Saia da rotina

Saia da Rotina - crédito da ilustração Caio Borges

(ilustração de Caio Borges)

Não faça do hábito um estilo de vida, veja o mundo por várias perspectivas

Todo dia você faz tudo sempre igual? Não é preciso ser um Chico Buarque para ser criativo. Qualquer um pode acrescentar graça e colorido ao seu dia a dia. “A criatividade está disponível para todo mundo e não está ligada necessariamente às artes, mas a coisas muito simples”, ressalta a artista plástica Myrian Romero, especializada em arteterapia e em psicologia transpessoal. “A expressão criativa não precisa estar num quadro, na música ou na literatura, ela pode estar na comida que você faz, no abraço que dá, no bilhetinho que deixa na mesa de alguém, no telefonema para um amigo, no jeito de cumprimentar… Quanto mais você fizer as mesmas coisas de maneiras diferentes, deixando fluir o novo, mais vitalidade, alegria e força psíquica terá.”

Qualquer um pode acrescentar graça e colorido ao seu dia a dia

Sensação de vazio, desmotivação, incapacidade de cultivar o prazer, de rir e se encantar com coisas simples, na avaliação da arteterapeuta, são sinais evidentes de que está na hora de sair da rotina, de vitalizar o corpo e a mente. Tirando os casos de problemas físicos ou psicológicos graves, se a pessoa sente uma leve depressão, em geral é porque está num estado de mesmice há muito tempo. Ficar arraigado a hábitos e comportamentos que não têm nada a ver com seus verdadeiros desejos é limitador e impede o crescimento pessoal.

“Um pouco de método e disciplina é necessário para alcançar objetivos. Mas isso não significa ser rígido”, explica. “Ser disciplinado e ter um propósito não quer dizer ficar radicalmente aprisionado a ideias preconcebidas. É importante exercitar a flexibilidade. Até porque essa é uma exigência profissional hoje. As empresas mudam com extrema velocidade; quem não se atualiza, resiste a rever conceitos e a se abrir para o novo acaba gerando conflitos, tornando-se inadequado, mesmo que tecnicamente seja competente.”

Sensação de vazio, desmotivação, incapacidade de cultivar o prazer, de rir e se encantar com coisas simples são sinais evidentes de que está na hora de sair da rotina, de vitalizar o corpo e a mente

O que leva o indivíduo a uma rotina nociva, a seu ver, é o fato de estar desconectado de si mesmo e agir de acordo com o script cultural ou social, deixando de fazer escolhas conscientes. “A gente pode começar cada dia como um novo dia ou fazer tudo sempre igual. Posso expressar minha alegria chegando ao trabalho com flores ou com um chocolate para os colegas”, exemplifica, “como posso dar um bom dia menos efusivo, externando minha tristeza também de modo criativo, até brincando com aquilo em vez de ficar com a cara fechada. Mas se eu estiver no piloto automático, sem saber se estou triste ou alegre, provavelmente vou dar o mesmo bom dia viciado de todos os dias, no mesmo tom, na mesma sequência, sem sequer prestar atenção nas pessoas ao redor.”

Ser disciplinado e ter um propósito não quer dizer ficar radicalmente aprisionado a ideias preconcebidas. É importante exercitar a flexibilidade

A proposta é: “Aprenda a se perceber melhor e a usar a intuição, agindo com autonomia e autenticidade a cada momento. Tome cuidado com o hábito, pois ele é mais rápido do que você. Acostume-se a interferir nas mínimas coisas. Comece devagar, mas comece. Experimente dormir do outro lado da cama, pedir um prato diferente no restaurante, mudar o caminho para ver outras casas, outras árvores e pessoas. Teste os limites do próprio corpo – se você sempre faz as coisas com a mão direita, por exemplo, tente fazer com a esquerda, para ver como funciona, conhecer seu grau de dificuldade e, quem sabe, descobrir habilidades.”

No trabalho terapêutico individual e em grupo que desenvolve há muitos anos, exercitando o contato com o corpo e com a arte, Myrian percebe que, muitas vezes, o paciente é movido pelo sistema há tanto tempo que acha difícil até identificar as próprias preferências. “Não sabe se prefere o verde, o azul ou o amarelo, ir ao cinema ou fazer um esporte radical no fim de semana. Procuro aguçar a percepção da pessoa sobre si e, depois, motivar seu potencial criativo, a espontaneidade e a ousadia. Mexer com a arte de um jeito gostoso, lúdico, lidando com texturas, cores e formas, propicia externar espontaneamente os sentimentos e ajuda a resgatar os gostos esquecidos. É um estímulo positivo, em especial para aqueles que nunca foram incentivados a nutrir a criatividade.”

O ponto de partida, segundo ela, é o autoconhecimento. Reconhecer-se, conhecer suas qualidades e dificuldades, trabalhar a autoestima para ter coragem de ousar. “Sem isso você não muda; a vida é que muda você. Escolha mudar por desejo de crescimento, permitindo-se arriscar. O universo nos mostra que tudo muda o tempo todo: as estações, a lua, a noite, o dia, o sol, a chuva… Nada é estático. Há sempre um ciclo que se fecha, não por ter sido ruim, mas porque passou. É importante entender que passou, que é hora de ampliar seus horizontes e se abrir para novas experiências. O que você vai escolher fazer daqui para a frente? Quais são seus sonhos?”

“Mesmo no campo profissional, você pode se arriscar em novos desafios”, enfatiza. “Às vezes a pessoa sente um certo desânimo, acha que a vida está chata e, na verdade, não está é ouvindo seu chamado interno de que é tempo de renovação. O momento atual pode ser trabalhoso, mas como pode ser sem graça com tantas coisas novas para lidar? Tente olhar por outro ângulo.”

O ponto de partida é o autoconhecimento

A arteterapeuta reitera seu ponto de vista de que a mesmice não é inerente ao ser humano. Isso fica claro, a seu ver, quando estamos em harmonia com o corpo e com a natureza. “O próprio organismo sofre modificações constantes – os hormônios mudam, células se regeneram, cabelos e unhas crescem… Se aceitarmos nossa humanidade e não ficarmos presos a estereótipos e exigências excessivas de perfeição estética, social, financeira, muito nutridas pela mídia no mundo contemporâneo, com certeza teremos mais humor e imaginação para viver o dia a dia. Além disso, a flexibilidade leva a aceitar melhor o outro e a julgá-lo menos, entendendo que o diferente não é ruim, é apenas diferente, e que visões diversas podem coexistir.”

Ela constata que há uma resistência instintiva a mudanças, por medo do desconhecido, acomodação, preguiça, baixa autoestima. Não é confortável sair da zona de segurança, desapegar-se da própria imagem e arriscar-se a deixar transparecer falhas e dificuldades. Entretanto, Myrian Romero sustenta que essa coragem é essencial para evoluir e se tornar uma pessoa melhor. Isso sem falar na possibilidade de reavivar qualidades e talentos adormecidos. Foi provado, por meio de pesquisas, que aqueles que não se enquadram em padrões predeterminados e constroem valores genuínos por opção, não por imposição, vivendo sua verdade a cada dia, são mais felizes. “Ser criativo nada mais é do que ser você mesmo”, afirma. “Para assumir seu jeito de ser e expandir sua criatividade, é necessário primeiro estar em contato com seu eu interior e com as transformações que ocorrem no seu organismo. A partir daí, procure habituar-se a mudanças, escutar e avaliar outras opiniões e visões de mundo, nutrir o novo. Se você estiver criativo, provavelmente vai encarar as contrariedades de maneira mais leve, às vezes até brincando. Pare e pense: será que isso é tão importante? Que saídas eu teria? Exercitando a imaginação, a gente consegue mudar o estado de espírito. A criatividade e o bom humor andam de mãos dadas.”

Não é confortável sair da zona de segurança, desapegar-se da própria imagem e arriscar-se a deixar transparecer falhas e dificuldades

Nesse processo de retomada pessoal e renovação, Myrian Romero considera a leitura imprescindível. “Leia um livro de filosofia, de mitologia, de culinária, um bom romance, um poeta que você não conhece, um livro em outra língua”, aconselha. “Não se fixe em um único gênero, não fique aprisionado a nada, deixe sua mente expandir. Veja novas formas de construir uma história, aprenda novas palavras. Isso será valioso para ampliar sua visão de vida.”

Sugestões de leitura:

Pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville

Normose: A patologia da normalidade, de Leloup, Crema e Weil

Criatividade: Descobrindo e encorajando, de Solange Múglia Wechsler

O espírito criativo, de Goleman, Ray e Kaufman

Os donos do futuro, de Roberto Shinyashiki

Um chute na rotina, Roger Von Oech

Matéria produzida pela ML Jornalismo.

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