos, paixões ardentes e amores proibidos são alguns dos ingredientes que permeiam as narrativas e cativam a atenção do leitor. Mas o que mais impressiona é a perspicácia com que são mostradas as sutilezas, as hipocrisias e os interesses que moviam a sociedade francesa do século 19. Uma sociedade que, segundo Balzac, era dominada pelo poder e pelo dinheiro.

Em meio aos mais de 2.500 personagens que transitam pelas páginas de seus livros, as mulheres ganham destaque especial e são sempre retratadas de maneira fascinante, não só pela beleza ou pelas virtudes, mas principalmente pela determinação e coragem que revelam por trás de uma aparente fragilidade, suscitadas muitas vezes pela fervorosa crença no amor inextinguível. Balzac desvendou a alma feminina como poucos e foi considerado por críticos e intelectuais de diferentes épocas um arguto observador da natureza humana. Na apresentação de diversas edições lançadas e relançadas constantemente pela L&PM com esmeradas traduções, Ivan Pinheiro Machado ressalta que “Balzac soube como ninguém captar o espírito do século XIX” e cita oportunamente um comentário de Friedrich Engels numa carta a Karl MarxAprendi mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século, inclusive nos seus pormenores econômicos (por exemplo, a redistribuição da propriedade real e pessoal depois da Revolução), do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época, todos juntos.

Balzac ficou célebre por exaltar os encantos da mulher depois dos 30 anos. A ‘mulher balzaquiana’, que ganhou destaque com a protagonista Julie d’Aiglemont, de A mulher de trinta anos, tornou-se uma referência universal. Na galeria de personagens marcantes estão ainda a sedutora Valerie Marneffe, de A prima Bete, o avarento senhor Grandet, de Eugénie Grandet, um dos mais fidedignos avarentos da literatura mundial, e a bela Antoinette, de A duquesa de Langeais, uma nobre que, rodeada de frivolidades e cortejada pelos parisienses, sucumbe a uma paixão avassaladora. Sem falar de muitos outros clássicos, como Ilusões perdidasO pai GoriotFerragusA pele de onagroO lírio do vale e tantos mais.

Com uma linguagem primorosa e um estilo preciso e descritivo, Balzac cria toda uma ambientação propícia à compreensão dos fatos e do comportamento dos personagens, transportando-nos para o seu tempo e o seu espaço. E é nessa volta ao passado que ele consegue envolver e conquistar definitivamente o interesse do leitor. A comédia humana divide-se em três partes – estudos de costumes, estudos analíticos e estudos filosóficos -, abrangendo temas diversos: cenas da vida privada, cenas da vida provinciana, cenas da vida parisiense, da vida política, da vida militar e da vida rural. Em todas essas esferas, como diz o autor no prefácio – e seus romances confirmam –,encontram-se algumas mentes dignas de estudo sério, caracteres cheios de originalidade, existências tranquilas na superfície, mas secretamente devastadas por paixões tumultuosas.

Para compor uma obra de tal magnitude, entretanto, Balzac acabou massacrado pelo trabalho, varando noites seguidas sem dormir e alimentando-se pessimamente. Nesse ritmo alucinante, obcecado pelo desejo de sucesso literário, ele produziu muitas de suas obras-primas, mas foi desastroso na condução de sua vida pessoal e de seus negócios, passando seus últimos anos falido e endividado. Morreu cedo, aos 51 anos, exaurido pelos fracassos financeiros, porém vitorioso em seu talento excepcional como escritor. A obra de Balzac sobreviveu aos seus tormentos mundanos, mostrando que, sem dúvida, ele estava um passo além dos simples mortais.

 

Matéria da revista Platero n. 25/novembro: http://www.revistaplatero.com.br Produção da ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Ciro Lilla: o prazer de saborear um bom vinho

“O vinho é uma bebida única”, afirma o enófilo Ciro Lilla, proprietário da Mistral, uma das maiores importadoras brasileiras de vinho, e autor do livro Introdução ao mundo do vinho. “Tem glamour e, o que é interessante, pede companhia. É comum ver uma pessoa num bar tomando uma dose de destilado. Com o vinho é diferente, ele pede companhia, conversa, então sempre se bebe junto. Além de fazer bem à saúde, não estufa; é, indiscutivelmente, o acompanhamento ideal para a refeição pelo seu teor alcoólico e pelas características de tanino e de acidez”.

Entusiasta da bebida, ele ressalta que identificar um bom vinho é como identificar um bom perfume, uma boa roupa… “O bom vinho é aquele que harmoniza o tanino com a acidez, não se sente demais nem um nem outro. Uma dica: todo grande vinho tem assinatura, que é o tempo que ele fica na boca depois de ingerido. Se ficar pouco tempo na boca, é fraquinho; se ficar mais e deslizar suavemente, é sinal de que é um grande vinho”.

O brasileiro está acordando para o prazer de saborear um bom vinho. Entretanto, o consumo ainda é pequeno comparado com o de outros países: dois litros por habitante por ano, sendo que na Argentina e em Portugal, por exemplo, o consumo anual é de 30 a 40 litros per capita. Cerca de 65% do que é consumido aqui vem do Chile e da Argentina, são sobretudo uvas Malbec eCarmenère. Quando se fala em branco, a uva Chardonnay continua dominando. E, por incrível que pareça, apesar de nosso clima quente, cerca de 85% do vinho que se toma no Brasil é tinto. “É um contrasenso colocar o vinho tinto em um balde com gelo e tomar a bebida gelada”, observa Ciro Lilla. “Ele deve ser servido levemente refrescado, entre 16º e 20º C. Outro pecado é tomar o vinho branco estupidamente gelado, como alguns fazem. Ele deve ser servido numa temperatura de cerca de 12º C.”

O enófilo confirma: “Pode parecer frescura, mas o tipo de copo interfere no prazer de saborear a bebida. Uma das indicações básicas é que o copo tenha um pé que possibilite segurar na haste e não no corpo, já que o aroma do vinho é um de seus grandes prazeres e qualquer cheiro na mão, especialmente cigarro e perfume, passa facilmente para o copo. Ele deve ter um formato de tulipa que feche em cima para concentrar o aroma perto do nariz, de maneira que o buquê do vinho possa ser sentido. Vinhos tintos e encorpados vão melhor em copos grandes. Para os brancos, o copo menor é mais indicado, pois evita o aquecimento”.

Como em geral é um acompanhamento para a comida, a dica é: vinho leve com prato leve, vinho encorpado com prato encorpado. “Se você colocar um peixe no vapor com um vinho encorpado, não vai sentir o sabor do peixe. Se colocar um vinho branco levinho com um cabrito temperado, não vai sentir o gosto do vinho. É preciso harmonizar. Como peixe geralmente é mais leve, acompanha melhor um vinho branco e a carne, sendo mais pesada, combina melhor com vinho tinto. Alguns peixes de paladar muito acentuado combinam melhor com vinho tinto. Já algumas carnes brancas, de frango, de porco e de peru, vão bem com vinho branco. Além disso, alguns brancos são mais encorpados que os tintos, como os grandes Chardonnays, e tintos são mais leves que os brancos, como o Beaujolais. O Pinot Noir, por sua vez, também vai muito bem com peixes, pois é um vinho mais leve. É bom lembrar que o tanino e a bolhinha do espumante cortam a gordura, então um prato gorduroso, como o leitão, combina tanto com vinho com bastante acidez e tanino como com espumante”.

“A diversidade é a característica mais interessante do vinho”, conclui Ciro Lilla. “A variedade de tipos é única. Além disso, a geografia e, principalmente, a história do vinho são fascinantes, acompanham o ser humano desde antes de Cristo. Ler sobre vinhos é importante, pois ajuda na escolha. Todo mundo pode apreciar, não existe um ‘nariz’ especial, todos têm condições de curtir e gostar de um bom vinho. Agora, quem estuda, se dedica e bebe com atenção aproveita mais”.

Leia sem moderação

Dicionário do vinho, de Rogério de Campos e Mauricio Tagliari
O vinho – Uma paixão para todos, de Mariana Gil Juncal e Alfredo Terzano
Os segredos do vinho, de Marnie Old
Vinho – Como comprar, escolher e degustar, de Matt Skinner
Superdicas para entender de vinho, de Lis Cereja
A história do vinho, de Hugh Johnson
Viagem ao mundo do vinho, de Ivan Miranda de Araujo
Comida e vinho – Harmonização essencial, de Maria José Santana eJosé Ivan Santos
Tintos e brancos, de Saul Galvão
The Oxford Companion to Wine, de Julia Harding e Robinson Jancis
Os segredos do vinho – Para iniciantes e iniciados, de José Osvaldo Amarante
Hugh Johnson’s Pocket Wine Book 2011, de Hugh Johnson

Matéria da revista Platero n. 25/novembro: http://www.revistaplatero.com.br

Produção da ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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Dormir bem é fundamental para uma boa qualidade de vida

Tento dormir, em vão
Mais uma noite, me mexo, remexo
A ansiedade, aos poucos, toma conta de mim
Sei que o amanhã vai chegar
Preciso dormir
Fecho os olhos
Meu corpo fica quieto, bem quieto
Mas minha mente não para, está indomável
(extraído do livro Durma bem e acorde para a vida, de Sandra Rosenfeld)

Durma bem que lhe faz bem. O ditado popular parece simplório, mas exprime o que importa para a qualidade de vida: uma noite bem dormida. Entretanto, não são todas as pessoas que podem se beneficiar desse prazer. De acordo com estudos efetuados pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), referência mundial em diagnósticos e pesquisas de distúrbios do sono, 15% dos moradores da cidade de São Paulo sofrem de insônia e 34% de apneia do sono.

Para o neurologista Luciano Ribeiro, do Instituto do Sono, os principais distúrbios são insônia, ronco, apneia do sono e sonolência excessiva. “As insônias ocorrem devido a transtornos físicos, ansiedade, estresse, depressão, fatores psicossociais, comportamentos alterados e fatores cognitivos. Já os roncos e apneias são causados por obstruções das vias aéreas durante o sono. Os transtornos costumam se apresentar mais na faixa adulta, sendo que a insônia ataca mais mulheres do que homens. Em geral, as pessoas mais velhas dormem menos devido a fatores físicos e alterações do ritmo circadiano próprio da idade”.

O médico alerta que uma noite bem dormida é fundamental para a reposição de todas as funções do organismo, físicas e mentais. “Dormir é importante para uma boa qualidade de vida. A falta de sono provoca fadiga, irritabilidade e consequências de ordem emocional. As insônias crônicas, sobretudo, têm uma relação estreita com o estresse e devem ser combatidas através de tratamento farmacológico com medicamentos seguros, sob orientação médica, e também com terapia comportamental-cognitiva”.

O médico Denis Martinez, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que há 30 anos se dedica à medicina do sono e autor dos livros Como vai seu sono? e Insônia na parte clínica, ressalta que dormir demais faz mais mal do que dormir de menos, a não ser na quarta idade – quanto mais o idoso acima de 80 anos dormir, melhor. “Alguns estudos até mostram que, fisicamente, quem tem insônia adoece menos. Por outro lado, tem problemas psicossociais, ou seja, a pessoa começa a perder horários, a ficar muito cansada, irritada, deprimida”.

Ele observa que as insônias se manifestam de três maneiras: dificuldade de pegar no sono, de mantê-lo ou acordar cedo demais. “Existem 54 razões para se ter insônia, incluindo cãibras, sonambulismo, irritação e depressão, entre outras. Há a insônia primária, que a pessoa tem desde que nasce, são crianças que dormem pouco e não se sabe por quê, é uma doença. As outras são secundárias, têm alguma causa, se descobre qual é, se trata e resolve o problema. Precisamos dormir para recarregar as baterias, repor as energias nos neurônios. Está provado que as pessoas que dormem em torno de sete horas têm mais longevidade e melhor qualidade de sono. E a qualidade do sono é uma parte importantíssima da qualidade de vida”.

OS 10 MANDAMENTOS PARA UMA BOA NOITE DE SONO

1. Horário regular para dormir e despertar
2. Ir para a cama somente na hora de dormir
3. Ambiente saudável
4. Não fazer uso de álcool próximo ao horário de dormir
5. Não fazer uso de medicamentos para dormir sem orientação médica
6. Não exagerar em café, chá e refrigerante
7. Atividade física em horários adequados e nunca próximo à hora de dormir
8. Jantar moderadamente em horário regular e adequado
9. Não levar problemas para a cama
10. Atividades repousantes e relaxantes após o jantar

Fonte: Instituto do Sono – Unifesp

Para ler antes de dormir

Medicina e biologia do sono, de Sergio Tufik
50 coisas que você pode fazer para combater a insônia, de Wendy Green
O que fazer quando você não consegue dormir, de Dawn Huebner
Dormir bem para viver melhor, de Jean-Claude Houdret
Nana, nenê – Como resolver o problema da insônia do seu filho, deSylvia de Bejar e Eduard Estivill
Como dormir melhor – Dicas para combater a insônia, de Carla U. Chavarri e Beatriz L. Luengo
Como enfrentar a insônia, de Isac G. Karniol
A insônia, de Jean-Michel Gaillard
Receitas para dormir bem, de Mirta Averbuch e Eduard Estivill

Matéria da Revista Platero, produção da ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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Aventura: viagens radicais com Airton Ortiz

 

 

A primeira lição que o visitante aprende em Jerusalém é sobre a sua complexidade. Tudo se parece, mas nada é o que parece. É preciso abrir o olho, em especial no comércio. Embora a religião e a política não fiquem para trás.

(trecho do livro Jerusalém, de Airton Ortiz)

Ele conhece cerca de 80 países. E não da maneira como todo mundo conhece, ficando num hotel, frequentando bons restaurantes… As viagens de Airton Ortiz são diferentes. “Sempre mochilei pelo mundo, desde pequeno. Procuro regiões que ainda tenham sua cultura original preservada, a salvo da globalização que vem destruindo a diversidade humana no planeta, nossa maior riqueza. Essas regiões se mantêm autênticas por serem geograficamente de difícil acesso. Daí, a viagem se transforma numa expedição cheia de peripécias, com muitas aventuras pelo caminho”. Três países, em especial, foram os que mais o marcaram: “Tanzânia, pelos animais selvagens soltos na savana; Nepal, pela belíssima paisagem montanhosa do Himalaia; e Índia, pela diversidade cultural, fruto do politeísmo”.

 

Cada viagem é uma nova aventura muito bem preparada. “Dedico três meses do ano me preparando”, relata. “Fisicamente, corro uma hora por dia três dias por semana; tecnicamente, leio tudo sobre o lugar para onde vou. Isto é, quando há informações disponíveis. Para alguns lugares, só descubro os detalhes quando já estou lá. E os imprevistos acabam sendo o tempero da viagem. Gosto disso, de não saber o que me espera no dia seguinte. Isso é bom porque, no mínimo, um dia diferente do anterior já é um dia melhor”.

Essa vida de aventura, o gaúcho Airton Ortiz faz questão de dividir com seus leitores. São 15 livros publicados, que o tornaram pioneiro no chamado jornalismo de aventura. Sua atividade como escritor teve início em 1977, quando escalou o Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, pela primeira vez, e escreveu Aventura no topo da África, o primeiro livro da coleção Viagens radicais. Em 2010, lançou a coleçãoExpedições urbanas: crônicas sobre Havana e Jerusalém – o próximo seráAtenas. “A ideia é, ao final de cada um desses livros, deixar o leitor com a sensação de que ‘morou’ na cidade, descobrindo seus recantos e interagindo com os outros moradores”. No momento, está escrevendo o romance Gringo, contando a história de um rapaz que, por uma série de circunstâncias alheias à sua vontade, faz uma viagem pela América Latina e vai descobrindo o mundo.

Airton Ortiz ressalta que suas viagens são extremamente enriquecedoras. “Somos, todos nós, frutos dos livros que lemos, das pessoas que amamos e das viagens que fazemos. Viajar, portanto, é fundamental, pois amplia nosso ser, tanto intelectual como espiritualmente. O contato com culturas diferentes alarga nossa percepção de mundo, nos dá a real dimensão de quem exatamente somos. Viajar por lugares estranhos nos faz descobrir o estranho que há em cada um de nós. Descobrir para compreendê-lo e aceitá-lo, reduzindo um pouco as contradições da nossa alma, que tanto nos angustiam. A cada viagem, volto mais simples. E a simplicidade é o estágio mais elevado da sofisticação humana”.

Viaje nos livros de Ortiz

Na estrada do Everest – escaladas na cordilheira do Himalaia, no Nepal.

Pelos caminhos do Tibete – viagem em que Ortiz percorreu, de jipe, todo o platô tibetano.

Cruzando a última fronteira – travessia do Alasca.

Expresso para a Índia – uma profunda experiência na terra dos deuses hindus.

Travessia da Amazônia – relato da viagem do Pacífico ao Atlântico pelos rios amazônicos em pequenas embarcações e convivendo com surpreendentes tribos indígenas.

Egito dos faraós – jornada através do deserto do Saara, em lombo de camelo, e a descida do rio Nilo, numa jangada.

Na trilha da Humanidade – expedição que refez o caminho percorrido pelos humanos pré-históricos que povoaram o Brasil, partindo da África, cruzando a Ásia, entrando nas Américas pelo Alasca e descendo até Minas Gerais.

Em busca do Mundo Maia – reportagens relatando a expedição de Ortiz à América Central.

Cartas do Everest – romance de aventura que narra uma trágica expedição ao cume do Monte Everest.

Vietnã pós-guerra – uma aventura pelo Sudeste Asiático que reconta a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista do povo vietnamita.

Aqui dentro há um longe imenso – romance de aventura dedicado ao público infantojuvenil, foi escrito em parceria com outros cinco autores.

Matéria da Revista Platero, produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes: http://www.revistaplatero.com.br 

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