Essa tal felicidade…

O médico psicoterapeuta Flávio Gikovate explica como a mente desenvolve mecanismos autodestrutivos que impedem a felicidade e indica caminhos para superar os obstáculos

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Felicidade não é apenas um sonho. Ela existe e está ao nosso alcance. A questão, segundo o médico psicoterapeuta Flávio Gikovate, é compreender no que consiste esse estado tão almejado e como se pode conquistá-lo, impedindo que mecanismos autodestrutivos, acionados pelo medo, atrapalhem nossa harmonia interior. Com quase 50 anos de atendimento clínico e mais de 30 obras publicadas, entre as quais Mudar, abordando os obstáculos e como enfrentá-los quando se decide mudar comportamentos prejudiciais, e Dá pra ser feliz… apesar do medo, onde o autor discute o que é felicidade de maneira clara e realista.

 

Flávio Gikovate: “Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você”

Flávio Gikovate: “Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você”

Antes de tudo, Gikovate esclarece a diferença entre ‘estado de felicidade’ e ‘momentos de felicidade’. “Estado de felicidade é estar próximo de um ponto de equilíbrio, da paz e da harmonia. Algo que os orientais valorizam e que no Ocidente é visto como chato, tedioso. Pressupõe a ausência de desconforto – fome, sede, dor, sensação de vazio e de desamparo. Para atingir esse estágio, é preciso sair do negativo, zerar, passando de uma situação ruim para uma melhor. Um ganho que eu chamo de ‘prazer negativo’, ou seja, a sensação agradável de recuperar o equilíbrio. Já os momentos de felicidade referem-se a acontecimentos especiais, que não vêm preencher uma falta, mas acrescentar uma alegria. Esses são os prazeres positivos.”

O primeiro requisito para pensar em felicidade, no seu entender, é aprender a lidar com o inexorável: frustrações, contrariedades, sofrimento. “Seria ingenuidade achar que ser feliz significa não ter dor nem decepção. Isso não existe”, diz. “O problema é que muitos encalham e perdem tempo demais para digerir os dissabores. Alguns encalham até com atividades naturais, como comer ou dormir. Em vez de curtir o alimentar-se, o dormir, ficam brigando com a vida, forçando a própria natureza.”

Um dos aspectos que considera essenciais nessa questão diz respeito ao dinheiro. “Muita gente imagina que a fórmula da felicidade passa por grande quantia de dinheiro. Claro que, para resolver desequilíbrios básicos como saúde e alimentação, é fundamental ter um mínimo de condição financeira. Mas, como fonte de prazer, os benefícios são bastante duvidosos. Acho importante pensar a felicidade de uma forma mais democrática. Se ela dependesse exclusivamente de fortuna, beleza fora do comum, talentos excepcionais para os esportes ou para as artes, enfim, de tudo que traz notoriedade, 99% da população estaria condenada à infelicidade. Felicidade também é ter orgulho de ser decente, honesto, íntegro, ter autoestima, saúde, afeto, e esses são prazeres democráticos.”

“Infelizmente, nossa sociedade valoriza muito as propriedades aristocráticas que poucos podem ter”, constata. “Estimula em excesso o consumismo, a beleza, a vaidade e os símbolos de poder, que, além de estragar a felicidade, são fatores de tensão social. As conquistas materiais não têm fim; novos bens são produzidos todo dia e fica todo mundo correndo atrás. O vizinho já tem e eu não tenho ainda? Comprar passa a ser um vício e, para o viciado, nada é suficiente. Com as conquistas eróticas, acontece o mesmo – o indivíduo acaba de conquistar alguém e já está pensando nas outras conquistas possíveis.”

O amor, da forma como é vivido pela maior parte das pessoas, como remédio para a sensação de incompletude e desamparo, funciona como um prazer negativo, na percepção de Gikovate. “Cria inclusive dependência sentimental, semelhante à dependência de comida ou de bebida, gerando ciúme e possessividade. Para que isso não ocorra, é preciso aprender a ficar melhor consigo mesmo e tentar atenuar o sentimento de vazio inerente à condição humana. O amor tem chance de ser um prazer positivo e acrescentar alegria quando se baseia mais nas afinidades do que nas diferenças, mais na amizade e no erotismo do que na dependência.”

Falando em amizade, o psicoterapeuta lembra o quanto esse sentimento, que também é uma forma de amor, pode trazer felicidade. As amizades, a seu ver, sempre acrescentam. Não é preciso estar mal para curtir um amigo, para achar graça e ter prazer em conviver. Sente saudade, mas não dói, e quando reencontra é uma enorme satisfação. Não há cobranças.

Gikovate considera os prazeres intelectuais positivos por excelência. O gosto e a alegria que se tem com um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, uma exposição de arte, uma música que emociona, uma viagem. “Quem nunca presenciou a felicidade de uma criança quando começa a descobrir como funcionam as coisas? O mundo do conhecimento é um mundo de encantamento”, diz.

E há os prazeres do corpo – sexualidade e práticas esportivas. A atividade física libera endorfina, é uma fonte de satisfação cerebral, além de contribuir para a saúde do corpo e para a boa disposição. É um prazer positivo, desde que não seja competitiva. O erotismo, por sua vez, proporciona grande alegria quando ocorre num clima de harmonia e de confiança. Quando entram em jogo a vaidade (um dos maiores inimigos da felicidade), os conceitos de perfeição física e performance excepcional, o sexo deixa de ser uma adorável troca de carícias para se transformar numa infernal preocupação com resultados.

Momentos de felicidade não acontecem todo dia e a toda hora, conforme enfatiza o psicoterapeuta. O estado de felicidade, entretanto, é uma conquista perfeitamente possível, se trabalhado de forma consciente, com paciência e determinação. “Para alcançar o equilíbrio interior, é preciso ter maturidade emocional, a fim de digerir as dores e os sofrimentos e dar conta das frustrações e contrariedades. Não tem jeito de mudar a situação? Então, dê baixa naquilo o mais rápido que puder. Faça sua parte e aceite com certa docilidade e humildade o que não depende de você – distinguir esse limite é uma sabedoria. Uma maneira de se ajudar nesse sentido e conquistar serenidade é fazer um estágio na solidão, para perceber melhor os próprios interesses, cultivá-los e manter a cabeça ocupada, seja com entretenimento, seja com o trabalho cotidiano.”

Ele aponta o medo como o maior obstáculo nessa questão: “As pessoas se assustam quando acontece uma coisa muito boa e acabam sabotando aquilo. É a velha história, muita esmola o santo desconfia, isso não vai durar, vou levar uma ducha de água fria… Por que não conseguimos curtir com gosto, sem reservas, um reencontro com um amigo, um namorico novo, a emoção de um bom filme ou de uma viagem? Temos um mecanismo autodestrutivo, que se ativa quando não aguentamos aquela cota de felicidade. Você sabe que, se agir ou falar de determinada forma, vai arrumar uma encrenquinha e não resiste.”

Na sua análise, esse tipo de reflexo, que se revela na origem de todo pensamento supersticioso (quando se sente feliz, o indivíduo bate na madeira, faz figa, há até rituais de proteção contra a ira dos deuses), está relacionado ao trauma do nascimento. “Estava eu muito bem e aconchegado no útero e, de repente, uma ruptura dramática, o big bang – o nascimento, o começo de todas as dores. Cada vez que me aproximo dessa tranquilidade, pressinto que explodirá outro big bang. Além disso, a recusa ao prazer é um pensamento moral e religioso. Nossa cultura valoriza mais o sacrifício e a renúncia do que a curtição dos prazeres.”

Combater essas fobias requer uma estratégia de superação gradual e progressiva, de acordo com o psicoterapeuta. Primeiro, conhecer os mecanismos e formular uma compreensão razoável do conjunto. A partir desse entendimento, montar uma estratégia gradativa de avanços. “Vai mudar para uma casa nova? Então não compre um carro novo nesse período, por exemplo. Uma coisa de cada vez”, aconselha. “É assim que se trata o medo: etapa por etapa. Acostumou? Aí vai avançando aos poucos, sem atropelar, sem se precipitar nem encrencar com pequenas coisas. Quando tiver uma relação amorosa de qualidade, se você não fugir e compreender como funcionam seus instintos de defesa, ficará mais tranquilo e conseguirá viver aquela felicidade.”

Dentro dessa visão realista, Gikovate afirma que é possível ser feliz e reitera as condições para isso: Ter ampla consciência de todos os aspectos que interferem nessa questão, em especial os impulsos destrutivos. Evoluir moral e emocionalmente, para poder resolver os problemas sentimentais e ficar minimamente bem sozinho, conseguindo lidar com as dores inevitáveis da vida. Diante dos sucessos e avanços, não fugir da raia, enfrentando as novas situações passo a passo. Não se fiar nos prazeres aristocráticos e cuidar para não cair nas armadilhas da vaidade, capazes de prejudicar até o campo intelectual. Finalmente, valorizar os prazeres democráticos, que são muitos e propiciam um estilo de vida mais feliz e harmonioso.

 

* Por Lays Sayon Saade, da ML Jornalismo

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