João Ubaldo Ribeiro – Um grande contador de histórias

A literatura brasileira perdeu hoje um ilustre representante: João Ubaldo Ribeiro. Tivemos o prazer de entrevistá-lo há alguns para falar do Ubaldo leitor. Reproduzimos abaixo a matéria, publicada na revista Cultura News, da Livraria Cultura.

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João Ubaldo Ribeiro

“Os clássicos são obrigatórios”

Por Lays Sayon Saade

 

“Quem não lê fica burro, por mais que ache que não”. Com esse comentário franco, sem preâmbulos ou meias palavras, o escritor João Ubaldo Ribeiro dá o seu parecer sobre uma questão que considera óbvia: a importância da leitura na vida das pessoas. “Se eu pudesse, não escrevia, só fazia ler”, diz, reafirmando seu sabido e notório amor às letras.

Nascido na Ilha de Itaparica (BA), ele foi criado e educado nas cidades de Aracaju (SE) e Salvador sob a supervisão de um pai extremamente intelectual e exigente quanto à sua formação. Para começo de conversa, o sr. Manoel Ribeiro não admitia que o filho ainda fosse analfabeto aos 6 anos de idade. E não contente com os progressos rápidos de seu primogênito, que era um aluno exemplar, obrigava-o a copiar os Sermões, de Padre Antônio Vieira, e a traduzir a Histoire Universelle nas férias.

Do livro em francês o menino pegou raiva, mas não deixou de gostar de Antônio Vieira, que até hoje relê. E nem era preciso tanto rigor, pois seu apego pelos livros foi espontâneo. “Sempre gostei de ler e escrever, é uma propensão natural”, diz João Ubaldo. “Quando eu era pequeno, morávamos num sobradão na então pequena e calma Aracaju. Nossa casa era cheia de livros e, apesar de ter tido uma infância normal, jogando bola e brincando na rua, meu convívio com eles era intenso e prazeroso. Eu via as ilustrações e ficava imaginando as histórias, decifrando as letras: a barriguda era o b, a escada era o h… Na primeira aula de leitura que tive, já voltei soletrando e começando a ler. Aí eu não queria mais dormir nem comer; queria ler para matar a curiosidade, saber o que queriam dizer as gravuras. Aos 10 anos, meu interesse era eclético – tanto lia Tarzan, quanto Monteiro Lobato, Shakespeare e Homero.”

Como escreveu em sua deliciosa crônica Memória de livros, (…) De repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, frequentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis…

O escritor conta que seu primeiro emprego – mais uma vez por interferência do pai – foi num jornal, em Salvador, onde se enturmou com vários literatos. Esse convívio tornou-se ainda maior quando entrou para a faculdade de Direito, que, naquela época, era a única opção para quem queria formação humanística. Assim, de forma gradual, ele foi entrando para a vida literária e se sobressaindo como um dos autores mais respeitados do Brasil.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1994, João Ubaldo tem cerca de 20 títulos publicados, alguns deles traduzidos para diversas línguas, e inúmeras participações em antologias. Reside no Rio de Janeiro e ainda se dedica à atividade jornalística, escrevendo crônicas para os jornais. Entre os romances mais conhecidos de sua autoria, encontram-se Sargento Getúlio, uma obra-prima ficcional que lhe deu popularidade e reconhecimento da crítica; Vila Real, sobre a migração forçada do homem nordestino; Viva o povo brasileiro, abordando a formação da identidade brasileira no decorrer de quatro séculos; O sorriso do lagarto, suspense e emoção envolvendo fenômenos estranhos na natureza da Ilha de Itaparica; O feitiço da Ilha do Pavão, uma fantasia em torno da história brasileira no tempo do Brasil Colônia, Você me mata, mãe gentil, que traz artigos sobre a situação brasileira, entre muitos outros.

O estilo barroco de sua obra, segundo ele, é herança de sua formação baiana e das leituras juvenis de Antônio Vieira e Manuel Bernardes. Bem elaborados, sem deixar de lado a simplicidade e a clareza de expressão, seus textos passeiam livremente entre o erudito e o popular, revelando um primoroso domínio das palavras e uma admirável riqueza de vocabulário – privilégio dos muito cultos.

Ler os clássicos da literatura é essencial, no seu entender. “Eles são importantes para o acervo cultural e para a formação de qualquer pessoa”, ressalta. “Não sãoo clássicos à toa. São obras de arte que permanecem através dos milênios e devem ser lidas. Alguns, para serem admirados, requerem certo preparo ou apuração do gosto, mas de qualquer maneira vale a pena lê-los. Quanto mais velho fico, mais releio esses livros que me formaram, com os quais tenho uma ligação profunda.”

Em meio a essas leituras obrigatórias, ele aconselha: A Ilíada, de Homero – “um dos primeiros clássicos da história da civilização ocidental”; O livro de Jó – “um lindíssimo livro da Bíblia sobre a condição humana e a fragilidade do relativo diante do absoluto, que é a divindade”; a obra de Shakespeare, “figura básica da literatura ocidental”; Dom Quixote, de Cervantes – “romance de extraordinária beleza e riqueza humana”. Cita ainda Os sertões, de Euclides da Cunha – “um clássico da literatura brasileira que trata dos parâmetros dos conflitos”; Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, “um dos maiores escritores da língua portuguesa”; Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre, “fundamental na tentativa de compreender o Brasil e sua formação”; Os Maias, de Eça de Queiroz – “talvez a obra-prima desse grande autor universal”. Finalmente, destaca dois romances fundamentais da modernidade: Guerra e paz, de Tolstói, “panorama de toda uma época e de toda uma nação”; e A montanha mágica, de Thomas Mann, “um marco magnífico da literatura universal”.

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