Rubem Alves: “Muitas pessoas encontram sentido para sua vida lendo um livro”

Mais um dos Grandes da Literatura partiu. Foi em Campinas, onde morava,  na manhã do dia 19 de julho, que o educador e escritor Rubem Alves faleceu, deixando como legado uma vasta obra. Publicamos abaixo matéria que tivemos o prazer de fazer com essa pessoa excepcional que tinha um grande amor pelos livros.

 

Rubem Alves, foto de Joel Rocha

A leitura como puro prazer

  (…) Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho… Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança.

Para o educador e escritor Rubem Alves, a convivência com a literatura deve ser sempre prazerosa. Do prazer vem o gosto; do gosto, o hábito. “Não esqueço a primeira história de Monteiro Lobato que ouvi meu pai contar. Jeca Tatuzinho. Eu era pequeno, vivia na roça. Fiquei encantado especialmente pelo murro que o Jeca Tatuzinho deu na cara da onça papuda. Tantas vezes me leram essa história que acabei por decorá-la.”

“Das aventuras de Robinson Crusoé, lembro até da ilustração – ele vendo espantado a pegada na areia. Também recordo com alegria as aulas de leitura na escola, da professora lendo para os alunos por puro prazer, sem exercícios de compreensão. Ela leu a obra inteira de Monteiro Lobato. E nós ouvíamos extasiados. Essas experiências talvez expliquem um pouco como, aos 8 anos, li espontaneamente a coleção inteira de literatura que meu pai assinava – Guy de Maupassant, Flaubert, Émile Zola…”

Pedagogo, psicanalista e autor de mais de 40 livros para adultos e de mais de 30 para crianças, entre eles O velho que acordou menino (memórias), Se eu pudesse viver minha vida novamente e Perguntaram-me se acredito em Deus, além de artigos para jornais e revistas, Rubem Alves não cansa de recomendar a leitura como prazer, nunca como obrigação. A seu ver, não adianta enumerar razões práticas para convencer as pessoas a ler. Também não adianta obrigá-las a ler, como ocorre frequentemente nas escolas. É preciso ler por gosto. E, afinal, como bem argumentou o escritor Jorge Luis Borges, por que ler um livro chato se há tantos livros deliciosos a serem lidos?

“Ler, para mim, é importante porque dá alegria”, diz. “Resolvi reler Cem anos de solidão. Mentiras do princípio ao fim. Invenções da imaginação do Gabriel García Márquez! Mas fiquei possuído, mais possuído do que na primeira vez. Lembrei-me do que disse o poeta Paul Valéry: ‘Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?’. Nos livros encontramos as coisas que não existem, que nos podem socorrer.”

Na introdução de O velho que acordou menino, Rubem Alves fala do significado das ‘estórias’ inventadas: “O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu. Os gramáticos tiraram a palavra ‘estória’ do dicionário. Mas o que ‘história’ tem a ver com ‘estória’? A estória não quer tornar-se história, dizia Guimarães Rosa. A história acontece no tempo que aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.”

Sua receita de como saborear um livro: “Leia vagarosamente, brincando com as palavras, sem querer chegar ao fim, como se estivesse fazendo amor com a pessoa amada. A leitura nos leva por mundos que nunca existiram e nem existirão, por espaços longínquos que nunca visitaremos. É desse mundo diferente, estranho ao nosso, que passamos a ver o mundo em que vivemos de uma outra forma.”

“A literatura desenvolve nossa capacidade de imaginar e propicia experiências emocionais que não poderíamos ter no cotidiano”, observa. “Sempre que nos identificamos com um personagem, sentimos o que ele sente: tristeza, saudade, esperança, raiva, amor. E ficamos mais ricos interiormente. Como disse o escritor Daniel Pennac, a virtude paradoxal da leitura está em fazer-nos abstrair do mundo para lhe reencontrarmos um sentido. Muitas pessoas encontram sentido para sua vida lendo um livro.”

Leitura prazerosa, no seu entender, é a que se faz de forma antropofágica, compartilhando vivências e sensações, comungando com o autor. Nada como o faro para reconhecer quando isso é possível. “Um cachorro nunca abocanha um pedaço de carne de uma vez. Ele primeiro cheira, testa para ver se a coisa é boa… Se a comida é ruim, a gente deixa no prato. Depois – e digo isso em especial para professores – é preciso que se leia por pura vagabundagem, sem ter pela frente testes de compreensão a serem respondidos. Está no Manifesto Antropofágico: ‘A alegria é a prova dos nove’. Essa é a marca da leitura!”

Ele conta que nunca imaginou nem premeditou ser escritor. Foi uma escolha feita por acaso. “Eu me sentia entediado com a aridez literária da universidade. Só livros eruditos. Aí resolvi brincar com as palavras. Os leitores gostaram e percebi então que poderia me dedicar à escrita. O primeiro livro publicado foi minha tese de doutoramento, Teologia de Libertação. Foi editado nos Estados Unidos, virou best seller… Levei um susto. Aliás, a reação de meus leitores, adultos e crianças, até hoje me comove muito”.

Em sua trajetória pelo universo literário, Rubem Alves ressalta algumas descobertas que foram fundamentais e deixaram marcas definitivas: “Com Nietzsche me identifiquei imediatamente. Em Fernando Pessoa, descobri a poesia. Eu já tinha mais de 40 anos… Foram encontros mansos.” Entre os autores e livros que mais ama, cada um de um jeito, como enfatiza, ele cita: “O eterno menino, Mario Quintana. Adélia Prado, que faz poesia de uma formiga subindo na parede e de um quiabo, chifre de veado. Gabriel García Márquez: Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera. Guimarães Rosa: Sagarana. Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o grego. Meu querido amigo Carlos Rodrigues Brandão. Manoel de Barros. Octavio Paz. Pablo Neruda: Confesso que vivi. Mia Couto: O outro pé da sereia. José Saramago: Memorial do convento, As intermitências da morte. O eterno Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Toda Mafalda, de Quino.

 

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