Livia Garcia-Roza: “O lugar da literatura está além do lugar do escritor”

(…) O Capeta veio visitar nossa filha Cristina. Logo ela, a mais mansa. Tide não liga porque sabe que a irmã é santa mesmo. Eu lhe peço, minha madrinha do coração, que a senhora vá até a sua igreja cantar pra nosso senhor Jesus, pra que venha ele mesmo em pessoa castigar quem merece e livrar a menina (…). Trecho do livro O sonho de Matilde

Livia Garcia-Roza

“Procuro escrever não a partir do ‘eu’, mas para me distanciar dele, escrevo para dar voz ao ‘outro’ que me habita, numa tentativa constante de viver a experiência do desconhecimento”, afirma a escritora Livia Garcia-Roza. Formada em Psicologia, durante 10 anos ela conciliou o trabalho psicanalítico com o literário, até concluir que era o momento de fechar o consultório e se dedicar integralmente à literatura. “O que faço todos os dias: lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, alternadamente. Escrever é exercitar a linguagem, é estar dentro dela, num embate e numa dificuldade com ela. A linguagem é algo extremamente difícil, muito poderoso. A leitura é a base da escrita. Eu vivo lendo. Faz parte do meu dia. É como caminhar, por exemplo”.

Livia escreve de uma maneira tão agradável, tão íntima, que permite ao leitor mergulhar nos seus personagens e se identificar com eles. Foi assim desde seu primeiro livro, Quarto de menina, de 1995, considerado como “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil e sua obra com maior número de edições. Meus queridos estranhos e Solo feminino tiveram grande aceitação, principalmente entre as mulheres. Cartão-Postal é uma obra mais ousada (tem até um fã clube), assim como Cine Odeon, onde uma adolescente vive e narra sua paixão. Milamor, a história de uma mulher de 60 anos que se apaixona perdidamente, teve muita repercussão e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. O sonho de Matilde enfoca uma família aparentemente tranquila que de repente se vê obrigada a se confrontar com a loucura quando uma das filhas é atingida pela doença. “Mostra que a psicose nunca atinge apenas um membro da família, ela desestrutura a totalidade do ambiente familiar”, observa a escritora. “Apesar da ‘pesadez’ do tema, procurei tratá-lo com leveza e até certo humor”.

Para ela, o conto se configura como a forma mais difícil de literatura. Mesmo assim, a autora enfrentou o desafio muito bem, como nos livros Restou o cão e outros contos, A cara da mãeEra outra vez e Faces, que traz narrativas curtas postadas nas mídias sociais. Há ainda as obras destinadas ao público infantil, como O caderno de Liliana, A casa que vendia elefante, Betina tem um problema e Betina fica sozinha.  “Escrevo para ver o que vou encontrar”, comenta. “Não sei a hora de começar um livro, o tema que vai ser abordado, o horário em que vai ser escrito e muito menos como termina… O lugar da literatura está além do lugar do escritor”.

Livia diz que os escritores de maneira geral influenciaram não só a sua literatura como a sua vida. Entre aqueles que a inspiraram, ela destaca

Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meirelles, Raduan Nassar e tantos outros, “para ficar com a prata da casa”. Os latino-americanos a agradam especialmente, sobretudo os uruguaios e os argentinos. “Uma grande paixão é o Juan Carlos Onetti, um contista maravilhoso, Um sonho realizado já li inúmeras vezes. Assim como Felisberto Hernández, Mario BenedettiCorreio do tempo é um livro belíssimo. Outra paixão é Roberto Bolaño: Os detetives selvagens me divertiram muito; achei ótima a história de O amuleto. Enfim, quando a gente gosta de literatura, quando somos amantes dela – e eu me considero uma dessas pessoas, feliz por ter encontrado esse mundo –, é a melhor das vidas possíveis”.

* Por Miriam Saade Haddad, da ML Jornalismo

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