Quando o medo se torna fobia e atrapalha a vida das pessoas

No divã - © Philippe RamakersAquele que não conhece o medo não é corajoso.

Corajoso é aquele que conhece o medo e o domina. 

(Khalil Gibran, poeta libanês)

Quem nunca sentiu medo na vida? Aquela sensação de desconforto, o coração bate mais forte, o tórax torna-se mais rijo, a boca seca, muito suor, vontade de ir ao banheiro… “O medo é o sintoma central da ansiedade, podendo se manifestar como pavor ou apenas apreensão”, afirma Tito Paes de Barros Neto, médico psiquiatra e terapeuta do comportamento, pesquisador no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e autor dos livros Sem medo de ter medo e Estimados corações – Como superar perdas. Segundo ele, é normal sentir ansiedade até o ponto de ela não interferir negativamente na vida. “A ansiedade normal protege o ser humano. Um exemplo clássico é o medo de sermos atropelados que nos faz olhar para os lados antes de atravessar a rua. Quando se torna exagerado ou irracional, o medo passa a se caracterizar fobia”.

foto: reprodução do site www.medosefobias.com.br / © Dr. Tito Paes de Barros Neto

Dr. Tito Paes de Barros Neto: “Fatores ambientais, sobretudo a atitude dos pais em relação aos filhos, podem ter importância na gênese dos transtornos de ansiedade” Foto: reprodução do site http://www.medosefobias.com.br / © Dr. Tito Paes de Barros Neto

Há vários transtornos característicos do excesso de ansiedade, entre os quais o de pânico, o de ansiedade generalizada, o obsessivo-compulsivo, o de estresse pós-traumático, a agorafobia e a fobia social, em que o elemento mais comum é o medo de ficar embaraçado ou visivelmente ansioso quando observado. O temor maior é o da avaliação negativa por parte das outras pessoas. “Ainda não se conhecem exatamente as causas desses transtornos”, ressalta Barros Neto. “No entanto, sabe-se que alguns podem ter influência genética maior que os outros. É o caso da fobia de sangue, injeção e ferimentos, em que ocorre uma queda de pressão, o coração vai batendo cada vez mais devagar, chegando inclusive a parar por alguns segundos – em 70% dos casos o transtorno ocorre em um ou mais parentes de primeiro grau”.

O psiquiatra ressalta que, em um nível menor, a genética também pode influir na eclosão do transtorno do pânico e na fobia social, que tem como um dos sintomas mais típicos o rubor facial. “Fatores ambientais, sobretudo a atitude dos pais em relação aos filhos, podem ter importância na gênese dos transtornos de ansiedade. É bom alertar os pais, desde o começo da educação, para que não sejam críticos, duros, nem valorizem a opinião alheia em excesso”.

O tratamento depende de cada tipo de transtorno. “De modo geral, medicamentos podem ser úteis no caso de transtorno de pânico, de estresse pós-traumático e fobia social, mas têm pouca serventia na maioria das fobias específicas: de altura, de voo, de lugar fechado”, diz Barros Neto. “Aí entram as técnicas de terapia comportamental: o tratamento de base é a exposição, o enfrentamento gradual e sistemático das situações que a pessoa teme. Se tem medo de altura, por exemplo, ela deve começar a se expor num prédio nos primeiros andares, depois vai galgando andares mais altos que desencadeiem um pouco mais de ansiedade, e assim até ela se ver livre do problema”.

Ele comenta que, na maioria das vezes, a pessoa consegue ela mesma fazer o necessário para se livrar da fobia. Em alguns casos, ela precisa da ajuda de um acompanhante terapêutico, que faz a chamada exposição assistida, ou do próprio profissional responsável pelo tratamento. “Tive o caso de um rapaz que sofria de fobia de altura, evitava reuniões em prédios altos e viajar de avião. Ele mesmo, sozinho, resolveu subir gradativamente os andares dos prédios, chegando até o alto do Terraço Itália. Fez também exposição na imaginação com imagens de voos e decolagens do YouTube – o que lhe dava paúra era o avião se distanciando do solo. Depois, ele fez uma seção de exposição assistida comigo num voo. Viajamos para uma cidade não muito longe de São Paulo. Então, o rapaz ficou encorajado e conseguiu viajar sozinho para o exterior”.

Tito Paes de Barros Neto acredita que a leitura, sobretudo de livros de autoajuda, pode auxiliar a enfrentar os transtornos. “No meu livro, Sem medo de ter medo, por exemplo, ensino como tratar o pânico sem usar remédios, através de alguns exercícios que provocam os sintomas e ajudam a lidar com eles. Outros livros que podem ser úteis: Medos, dúvidas e manias, de Roseli Gedanki Shavitt, Albina Rodrigues Torres e Eurípedes Constantino Miguel, que aborda o transtorno obsessivo-compulsivo para o público leigo, e Morrendo de vergonha, de Cheryl N. Carmin e Bárbara G. Markway, que trata da fobia social”.

Sem medo de ler

Psicologia do medo – Como lidar com temores, fobias, angústias e pânicos, de Christophe André
Ansiedade, fobias e síndrome do pânico – Esclarecendo suas dúvidas, de Elaine Sheehan
Fobia, de Ivan Ward

Paúra – 20 coisas que você morre de medo e como encarar todas elas, de Sergio Franco

Quando o medo vira doença, de Roberto Lorenzini e Sandra Sassaroli

É possível vencer o medo?, de Valério Albisetti

Você tem medo de quê? – Fobias modernas, de Tim Lihoreau

Pânico, fobias e obsessões, de Valentim Gentil Filho e Francisco Lotufo-Neto

Vencendo o medo – Um livro para pessoas com distúrbios de ansiedade, pânico e fobias, de Jerilyn Ross

Matéria produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes Paulista

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