VENDA DE PRODUTOS SOFISTICADOS CRESCE NO MERCADO

Cada vez mais consumidores têm acesso a produtos de luxo

POLTRONA MANGUE BARCELONA, DO DESIGNER WAGNER ARCHELA, DA A LOT OF

POLTRONA MANGUE BARCELONA, DO DESIGNER WAGNER ARCHELA, DA A LOT OF

Até mesmo em momentos de crise, o mercado brasileiro de produtos sofisticados é sinônimo de sucesso. O setor teve um faturamento em 2010 de US$ 8,94 bilhões, 28% maior do que em 2009, e a expectativa é de que tenha fechado 2011 com crescimento de 33%. Os dados são do estudo O Mercado do Luxo no Brasil 2010/2011, da MCF Consultoria e Conhecimento, em parceria com a GfK.

O consumo, entretanto, poderia ser ainda maior. De acordo com a pesquisa, a penetração de produtos e serviços de luxo no Brasil é estimada em apenas 2,5% da população, restringindo-se às camadas mais altas – predominantemente classe A1 e parte da A2. Se as marcas mais desejadas do mundo expandissem sua atuação em outras camadas, como as faixas A2 e avançassem pela B1, por exemplo, poderiam gerar um público adicional de cerca de 26,3 milhões de consumidores.

Autor do estudo, o especialista Carlos Ferreirinha a essas marcas declarou que um processo de democratização do acesso está em curso em alguns segmentos. “Produtos antes restritos à elite, como viagens internacionais, perfumes e cosméticos de grife, bebidas importadas, entre outros, já alcançaram a classe média brasileira”. Os itens de decoração também começam a se encaixar nesse quadro. Um dos aspectos que diferenciam esse novo público é a frequência de compras.

MESA DE JANTAR BLOW UP, DO DESIGNER BELGA XAVIER LUST, DA SKITSCH

MESA DE JANTAR BLOW UP, DO DESIGNER BELGA XAVIER LUST, DA SKITSCH

Os empresários do setor são adeptos à democratização das marcas (71% dos entrevistados) e defendem que, para ser de luxo, uma marca não precisa ser exclusiva e de difícil acesso. Essa percepção, aliada às facilidades de crédito com parcelamentos – cerca de 70% das compras no setor de luxo no Brasil são parceladas em cartões de crédito ou cheques – favorecerá o desenvolvimento do mercado no país, avalia a pesquisa.

Até empresas como a Cartier, referência em joias e relógios, e a italiana Missoni Home, sinônimo de sofisticação em móveis e acessórios de decoração, oferecem opções de parcelamento. “Cerca de 90% dos nossos clientes parcelam suas compras”, explica o gerente comercial e de marketing da Missoni Home, Julio Cardoso.

Objetos de desejo

A Missoni chegou em 2010 de olho no potencial do mercado brasileiro. O público principal da grife ainda é o triplo A, seguido de profissionais como arquitetos e designers de interiores, mas os não tão endinheirados também podem sonhar com uma peça refinada. “O luxo, antes considerado acessível apenas aos ricos, hoje é visto mais como aspiracional”, afirma a editora de moda do International Herald Tribune, Suzy Menkes, que fez uma palestra em novembro no Brasil, no seminário Hot Luxury. Pedro Franco, proprietário de duas lojas de peças de decoração de alto design, a A Lot Of e a italiana Skitsch, concorda: “Quando se falava em mercado do luxo, tratava-se apenas da pequena ponta da pirâmide, mas há uma nova classe que consome esse tipo de produto também, como os jovens emergentes”. Em suas lojas dá para comprar em até sete vezes sem juros. Um atrativo a mais.

RENDA FERRO, ASSINADA PELO DESIGNER DE MODA BRASILEIRO JUM NAKAO, DA A LOT OF

RENDA FERRO,
ASSINADA PELO DESIGNER DE MODA BRASILEIRO JUM NAKAO, DA A LOT OF

O empresário oferece, de um mesmo designer, peças exclusivas e outras produzidas em quantidade maior. “Isso garante o acesso a produtos de autores importantes e de qualidade única.” Um exemplo é a poltrona Renda Ferro, assinada pelo designer de moda brasileiro Jum Nakao e inspirada em sua coleção Costura do Invisível, vendida na A Lot Of por R$ 13.194. “São apenas 20 peças, assinadas e certificadas”. Na nova poltrona que leva o nome do designer, mas com a oferta de mais unidades, o preço varia entre R$ 3.500 e R$ 3.800.

Na Skitsch, uma mesa do badalado designer belga Xavier Lust custa R$ 34.859. Só há duas dezenas desses móveis no mundo. Já a luminária Wood Floor, dos irmãos Campana, fica em torno de R$ 12 mil. “Temos vários mercados de luxo. A cadeira Madeira, de Marc Sadler, um grande designer, não chega a R$ 1 mil”.

CADEIRA MADEIRA, DE MARC SADLER, DA SKITSCH

De geração para geraçãoFranco ressalta que decoração é um investimento interessante. “Você adquire um patrimônio que se valoriza. Por trás de um produto de luxo, há uma história, uma forma diferenciada de produção, um design esmerado e uma marca. O que essa fatia do mercado de consumo exige é qualidade.”

“A roupa, mesmo das mais exclusivas grifes, tem vida mais curta; já o mobiliário e as peças de decoração se estendem por anos, passam de geração para geração. Quem tem um cristal Lalique ou Daum não se desfaz nunca”, afirma o designer de interiores Lionel Sasson, da Grifes & Design.

MESAS DE CENTRO STRIP E ARAMADA, DA DECAMERON

MESAS DE CENTRO STRIP E ARAMADA, DA DECAMERON

Em seus 650 m2, a loja reúne mais de quatro mil itens de decoração, de cristais a louças, de peças de iluminação a esculturas. E grifes cobiçadas, como Versace, Valentino, Dior, Vera Wang e Kenzo, saídas das passarelas para ornamentar as residências. “Versace foi dos pioneiros a se aventurar nesse nicho. Em geral, as grifes vindas da moda procuram as grandes marcas tradicionais da decoração e de qualidade irretocável para produzir suas peças”, explica Sasson.

De acordo com ele, a Versace, por exemplo, recorre à Rosenthal, especialista desde o século 19, para produzir sua louça. “Mas a loja é bem democrática, com presentes de ótima qualidade a partir de R$ 30 ou R$ 40. Dá, por exemplo, para ter até um Rosenthal de apelo visual alto por menos de R$ 200. O cliente tem seus objetos do desejo e vai procurar a grife com a qual mais se identifica. Ele quer qualidade.”

A tradicional Hermès, que tem loja própria no Shopping Cidade Jardim desde 2009, há tempos ingressou com a força de uma das

COLEÇÃO BLEU D’AILLEURS, DA HERMÈS

COLEÇÃO BLEU D’AILLEURS, DA HERMÈS

marcas mais valiosas do mundo no reino das louças e outros itens de decoração. Mas quer mais: lançou no último Salão do Móvel de Milão, em 2011, sua coleção de móveis em couro e madeira, sinônimo de sofisticação. No Brasil, louças e outros artigos para casa estão disponíveis para venda, mas os móveis só são comercializados por encomenda. São objetos diferenciados e de extrema qualidade.

Um requisito que o consumidor também encontra nas marcas nacionais. “Houve uma evolução do nosso mercado, da nossa indústria e do nosso design, o que possibilita criar melhores produtos. Antes tudo tinha de ser importado, mas nos últimos cinco anos o design brasileiro de decoração cresceu muito”, afirma Marcus Ferreira, designer e proprietário da Decameron, que reúne peças das mais cobiçadas.“O acesso ao mercado de luxo hoje é maior, e o parcelamento ajuda a viabilizar. Às vezes, a pessoa não está comprando apenas um produto específico, e sim fazendo a casa toda”. A loja tem planos de até dez vezes sem juros, porém, de acordo com Ferreira, a maioria fica entre cinco e seis parcelas.

O público dos seus artigos é eclético, mas de perfil mais contemporâneo. “São pessoas que viajam o mundo todo, conhecem os produtos, entendem de arquitetura, design, moda e buscam mercadorias que espelhem seu modo de ser e de viver.” E a Decameron tem peças para todos os gostos e bolsos. “Temos, inclusive, peças de grifes, como a holandesa Droog, a partir de R$ 80, R$ 100.”

O forte são os sofás de design diferenciado e material primoroso, como o Stay e o Studio, assinados por Marcus Ferreira e premiados

O SOFÁ STAY, DE MARCUS FERREIRA, FOI PREMIADO NO IF DESIGN AWARD 2007, NA ALEMANHA, DA DECAMERON

O SOFÁ STAY, DE MARCUS FERREIRA, FOI PREMIADO NO IF DESIGN AWARD 2007, NA ALEMANHA, DA DECAMERON

com o IF Design Award, na Alemanha. Poltronas e mesas de jantar, além das peças out door, também são muito procuradas. Quem quer adquirir produtos bacanas e feitos com o mesmo cuidado a preços melhores conta com outra loja de Ferreira, a Carbono. “Não faço produto popular, mas sou favorável ao acesso de mais pessoas ao luxo.”

Segundo o designer, por trás de um artigo exclusivo não existe só o preço, há a escolha criteriosa da matéria-prima, uma qualidade inquestionável, um trabalho de alfaiataria, em que o sofá é feito um a um e é oferecida a possibilidade de personalizar até a densidade do encosto ou do assento. “Luxo é, hoje, muito mais a personalização do produto.”

Atendimento diferenciado

“O consumidor brasileiro, mais que o de qualquer outro país, é atraído pelo luxo na experiência da compra. Não basta ser uma marca, ela deve agregar um estilo e oferecer serviços e atenção especial no atendimento”, afirma o designer de consumo Maurício Queiroz. De acordo com o especialista, as lojas vêm procurando novas formas de atrair esse consumidor, colocando um café com biscoitos exclusivos, embalagem especial, um perfume marcante no ponto de venda, além de outras ações. “A experiência de compra significa consumir um estilo e ganhar a personalidade da marca.”

O bom atendimento tem sido apontado por especialistas internacionais como um diferencial positivo do Brasil. “Isso é uma

MESA DE CENTRO OTTAGONO, DA COLEÇÃO ATEMPORAIS, DO DESIGNER MARCUS FERREIRA, DA DECAMERON

MESA DE CENTRO OTTAGONO, DA COLEÇÃO ATEMPORAIS, DO DESIGNER MARCUS FERREIRA, DA DECAMERON

realidade. Quando a Mont Blanc quis abrir a primeira loja no país, fiz questão de colocar no projeto mesas e cadeiras confortáveis e sofisticadas para o atendimento. Na hora, a matriz reprovou e achou um absurdo, já que todas as lojas do mundo tinham apenas o balcão para o consumidor entrar, escolher e comprar simplesmente.” Mas Queiroz conseguiu convencer o cliente. “Começaram a ver a importância de um atendimento diferenciado. Hoje, praticamente todas as lojas do mundo da marca possuem mesas e cadeiras.”

O setor de decoração e o mercado imobiliário diretamente ficaram em terceiro lugar dentre os segmentos de alto padrão que mais cresceram no ano passado, segundo Maurício Queiroz. Ficaram atrás apenas da moda e dos cosméticos, produtos há muito disputados pelos brasileiros. “Acredito que deve haver uma estabilidade no ranking em 2012, porque, apesar do boom imobiliário estar perdendo força, ainda vivemos um ótimo momento no país”, explica. De acordo com dados do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação, em 2010 foram lançadas 444 unidades com valores acima de R$ 1.500.00; em 2011, esse tipo de lançamento foi superior a 2.000 unidades.

Para o diretor do Programa de Gestão do Luxo da Faap, Silvio Passarelli, os dois setores estão atrelados, pois, ao adquirir uma casa ou apartamento de alto valor, os moradores vão obrigatoriamente investir em decoração no mesmo padrão. “Se esse mercado de imóveis cresce de 10 a 12% ao ano, em média, o da decoração pode chegar a 14%”, afirma o especialista. “Desde os anos 1980, os brasileiros estão valorizando mais o ‘ficar em casa’. Pela questão da segurança e também pelo prazer de receber amigos em sua cozinha gourmet, ter uma casa confortável, elegante, condizente com seu estilo.”

De acordo com Passarelli, o perfil do consumidor desse segmento não se caracteriza apenas por referências, como sexo, idade ou renda. “É imprescindível levar em conta o número de vezes que efetiva compras. Pode ser todo dia ou uma vez por semana na classe mais alta ou cair para uma vez ao mês – e até menos – na base da classe A e nos extratos médios superiores.” “Para gerar demanda nesses extratos, a estratégia não é injetar dinheiro, é injetar cultura, criar o desejo de possuir pelo conhecimento”, explica o diretor da Faap. Ele cita os incentivos que podem vir, por exemplo, de cursos sobre interiores refinados, caviar, foie gras, trufa ou vinhos. “Se eu conhecer vinhos, vou colocar na minha lista de desejos um Romanée-Conti e, quando tiver o dinheiro, vou comprar.”

Conseguir adquirir o que se quer é o real sinônimo de luxo para Mônica Novaes, gerente comercial e de produto da By Kamy, uma das mais requintadas lojas de tapetes de São Paulo. “Temos peças de muita qualidade a partir de R$ 100 o m2. Temos também o Nepal Richilieu, em seda, com altos e baixos relevos que criam verdadeiros desenhos vazados de clássicos florais, por R$ 3.000 o m2, ou o indiano Ikati-Mapuche, a R$ 2.000 o m2. Claro que ter uma peça de seda, pontos finos, feita à mão em lugares como a Índia e o Nepal, conta muito, mas o prazer de realizar um sonho pesa ainda mais.”

 

Matéria da Revista HG Casa, publicação da Grafite Feiras , produzida pela ML Jornalismo

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