Escritos eróticos – O erotismo através dos séculos

 Erica Chappuis, “Beso”

Erica Chappuis, “Beso”

A literatura erótica sempre provocou grandes polêmicas. “Por preconceito ou por medo, as pessoas muitas vezes recusam o tema. Não percebem que se trata de uma área essencial do conhecimento humano e que é também fascinante porque celebra a alegria de Eros, a alegria do corpo”, diz a ensaísta e tradutora Eliane Robert Moraes.

A história da literatura erótica é marcada por reações controvertidas e até por atos extremos de intolerância e repressão, conforme constata a ensaísta e tradutora Eliane Robert Moraes, estudiosa do assunto há mais de 20 anos. Autora de Perversos, amantes e outros trágicosSade – A felicidade libertina, O corpo impossível e Lições de Sade – Ensaios sobre a imaginação libertina, além de tradutora da História do olho, de Georges Bataille, ela ressalta que o tema revela aspectos essenciais do ser humano. “Não é preciso temê-lo nem se sentir ameaçado, mas apenas estar aberto às possibilidades de conhecimento e de pensamento que propõe”.

Eliane Robert de Moraes: "A diferença entre erotismo e pornografia geralmente baseia-se num critério moral"

Eliane Robert de Moraes: “A diferença entre erotismo e pornografia geralmente baseia-se num critério moral”

O que caracteriza a literatura erótica?

Quando se fala em literatura erótica, está se falando de uma literatura que mobiliza um tema específico: o sexo, o erotismo. É um campo da literatura que mobiliza diversos gêneros. Você pode ter um romance erótico, um poema erótico, um épico erótico. Mas veja, há livros em que o erotismo é um elemento forte, porém não é o centro, como Grande sertão: Veredas ou Madame Bovary. E há os que enfocam o universo, as pessoas e os sentimentos a partir do sexo, fazendo do erótico a embocadura para determinada leitura de mundo.

Qual a diferença entre erotismo e pornografia?

Essa distinção é muito complexa e, geralmente, baseia-se num critério moral. Para o senso comum, é pornográfico o sexo escancarado e é erótico aquilo que é velado. Eu prefiro falar de qualidade literária, e isso deve ser avaliado pelo critério estético, não pelo critério moral. Há livros em que o sexo é meio velado, mas a literatura é ruim, uma bobagem, e há outros mais alusivos que são notáveis pelas possibilidades de pensamento que propõem. Um exemplo é O caderno rosa de Lori Lamby, da Hilda Hilst, sobre as memórias sexuais de uma menina de oito anos. Obsceno, politicamente incorreto, mas literatura de primeira linha. A forma como ela aborda o tema, expondo essa degradação na própria linguagem, é incrível. Os escritos do italiano Pietro Aretino, reconhecidamente o mais importante escritor erótico da Renascença, são um bom exemplo de clássicos superobscenos.

Quando esse tema ganhou expressão na literatura?

O sexo vem sendo tema literário desde sempre. Está no Satyricon de Petrônio, no Cântico dos Cânticos da Bíblia, na Priapéia grega e em tantos outros escritos da Antiguidade. O notável livro Poesia erótica, tradução de José Paulo Paes, que abrange desde a Antiguidade até os dias de hoje, nos permite acompanhar e pensar a história da literatura erótica, mostrando inclusive que ela sempre existiu como um dos temas essenciais da humanidade, assim como acontece com o amor, a guerra, a religião.

Como foi sua evolução ao longo dos tempos?

No século 16, portanto na modernidade, surge no Ocidente um tipo específico de literatura que fornece as convenções do erotismo moderno. O grande exemplo é Diálogo das cortesãs, de Pietro Aretino, em que duas mulheres avaliam o que é melhor para uma jovem – ser esposa, cortesã ou freira. Esse modelo, com o tema exposto pelos próprios personagens, é fonte da literatura libertina que vai perdurar até o século 18, inspirando romances clássicos franceses e ingleses, como Fanny Hill, de John Cleland, O sofá, de Crébillon Fils, Teresa filósofa (autor anônimo) e uma boa parte dos escritos de Sade, entre outros.

Depois das revoluções burguesas na Europa o erotismo passa a ser mais clandestino. Há um desejo de recato, de distanciamento do mundo da corte e, em decorrência, um retrocesso de visibilidade do tema. No século 20, com o esgarçamento desse modelo burguês, ocorre uma nova virada. Surgem os movimentos de vanguarda nas artes, e os surrealistas, no início dos anos 1920, resgatam o vigoroso acervo dos séculos 17 e 18, que estava escondido, intensificando a produção desse tipo de literatura. Entre os nomes de destaque estão Louis Aragon, Guillaume Apollinaire, Pierre Louÿs, Georges Bataille.

A obra de Sade adquire um peso maior nesse novo contexto?

Sade é um autor do século 18 que foi perseguidíssimo e passou metade da vida entre prisões e sanatórios. Sua literatura é absolutamente contra o pacto social, daí a dificuldade de ser aceita. Tudo o que ele publicou foi clandestino e, depois de sua morte, grande parte dessa obra foi queimada por ordem de um de seus filhos. Por sorte, alguns dos textos foram salvos por bibliotecários que os esconderam no porão, o chamado “inferno da Biblioteca Nacional francesa”. No século 20, dois grandes biógrafos de Sade vão atrás de seus manuscritos e, nos anos 1950, um editor francês, Jean-Jacques Pauvert, vai até os tribunais para ter direito de publicar sua obra completa.

É uma literatura obscena, forte, subversiva e até mesmo assustadora – por isso seus livros estão na origem da ideia do sadismo. Sade lida não apenas com o sexo, mas também com o mal, com os subterrâneos do ser. É uma leitura que abala nossa noção de humanidade, pois pensa o ser humano de forma impiedosa. Mas é nela que se pode buscar explicação, por exemplo, para o lado bestial que também faz parte da natureza humana.

A literatura erótica sofre preconceito?

A interdição dessa literatura sempre se baseou em critérios ora sociais, ora políticos, na maioria das vezes morais. Hoje, no Ocidente, a questão moral não é mais tão candente e há inclusive um apelo erótico explícito muito imediato e comercial em torno do tema. Existe um tipo de literatura, entretanto, que sempre vai incomodar, como a de Sade, Bataille ou Hilda Hilst… O problema é que ela não só escancara o sexo, mas abala toda a estrutura de um edifício social. Às vezes por preconceito, às vezes por medo, as pessoas recusam e resistem. O ser humano gosta de se pensar de uma forma idealizada, de contemplar sua imagem de maneira edificante. Por isso sempre foi dado um privilégio à cabeça, ao alto… Mas a humanidade não é só isso, tem também que dar conta do que acontece da cintura para baixo! Essa separação é muito cultural. Há culturas orientais em que o corpo e a alma são trabalhados de outra forma, concebendo o sexo até como algo sagrado. No Ocidente, o cristianismo em particular sempre foi repressor em relação ao corpo.

Quais aspectos considera mais interessantes nesse campo literário?

A literatura erótica, quando é bem-feita e tem densidade, é um campo essencial do conhecimento. Ela permite que nos vejamos a partir de um outro ponto de vista, balançando certas convicções que temos sobre nós mesmos, permitindo assim que o erótico seja um operador de pensamento, de reflexão e de indagação. Outro aspecto que acho maravilhoso na literatura erótica é o da celebração de Eros: eis um lugar humano que é de emanação de alegria também. Os sonetos de Aretino, por exemplo, são uma celebração desse momento erótico, um momento de fusão e de explosão. A Priapeia grega, os lindos poemas amorosos de Safo e tantos outros escritos também exaltam as alegrias do corpo.

O que determina a qualidade dos textos eróticos?

O critério estético, da boa literatura, sempre. Os livros têm uma capacidade enorme de mexer com a vida da gente, de nos fazer refletir, de nos transtornar, de expressar coisas que vivenciamos, mas não conseguimos colocar em palavras. E como o erotismo é uma vivência física, a literatura erótica oferece a possibilidade de nos pensarmos também nesse sentido. Há vários tipos de literatura – algumas são fast food; outras, um banquete para o pensamento. Hoje, mais do que nunca, é preciso avaliar a qualidade, pois há muitos textos básicos, mais comerciais, que não acrescentam nada. Existe um certo jogo de voyeurismo nessa vontade de preencher todo o espaço em branco, impedindo que cada um crie as próprias imagens.

Poderia sugerir alguns autores dessa boa literatura?

São tantos… Acho que a Hilda Hilst, com sua trilogia erótico-pornográfica –  O caderno rosa de Lori Lamby, Contos de escárnio – Textos grotescos e Cartas de um sedutor –, é uma das autoras geniais. Eu citaria também a obra de Roberto Piva, de forte teor erótico – Mala na mão e asas pretas é um dos volumes que reúne suas poesias reeditadas. Gosto muito do livro do João Ubaldo, A casa dos budas ditosos. E há várias traduções de obras excelentes. Destaco Falo no jardim – Priapeia grega, Priapeia latina, tradução de João Ângelo Oliva Neto; Poemas e fragmentos de Safo de Lesbos, tradução de Joaquim Brasil Fontes, Sonetos luxuriosos e Pornólogos (Diálogo das cortesãs), do Pietro Aretino, Minha vida secreta – Memórias de um libertino, de autor anônimo, é um clássico do erotismo. Há ainda os livros de SadeA filosofia na alcova e Os 120 dias de Sodoma; História do olho, de Georges Bataille; Trópico de Câncer, de Henry Miller, entre muitos mais. Vale a pena entrar em contato com essa literatura bem elaborada, ir se encontrando ali e conversando com ela…

Matéria produzida pela ML Jornalismo para a revista Cultura News (Livraria Cultura)

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