O extraordinário jornal Notícias Populares

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NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO
Durante um parto (…), correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo a uma estranha criatura com aparência sobrenatural, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso. O bebezinho, que já nasceu falando e ameaçando sua mãe de morte, tem (…) dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo (…), além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Manchete do jornal Notícias Populares de 10/05/1975

O Notícias Populares iniciou suas atividades em 1963, graças ao empenho do jornalista romeno Jean Mellé, que contou com o auxílio financeiro de políticos da UDN. As manchetes procuravam minar o apoio do público ao então presidente João Goulart com notícias que atingiam o bolso do trabalhador: Mar de lama no aumento do ônibus; Pão e leite mais caros; Aluguéis: 400 despejos por dia, até chegar à vitória com o título: Goulart abandonou o Brasil. A trajetória do NP, como o tablóide ficou conhecido, é contada na edição atualizada e ampliada do livro Nada mais que a verdade, dos jornalistas Celso de Campos Jr, Giancarlo Lepiani, Denis Moreira e Maik Rene Lima.

Mellé precisava de um episódio grande para emplacar de vez o jornal, e esse ‘furo’ estava anunciado sob o título NP revela as previsões para 1964, onde duas videntes previam que John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, deixaria o poder. Dez dias depois, Kennedy foi assassinado. Esse fato consolidou o periódico como um dos mais vendidos do País – o Notícias Populares caiu nas graças do trabalhador.

A equação esportes, polícia e cidade, reforçada por fotos de mulheres do Teatro Natal, era garantia de sucesso nas bancas. Somente o NP cobria as enchentes de São Paulo; nos esportes, entrava literalmente em campo para trazer furos e ângulos inéditos; a editoria de polícia estava sempre perto da notícia: antes da polícia aparecer para prender um bandido, um dos fotógrafos chegava em qualquer beco que fosse para conseguir uma foto exclusiva. Outra aposta era a cobertura do dia a dia dos artistas, algo inédito, e o NP usava e abusava de publicar gente famosa, entre as quais Roberto Carlos. Uma das capas que mais vendeu foi: Desapareceu Roberto Carlos. O fato é que o pessoal da redação não conseguiu falar com o cantor, pois Roberto tinha ido oculto com a namorada para Nova York. Depois de muita confusão, com uma multidão querendo saber mais sobre o sumiço do ídolo, saiu a manchete: Acharam Roberto Carlos, e as vendas mais uma vez estouraram.

Um dia, o romeno reparou que os funcionários se aglomeravam sob a notinha da aparição de uma mula-sem-cabeça. Ele parou as máquinas e a nova capa sobre a mula-sem-cabeça estourou nas bancas. Figuras folclóricas, como alma penada, monstros e demônios eram personagens importantes no universo do jornal. Quando faltava uma boa manchete, o pessoal do NP improvisava, como a inesquecível chamada: Loira fantasma aparece em banheiro de escola. Na verdade, alguém da redação comparou a foto desfocada de uma funcionária com um fantasma. A edição esgotou nas bancas e vários leitores telefonaram dizendo que já haviam sido assombrados pela tal loira.

Outro destaque foi o Vampiro de Osasco. O jornal publicou relatos assustados de moradores da região sobre a morte de um cão, encontrado sem uma gota de sangue. O assunto foi explorado em meia dúzia de edições. O estrondoso sucesso do filme O exorcista faria explodir o caso mais famoso da história da publicação. Um dos redatores garimpou nas páginas da Folha de S.Paulo a notícia de um bebê que havia nascido com deformidades. Assim saiu na capa do NP: Nasceu o bebê diabo em São Paulo. O “bebê diabo” permaneceu em 27 edições. Quando o caso começou a perder fôlego, o pessoal da redação chamou o Zé do Caixão para “cuidar” do diabinho, com direito a encenação no Terminal Rodoviário do Tietê.

Com o falecimento de Mellé, em 1971, vítima de câncer nos ossos, começou uma das piores fases do jornal. Até que, em 1973, foi contratado o jornalista Ebrahim Ramadan como editor-chefe, que efetuou mudanças e retomou alguns métodos de Mellé. As vendas do NP voltaram à normalidade em três meses. Num verdadeiro golpe de mestre, Ramadan cedeu espaço para as minorias, com colunas sobre discos voadores, religião – eram best-sellers os espíritas Moacyr Jorge e Chico Xavier -, além de surpreender com o Espaço gay, que fazia relatos maravilhados sobre a libertação sexual das lésbicas da Escandinávia e dos homossexuais de San Francisco.

Uma fase de destaque do NP foi a mistura de crime e sexo, em que a primeira página trazia notícias mais sangrentas, como Broxa torra o pênis na tomada ou A morte não usa calcinha. No final dos anos 1980, o Grupo Folha, dono do NP desde 1965, iniciou um projeto de reformulação. A partir daí, Ramadan começou a preparar sua saída, 18 anos depois de estar à frente do jornal. A troca constante de diretores e jornalistas, além de outros contratempos, como longas brigas judiciais, deixou o NP à deriva. Num jogo de cena bem arquitetado, surpreendendo a redação, foi encerrado o velho jornal paulistano, na edição 13.413, de 20 de janeiro de 2001. Era o ponto final. Sua presença, entretanto, continua na mente de inúmeros leitores saudosos e fiéis.

Matéria da ML Jornalismo para a Revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes

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