Abram Szajman: O modelo atual está minguando

* Por Miriam Saade Haddad

Abram Szajman: "O eSocial é mais um capítulo na excessiva burocracia com a qual se envolvem as relações trabalho/capital"

Abram Szajman: “O eSocial é mais um capítulo na excessiva burocracia com a qual se envolvem as relações trabalho/capital”

O comércio é a porta de entrada para o mercado de trabalho e liga a indústria, os importados, os fornecedores e o cliente

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Abram Szajman, ressalta que, apesar da tendência de desaceleração, o consumo e as vendas no varejo devem superar o desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) em 2014. Em entrevista exclusiva para a HG Casa, ele fala sobre a atuação do comércio varejista, suas dificuldades, e sugere medidas para enfrentar os problemas.

HGC – Pode analisar a situação do comércio no Brasil hoje?

Abram Szajman – O consumo foi privilegiado nos últimos anos. Ou seja, cresceu mais do que o produto nacional. O comércio vive desse consumo e de sua aptidão em entender o que o cliente busca. Neste momento, no entanto, esse modelo de consumo sem aumento de produtividade e com desempenho muito fraco do produto nacional está minguando. Não haverá, no curto prazo, taxas de crescimento de vendas de dois dígitos como no passado não tão remoto. Mesmo assim, o consumo das famílias e as vendas no varejo ainda devem superar o desempenho do PIB em 2014, apesar dessa tendência de desaceleração.

Temos de destacar também a evolução do comércio e do comerciante: este se profissionalizou, buscou nichos de mercado, fez fusões e aquisições, parcerias, entende cada vez mais seu cliente e conversa cada vez melhor com seus fornecedores. Já que os ganhos de competitividade não ocorrem da porta para fora do estabelecimento (redução de carga tributária, redução dos custos trabalhistas, aumento da infraestrutura etc.), os esforços internos devem ser redobrados.

HGC – Como vê o setor de artigos para casa?

É um setor cada vez mais relevante, dado que hoje o Brasil é composto por 60 milhões de famílias, das quais quase 55 milhões vivem em condições minimamente adequadas. Ou seja, o mercado para esses itens é grande. A evolução da renda e a emergência das classes C e D também impulsionam esse mercado. Todavia, ele não é imune à desaceleração percebida no contexto geral da economia. Pode andar de lado no curto prazo, mas no longo prazo ainda tem um grande terreno a percorrer.

 

HGC – Quais os principais problemas enfrentados?

Os de sempre: custo da mão de obra, qualificação dos empregados, infraestrutura deficiente, custo do capital de giro, carga tributária e enorme estrutura burocrática desnecessária, que desvia a atenção do empresário do foco de seu negócio.

 

HGC – O que os lojistas devem fazer para enfrentar esses problemas?

Buscar competitividade dentro de seus estabelecimentos. Eles devem participar mais intensamente da formação da mão de obra, na redução de custos, na maximização dos estoques, da perfeita confecção do mix de produtos disponíveis etc.

 

HGC – Qual a importância do comércio para o País?

O comércio representa entre 10% e 15% do PIB e emprega uma proporção ainda maior de trabalhadores. Em geral, é a porta de entrada para o mercado de trabalho. É o elo entre a indústria, os importados, os fornecedores e o cliente. É no comércio que se dá a efetivação do ciclo de produção, quando da venda final de um produto. O setor terciário, aí incluindo serviços, representa dois terços do PIB e 90% do emprego no país.

 

HGC – Que benefícios traz em termos de ativação da economia, geração de empregos, etc.?

O varejo é a principal porta de entrada ao mercado de trabalho, qualifica mão de obra, está na frente no que tange a interpretação dos desejos dos consumidores, e também é pródigo em avanços nas relações trabalhistas. Gera muito emprego, uma considerável fatia do PIB e mantém o ritmo econômico acima da linha d’água nos últimos anos.

 

HGC – Como o aumento da taxa de juros interfere no comércio?

Prejudica, sem dúvida. O custo do capital fica maior, seja para o comerciante, que toma empréstimos e que depende muito do capital de giro, como para o consumidor, que tem sua capacidade de compras reduzida pelo aumento do custo e das restrições no crediário. Mas a opção por juros baixos só pode vingar em um ambiente de inflação baixa, o que não é o cenário no caso atual. Então, juros é ruim, mas inflação é pior.

 

HGC – E a inflação, como interfere?

A inflação é o maior risco para o comércio e para a economia brasileira de forma geral. Inflação descontrolada acaba destruindo a capacidade de planejamento, mina a confiança de empresários e consumidores e corrói o poder de compra dos trabalhadores. Em todos esses casos, os efeitos são muito ruins e aumentam a incerteza quanto aos rumos do país.

 

HGC Como vê as perspectivas de flexibilidade nas relações de trabalho hoje frente ao projeto do eSocial?

O eSocial é mais um capítulo na excessiva burocracia com a qual se envolvem as relações trabalho/capital. Não leva em conta que essas relações são humanas e permitem ajustes negociados entre as partes, tornando o trabalho um parceiro do capital. Deve ser um projeto com etapas, atingindo inicialmente as grandes empresas, pois é algo custoso no primeiro momento. Na forma em que está posto, grande parte das informações necessárias ao preenchimento são muito complexas ou pouco factíveis de se obter. É mais burocracia, e não endereça nenhum ponto que possa facilitar a flexibilização das relações trabalhistas. O projeto impõe custos às empresas e poucos benefícios para a sociedade. As pequenas empresas não estão preparadas para assumir esses encargos.

 

HGC – Como esse projeto pode afetar o comércio?

Da mesma maneira que afeta qualquer setor: aumento de custos e de estrutura para manter informações atualizadas de forma imediata. O retorno e os benefícios dessa informação muito detalhada e em tempo real são bem pouco palpáveis, mesmo para o governo.

 

Matéria publicada na revista HG Casa nº 62 (Julho/2014), publicação da Grafite Feiras, produzida pela ML Jornalismo

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