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Saia da rotina

Saia da Rotina - crédito da ilustração Caio Borges

(ilustração de Caio Borges)

Não faça do hábito um estilo de vida, veja o mundo por várias perspectivas

Todo dia você faz tudo sempre igual? Não é preciso ser um Chico Buarque para ser criativo. Qualquer um pode acrescentar graça e colorido ao seu dia a dia. “A criatividade está disponível para todo mundo e não está ligada necessariamente às artes, mas a coisas muito simples”, ressalta a artista plástica Myrian Romero, especializada em arteterapia e em psicologia transpessoal. “A expressão criativa não precisa estar num quadro, na música ou na literatura, ela pode estar na comida que você faz, no abraço que dá, no bilhetinho que deixa na mesa de alguém, no telefonema para um amigo, no jeito de cumprimentar… Quanto mais você fizer as mesmas coisas de maneiras diferentes, deixando fluir o novo, mais vitalidade, alegria e força psíquica terá.”

Qualquer um pode acrescentar graça e colorido ao seu dia a dia

Sensação de vazio, desmotivação, incapacidade de cultivar o prazer, de rir e se encantar com coisas simples, na avaliação da arteterapeuta, são sinais evidentes de que está na hora de sair da rotina, de vitalizar o corpo e a mente. Tirando os casos de problemas físicos ou psicológicos graves, se a pessoa sente uma leve depressão, em geral é porque está num estado de mesmice há muito tempo. Ficar arraigado a hábitos e comportamentos que não têm nada a ver com seus verdadeiros desejos é limitador e impede o crescimento pessoal.

“Um pouco de método e disciplina é necessário para alcançar objetivos. Mas isso não significa ser rígido”, explica. “Ser disciplinado e ter um propósito não quer dizer ficar radicalmente aprisionado a ideias preconcebidas. É importante exercitar a flexibilidade. Até porque essa é uma exigência profissional hoje. As empresas mudam com extrema velocidade; quem não se atualiza, resiste a rever conceitos e a se abrir para o novo acaba gerando conflitos, tornando-se inadequado, mesmo que tecnicamente seja competente.”

Sensação de vazio, desmotivação, incapacidade de cultivar o prazer, de rir e se encantar com coisas simples são sinais evidentes de que está na hora de sair da rotina, de vitalizar o corpo e a mente

O que leva o indivíduo a uma rotina nociva, a seu ver, é o fato de estar desconectado de si mesmo e agir de acordo com o script cultural ou social, deixando de fazer escolhas conscientes. “A gente pode começar cada dia como um novo dia ou fazer tudo sempre igual. Posso expressar minha alegria chegando ao trabalho com flores ou com um chocolate para os colegas”, exemplifica, “como posso dar um bom dia menos efusivo, externando minha tristeza também de modo criativo, até brincando com aquilo em vez de ficar com a cara fechada. Mas se eu estiver no piloto automático, sem saber se estou triste ou alegre, provavelmente vou dar o mesmo bom dia viciado de todos os dias, no mesmo tom, na mesma sequência, sem sequer prestar atenção nas pessoas ao redor.”

Ser disciplinado e ter um propósito não quer dizer ficar radicalmente aprisionado a ideias preconcebidas. É importante exercitar a flexibilidade

A proposta é: “Aprenda a se perceber melhor e a usar a intuição, agindo com autonomia e autenticidade a cada momento. Tome cuidado com o hábito, pois ele é mais rápido do que você. Acostume-se a interferir nas mínimas coisas. Comece devagar, mas comece. Experimente dormir do outro lado da cama, pedir um prato diferente no restaurante, mudar o caminho para ver outras casas, outras árvores e pessoas. Teste os limites do próprio corpo – se você sempre faz as coisas com a mão direita, por exemplo, tente fazer com a esquerda, para ver como funciona, conhecer seu grau de dificuldade e, quem sabe, descobrir habilidades.”

No trabalho terapêutico individual e em grupo que desenvolve há muitos anos, exercitando o contato com o corpo e com a arte, Myrian percebe que, muitas vezes, o paciente é movido pelo sistema há tanto tempo que acha difícil até identificar as próprias preferências. “Não sabe se prefere o verde, o azul ou o amarelo, ir ao cinema ou fazer um esporte radical no fim de semana. Procuro aguçar a percepção da pessoa sobre si e, depois, motivar seu potencial criativo, a espontaneidade e a ousadia. Mexer com a arte de um jeito gostoso, lúdico, lidando com texturas, cores e formas, propicia externar espontaneamente os sentimentos e ajuda a resgatar os gostos esquecidos. É um estímulo positivo, em especial para aqueles que nunca foram incentivados a nutrir a criatividade.”

O ponto de partida, segundo ela, é o autoconhecimento. Reconhecer-se, conhecer suas qualidades e dificuldades, trabalhar a autoestima para ter coragem de ousar. “Sem isso você não muda; a vida é que muda você. Escolha mudar por desejo de crescimento, permitindo-se arriscar. O universo nos mostra que tudo muda o tempo todo: as estações, a lua, a noite, o dia, o sol, a chuva… Nada é estático. Há sempre um ciclo que se fecha, não por ter sido ruim, mas porque passou. É importante entender que passou, que é hora de ampliar seus horizontes e se abrir para novas experiências. O que você vai escolher fazer daqui para a frente? Quais são seus sonhos?”

“Mesmo no campo profissional, você pode se arriscar em novos desafios”, enfatiza. “Às vezes a pessoa sente um certo desânimo, acha que a vida está chata e, na verdade, não está é ouvindo seu chamado interno de que é tempo de renovação. O momento atual pode ser trabalhoso, mas como pode ser sem graça com tantas coisas novas para lidar? Tente olhar por outro ângulo.”

O ponto de partida é o autoconhecimento

A arteterapeuta reitera seu ponto de vista de que a mesmice não é inerente ao ser humano. Isso fica claro, a seu ver, quando estamos em harmonia com o corpo e com a natureza. “O próprio organismo sofre modificações constantes – os hormônios mudam, células se regeneram, cabelos e unhas crescem… Se aceitarmos nossa humanidade e não ficarmos presos a estereótipos e exigências excessivas de perfeição estética, social, financeira, muito nutridas pela mídia no mundo contemporâneo, com certeza teremos mais humor e imaginação para viver o dia a dia. Além disso, a flexibilidade leva a aceitar melhor o outro e a julgá-lo menos, entendendo que o diferente não é ruim, é apenas diferente, e que visões diversas podem coexistir.”

Ela constata que há uma resistência instintiva a mudanças, por medo do desconhecido, acomodação, preguiça, baixa autoestima. Não é confortável sair da zona de segurança, desapegar-se da própria imagem e arriscar-se a deixar transparecer falhas e dificuldades. Entretanto, Myrian Romero sustenta que essa coragem é essencial para evoluir e se tornar uma pessoa melhor. Isso sem falar na possibilidade de reavivar qualidades e talentos adormecidos. Foi provado, por meio de pesquisas, que aqueles que não se enquadram em padrões predeterminados e constroem valores genuínos por opção, não por imposição, vivendo sua verdade a cada dia, são mais felizes. “Ser criativo nada mais é do que ser você mesmo”, afirma. “Para assumir seu jeito de ser e expandir sua criatividade, é necessário primeiro estar em contato com seu eu interior e com as transformações que ocorrem no seu organismo. A partir daí, procure habituar-se a mudanças, escutar e avaliar outras opiniões e visões de mundo, nutrir o novo. Se você estiver criativo, provavelmente vai encarar as contrariedades de maneira mais leve, às vezes até brincando. Pare e pense: será que isso é tão importante? Que saídas eu teria? Exercitando a imaginação, a gente consegue mudar o estado de espírito. A criatividade e o bom humor andam de mãos dadas.”

Não é confortável sair da zona de segurança, desapegar-se da própria imagem e arriscar-se a deixar transparecer falhas e dificuldades

Nesse processo de retomada pessoal e renovação, Myrian Romero considera a leitura imprescindível. “Leia um livro de filosofia, de mitologia, de culinária, um bom romance, um poeta que você não conhece, um livro em outra língua”, aconselha. “Não se fixe em um único gênero, não fique aprisionado a nada, deixe sua mente expandir. Veja novas formas de construir uma história, aprenda novas palavras. Isso será valioso para ampliar sua visão de vida.”

Sugestões de leitura:

Pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville

Normose: A patologia da normalidade, de Leloup, Crema e Weil

Criatividade: Descobrindo e encorajando, de Solange Múglia Wechsler

O espírito criativo, de Goleman, Ray e Kaufman

Os donos do futuro, de Roberto Shinyashiki

Um chute na rotina, Roger Von Oech

Matéria produzida pela ML Jornalismo.

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Tem gente que nasce poesia

Morre, aos 97 anos, Manoel de Barros. Damos adeus ao poeta, porém sua poesia é imortal.

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Livia Garcia-Roza: “O lugar da literatura está além do lugar do escritor”

(…) O Capeta veio visitar nossa filha Cristina. Logo ela, a mais mansa. Tide não liga porque sabe que a irmã é santa mesmo. Eu lhe peço, minha madrinha do coração, que a senhora vá até a sua igreja cantar pra nosso senhor Jesus, pra que venha ele mesmo em pessoa castigar quem merece e livrar a menina (…). Trecho do livro O sonho de Matilde

Livia Garcia-Roza

“Procuro escrever não a partir do ‘eu’, mas para me distanciar dele, escrevo para dar voz ao ‘outro’ que me habita, numa tentativa constante de viver a experiência do desconhecimento”, afirma a escritora Livia Garcia-Roza. Formada em Psicologia, durante 10 anos ela conciliou o trabalho psicanalítico com o literário, até concluir que era o momento de fechar o consultório e se dedicar integralmente à literatura. “O que faço todos os dias: lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, alternadamente. Escrever é exercitar a linguagem, é estar dentro dela, num embate e numa dificuldade com ela. A linguagem é algo extremamente difícil, muito poderoso. A leitura é a base da escrita. Eu vivo lendo. Faz parte do meu dia. É como caminhar, por exemplo”.

Livia escreve de uma maneira tão agradável, tão íntima, que permite ao leitor mergulhar nos seus personagens e se identificar com eles. Foi assim desde seu primeiro livro, Quarto de menina, de 1995, considerado como “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil e sua obra com maior número de edições. Meus queridos estranhos e Solo feminino tiveram grande aceitação, principalmente entre as mulheres. Cartão-Postal é uma obra mais ousada (tem até um fã clube), assim como Cine Odeon, onde uma adolescente vive e narra sua paixão. Milamor, a história de uma mulher de 60 anos que se apaixona perdidamente, teve muita repercussão e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. O sonho de Matilde enfoca uma família aparentemente tranquila que de repente se vê obrigada a se confrontar com a loucura quando uma das filhas é atingida pela doença. “Mostra que a psicose nunca atinge apenas um membro da família, ela desestrutura a totalidade do ambiente familiar”, observa a escritora. “Apesar da ‘pesadez’ do tema, procurei tratá-lo com leveza e até certo humor”.

Para ela, o conto se configura como a forma mais difícil de literatura. Mesmo assim, a autora enfrentou o desafio muito bem, como nos livros Restou o cão e outros contos, A cara da mãeEra outra vez e Faces, que traz narrativas curtas postadas nas mídias sociais. Há ainda as obras destinadas ao público infantil, como O caderno de Liliana, A casa que vendia elefante, Betina tem um problema e Betina fica sozinha.  “Escrevo para ver o que vou encontrar”, comenta. “Não sei a hora de começar um livro, o tema que vai ser abordado, o horário em que vai ser escrito e muito menos como termina… O lugar da literatura está além do lugar do escritor”.

Livia diz que os escritores de maneira geral influenciaram não só a sua literatura como a sua vida. Entre aqueles que a inspiraram, ela destaca

Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meirelles, Raduan Nassar e tantos outros, “para ficar com a prata da casa”. Os latino-americanos a agradam especialmente, sobretudo os uruguaios e os argentinos. “Uma grande paixão é o Juan Carlos Onetti, um contista maravilhoso, Um sonho realizado já li inúmeras vezes. Assim como Felisberto Hernández, Mario BenedettiCorreio do tempo é um livro belíssimo. Outra paixão é Roberto Bolaño: Os detetives selvagens me divertiram muito; achei ótima a história de O amuleto. Enfim, quando a gente gosta de literatura, quando somos amantes dela – e eu me considero uma dessas pessoas, feliz por ter encontrado esse mundo –, é a melhor das vidas possíveis”.

* Por Miriam Saade Haddad, da ML Jornalismo

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Essa tal felicidade…

O médico psicoterapeuta Flávio Gikovate explica como a mente desenvolve mecanismos autodestrutivos que impedem a felicidade e indica caminhos para superar os obstáculos

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Felicidade não é apenas um sonho. Ela existe e está ao nosso alcance. A questão, segundo o médico psicoterapeuta Flávio Gikovate, é compreender no que consiste esse estado tão almejado e como se pode conquistá-lo, impedindo que mecanismos autodestrutivos, acionados pelo medo, atrapalhem nossa harmonia interior. Com quase 50 anos de atendimento clínico e mais de 30 obras publicadas, entre as quais Mudar, abordando os obstáculos e como enfrentá-los quando se decide mudar comportamentos prejudiciais, e Dá pra ser feliz… apesar do medo, onde o autor discute o que é felicidade de maneira clara e realista.

 

Flávio Gikovate: “Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você”

Flávio Gikovate: “Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você”

Antes de tudo, Gikovate esclarece a diferença entre ‘estado de felicidade’ e ‘momentos de felicidade’. “Estado de felicidade é estar próximo de um ponto de equilíbrio, da paz e da harmonia. Algo que os orientais valorizam e que no Ocidente é visto como chato, tedioso. Pressupõe a ausência de desconforto – fome, sede, dor, sensação de vazio e de desamparo. Para atingir esse estágio, é preciso sair do negativo, zerar, passando de uma situação ruim para uma melhor. Um ganho que eu chamo de ‘prazer negativo’, ou seja, a sensação agradável de recuperar o equilíbrio. Já os momentos de felicidade referem-se a acontecimentos especiais, que não vêm preencher uma falta, mas acrescentar uma alegria. Esses são os prazeres positivos.”

O primeiro requisito para pensar em felicidade, no seu entender, é aprender a lidar com o inexorável: frustrações, contrariedades, sofrimento. “Seria ingenuidade achar que ser feliz significa não ter dor nem decepção. Isso não existe”, diz. “O problema é que muitos encalham e perdem tempo demais para digerir os dissabores. Alguns encalham até com atividades naturais, como comer ou dormir. Em vez de curtir o alimentar-se, o dormir, ficam brigando com a vida, forçando a própria natureza.”

Um dos aspectos que considera essenciais nessa questão diz respeito ao dinheiro. “Muita gente imagina que a fórmula da felicidade passa por grande quantia de dinheiro. Claro que, para resolver desequilíbrios básicos como saúde e alimentação, é fundamental ter um mínimo de condição financeira. Mas, como fonte de prazer, os benefícios são bastante duvidosos. Acho importante pensar a felicidade de uma forma mais democrática. Se ela dependesse exclusivamente de fortuna, beleza fora do comum, talentos excepcionais para os esportes ou para as artes, enfim, de tudo que traz notoriedade, 99% da população estaria condenada à infelicidade. Felicidade também é ter orgulho de ser decente, honesto, íntegro, ter autoestima, saúde, afeto, e esses são prazeres democráticos.”

“Infelizmente, nossa sociedade valoriza muito as propriedades aristocráticas que poucos podem ter”, constata. “Estimula em excesso o consumismo, a beleza, a vaidade e os símbolos de poder, que, além de estragar a felicidade, são fatores de tensão social. As conquistas materiais não têm fim; novos bens são produzidos todo dia e fica todo mundo correndo atrás. O vizinho já tem e eu não tenho ainda? Comprar passa a ser um vício e, para o viciado, nada é suficiente. Com as conquistas eróticas, acontece o mesmo – o indivíduo acaba de conquistar alguém e já está pensando nas outras conquistas possíveis.”

O amor, da forma como é vivido pela maior parte das pessoas, como remédio para a sensação de incompletude e desamparo, funciona como um prazer negativo, na percepção de Gikovate. “Cria inclusive dependência sentimental, semelhante à dependência de comida ou de bebida, gerando ciúme e possessividade. Para que isso não ocorra, é preciso aprender a ficar melhor consigo mesmo e tentar atenuar o sentimento de vazio inerente à condição humana. O amor tem chance de ser um prazer positivo e acrescentar alegria quando se baseia mais nas afinidades do que nas diferenças, mais na amizade e no erotismo do que na dependência.”

Falando em amizade, o psicoterapeuta lembra o quanto esse sentimento, que também é uma forma de amor, pode trazer felicidade. As amizades, a seu ver, sempre acrescentam. Não é preciso estar mal para curtir um amigo, para achar graça e ter prazer em conviver. Sente saudade, mas não dói, e quando reencontra é uma enorme satisfação. Não há cobranças.

Gikovate considera os prazeres intelectuais positivos por excelência. O gosto e a alegria que se tem com um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, uma exposição de arte, uma música que emociona, uma viagem. “Quem nunca presenciou a felicidade de uma criança quando começa a descobrir como funcionam as coisas? O mundo do conhecimento é um mundo de encantamento”, diz.

E há os prazeres do corpo – sexualidade e práticas esportivas. A atividade física libera endorfina, é uma fonte de satisfação cerebral, além de contribuir para a saúde do corpo e para a boa disposição. É um prazer positivo, desde que não seja competitiva. O erotismo, por sua vez, proporciona grande alegria quando ocorre num clima de harmonia e de confiança. Quando entram em jogo a vaidade (um dos maiores inimigos da felicidade), os conceitos de perfeição física e performance excepcional, o sexo deixa de ser uma adorável troca de carícias para se transformar numa infernal preocupação com resultados.

Momentos de felicidade não acontecem todo dia e a toda hora, conforme enfatiza o psicoterapeuta. O estado de felicidade, entretanto, é uma conquista perfeitamente possível, se trabalhado de forma consciente, com paciência e determinação. “Para alcançar o equilíbrio interior, é preciso ter maturidade emocional, a fim de digerir as dores e os sofrimentos e dar conta das frustrações e contrariedades. Não tem jeito de mudar a situação? Então, dê baixa naquilo o mais rápido que puder. Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você – distinguir esse limite é uma sabedoria. Uma maneira de se ajudar nesse sentido e conquistar serenidade é fazer um estágio na solidão, para perceber melhor os próprios interesses, cultivá-los e manter a cabeça ocupada, seja com entretenimento, seja com o trabalho cotidiano.”

Ele aponta o medo como o maior obstáculo nessa questão: “As pessoas se assustam quando acontece uma coisa muito boa e acabam sabotando aquilo. É a velha história, muita esmola o santo desconfia, isso não vai durar, vou levar uma ducha de água fria… Por que não conseguimos curtir com gosto, sem reservas, um reencontro com um amigo, um namorico novo, a emoção de um bom filme ou de uma viagem? Temos um mecanismo autodestrutivo, que se ativa quando não aguentamos aquela cota de felicidade. Você sabe que, se agir ou falar de determinada forma, vai arrumar uma encrenquinha e não resiste.”

Na sua análise, esse tipo de reflexo, que se revela na origem de todo pensamento supersticioso (quando se sente feliz, o indivíduo bate na madeira, faz figa, há até rituais de proteção contra a ira dos deuses), está relacionado ao trauma do nascimento. “Estava eu muito bem e aconchegado no útero e, de repente, uma ruptura dramática, o big bang – o nascimento, o começo de todas as dores. Cada vez que me aproximo dessa tranquilidade, pressinto que explodirá outro big bang. Além disso, a recusa ao prazer é um pensamento moral e religioso. Nossa cultura valoriza mais o sacrifício e a renúncia do que a curtição dos prazeres.”

Combater essas fobias requer uma estratégia de superação gradual e progressiva, de acordo com o psicoterapeuta. Primeiro, conhecer os mecanismos e formular uma compreensão razoável do conjunto. A partir desse entendimento, montar uma estratégia gradativa de avanços. “Vai mudar para uma casa nova? Então não compre um carro novo nesse período, por exemplo. Uma coisa de cada vez”, aconselha. “É assim que se trata o medo: etapa por etapa. Acostumou? Aí vai avançando aos poucos, sem atropelar, sem se precipitar nem encrencar com pequenas coisas. Quando tiver uma relação amorosa de qualidade, se você não fugir e compreender como funcionam seus instintos de defesa, ficará mais tranquilo e conseguirá viver aquela felicidade.”

Dentro dessa visão realista, Gikovate afirma que é possível ser feliz e reitera as condições para isso: Ter ampla consciência de todos os aspectos que interferem nessa questão, em especial os impulsos destrutivos. Evoluir moral e emocionalmente, para poder resolver os problemas sentimentais e ficar minimamente bem sozinho, conseguindo lidar com as dores inevitáveis da vida. Diante dos sucessos e avanços, não fugir da raia, enfrentando as novas situações passo a passo. Não se fiar nos prazeres aristocráticos e cuidar para não cair nas armadilhas da vaidade, capazes de prejudicar até o campo intelectual. Finalmente, valorizar os prazeres democráticos, que são muitos e propiciam um estilo de vida mais feliz e harmonioso.

 

* Por Lays Sayon Saade, da ML Jornalismo

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Rubem Alves: “Muitas pessoas encontram sentido para sua vida lendo um livro”

Mais um dos Grandes da Literatura partiu. Foi em Campinas, onde morava,  na manhã do dia 19 de julho, que o educador e escritor Rubem Alves faleceu, deixando como legado uma vasta obra. Publicamos abaixo matéria que tivemos o prazer de fazer com essa pessoa excepcional que tinha um grande amor pelos livros.

 

Rubem Alves, foto de Joel Rocha

A leitura como puro prazer

  (…) Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho… Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança.

Para o educador e escritor Rubem Alves, a convivência com a literatura deve ser sempre prazerosa. Do prazer vem o gosto; do gosto, o hábito. “Não esqueço a primeira história de Monteiro Lobato que ouvi meu pai contar. Jeca Tatuzinho. Eu era pequeno, vivia na roça. Fiquei encantado especialmente pelo murro que o Jeca Tatuzinho deu na cara da onça papuda. Tantas vezes me leram essa história que acabei por decorá-la.”

“Das aventuras de Robinson Crusoé, lembro até da ilustração – ele vendo espantado a pegada na areia. Também recordo com alegria as aulas de leitura na escola, da professora lendo para os alunos por puro prazer, sem exercícios de compreensão. Ela leu a obra inteira de Monteiro Lobato. E nós ouvíamos extasiados. Essas experiências talvez expliquem um pouco como, aos 8 anos, li espontaneamente a coleção inteira de literatura que meu pai assinava – Guy de Maupassant, Flaubert, Émile Zola…”

Pedagogo, psicanalista e autor de mais de 40 livros para adultos e de mais de 30 para crianças, entre eles O velho que acordou menino (memórias), Se eu pudesse viver minha vida novamente e Perguntaram-me se acredito em Deus, além de artigos para jornais e revistas, Rubem Alves não cansa de recomendar a leitura como prazer, nunca como obrigação. A seu ver, não adianta enumerar razões práticas para convencer as pessoas a ler. Também não adianta obrigá-las a ler, como ocorre frequentemente nas escolas. É preciso ler por gosto. E, afinal, como bem argumentou o escritor Jorge Luis Borges, por que ler um livro chato se há tantos livros deliciosos a serem lidos?

“Ler, para mim, é importante porque dá alegria”, diz. “Resolvi reler Cem anos de solidão. Mentiras do princípio ao fim. Invenções da imaginação do Gabriel García Márquez! Mas fiquei possuído, mais possuído do que na primeira vez. Lembrei-me do que disse o poeta Paul Valéry: ‘Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?’. Nos livros encontramos as coisas que não existem, que nos podem socorrer.”

Na introdução de O velho que acordou menino, Rubem Alves fala do significado das ‘estórias’ inventadas: “O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu. Os gramáticos tiraram a palavra ‘estória’ do dicionário. Mas o que ‘história’ tem a ver com ‘estória’? A estória não quer tornar-se história, dizia Guimarães Rosa. A história acontece no tempo que aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.”

Sua receita de como saborear um livro: “Leia vagarosamente, brincando com as palavras, sem querer chegar ao fim, como se estivesse fazendo amor com a pessoa amada. A leitura nos leva por mundos que nunca existiram e nem existirão, por espaços longínquos que nunca visitaremos. É desse mundo diferente, estranho ao nosso, que passamos a ver o mundo em que vivemos de uma outra forma.”

“A literatura desenvolve nossa capacidade de imaginar e propicia experiências emocionais que não poderíamos ter no cotidiano”, observa. “Sempre que nos identificamos com um personagem, sentimos o que ele sente: tristeza, saudade, esperança, raiva, amor. E ficamos mais ricos interiormente. Como disse o escritor Daniel Pennac, a virtude paradoxal da leitura está em fazer-nos abstrair do mundo para lhe reencontrarmos um sentido. Muitas pessoas encontram sentido para sua vida lendo um livro.”

Leitura prazerosa, no seu entender, é a que se faz de forma antropofágica, compartilhando vivências e sensações, comungando com o autor. Nada como o faro para reconhecer quando isso é possível. “Um cachorro nunca abocanha um pedaço de carne de uma vez. Ele primeiro cheira, testa para ver se a coisa é boa… Se a comida é ruim, a gente deixa no prato. Depois – e digo isso em especial para professores – é preciso que se leia por pura vagabundagem, sem ter pela frente testes de compreensão a serem respondidos. Está no Manifesto Antropofágico: ‘A alegria é a prova dos nove’. Essa é a marca da leitura!”

Ele conta que nunca imaginou nem premeditou ser escritor. Foi uma escolha feita por acaso. “Eu me sentia entediado com a aridez literária da universidade. Só livros eruditos. Aí resolvi brincar com as palavras. Os leitores gostaram e percebi então que poderia me dedicar à escrita. O primeiro livro publicado foi minha tese de doutoramento, Teologia de Libertação. Foi editado nos Estados Unidos, virou best seller… Levei um susto. Aliás, a reação de meus leitores, adultos e crianças, até hoje me comove muito”.

Em sua trajetória pelo universo literário, Rubem Alves ressalta algumas descobertas que foram fundamentais e deixaram marcas definitivas: “Com Nietzsche me identifiquei imediatamente. Em Fernando Pessoa, descobri a poesia. Eu já tinha mais de 40 anos… Foram encontros mansos.” Entre os autores e livros que mais ama, cada um de um jeito, como enfatiza, ele cita: “O eterno menino, Mario Quintana. Adélia Prado, que faz poesia de uma formiga subindo na parede e de um quiabo, chifre de veado. Gabriel García Márquez: Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera. Guimarães Rosa: Sagarana. Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o grego. Meu querido amigo Carlos Rodrigues Brandão. Manoel de Barros. Octavio Paz. Pablo Neruda: Confesso que vivi. Mia Couto: O outro pé da sereia. José Saramago: Memorial do convento, As intermitências da morte. O eterno Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Toda Mafalda, de Quino.

 

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Feliz Natal

 

ML Natal 2012

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Rubem Alves sobre Monteiro Lobato

Rubem Alves, educador e escritor

“Não esqueço a primeira história de Monteiro Lobato que ouvi meu pai contar. Jeca Tatuzinho. Eu era pequeno, vivia na roça. Fiquei encantado especialmente pelo murro que o Jeca Tatuzinho deu na cara da onça papuda. Tantas vezes me leram essa história que acabei por decorá-la. Também me lembro com alegria das aulas de leitura na escola, da professora lendo para os alunos por puro prazer, sem exercícios de compreensão. Ela leu a obra inteira de Monteiro Lobato. E nós ouvíamos extasiados. Essas experiências talvez expliquem um pouco como, aos 8 anos, li espontaneamente a coleção inteira de literatura que meu pai assinava – Guy de Maupassant, Flaubert, Émile Zola…”

Trecho de entrevista concedida à Ml Jornalismo

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