Daniel Piza, grande jornalista e escritor brasileiro

É com imensa tristeza que recebemos a notícia da morte do jornalista Daniel Piza.

Mesmo com as várias atividades que exercia, sempre atendeu com muita gentileza aos convites que fazíamos para participar de nossas revistas.

Em sua homenagem, estamos postando a última entrevista que nos concedeu.

Daniel Piza: “Quem não lê não pensa por conta própria”

Literatura, cinema e música são parte integrante da vida do jornalista e escritor Daniel Piza, editor-executivo e colunista do jornal O Estado de S. Paulo há 10 anos, onde publica artigos sobre cultura, política e futebol. Autor de Jornalismo cultural (2003), a primeira obra brasileira específica sobre o tema, publicou também uma biografia moderna de Machado de Assis:Machado de Assis – Um gênio brasileiro  (2005), e um livro-reportagem sobre a Amazônia de Euclides  (2010), além de coletâneas reunindo seus ensaios e aforismos. Mal terminou Noites urbanas, livro de contos que será lançado no segundo semestre, já está trabalhando no Atlas literário do Brasil.

Esse amor pelas letras, segundo ele, veio da leitura de autores como  Machado de Assis, Dostoiévski, Bernard Shaw e outros. “Quando criança, li  Monteiro Lobato,  muito gibi, adorava atlas e a enciclopédia Mirador”, lembra. “Aos 14 anos, tive esse ‘estalo’ literário e passei a ler muito, inclusive autores que muitas vezes parecem difíceis à primeira vista. A leitura amplia nosso poder de concentração, nos deixa mais informados e menos inflamáveis, nos torna cidadãos mais críticos.  Shakespeare,  por exemplo, me fez pensar e repensar. As duas grandes fontes narrativas da cultura ocidental, a mitologia grega e a Bíblia católica, só tiveram um equivalente na obra de Shakespeare que, como disse Harold Bloom,  define a natureza humana moderna. Como vivo de escrever, sinto diariamente as influências de vários escritores”.

“Muita gente vê as estantes abarrotadas na minha casa e pergunta para que tantos livros, como se eu precisasse deles para pensar”, comenta. “Quem não lê é que não pensa por conta própria. Primeiro, porque os livros ficam ali discutindo o tempo todo, no falso silêncio da biblioteca; segundo, porque eles são grandes amigos, a quem podemos recorrer para conversar, seja ao ler ou reler, seja ao lembrar passagens. É um enriquecimento mental que nenhuma outra coisa dá”.

Entre as inúmeras obras que constam de seu acervo, Daniel Piza  selecionou algumas para sugerir aos leitores da Revista Platero:

Hamlet,  de Shakespeare, criou o personagem da modernidade por excelência. Sua angústia não se transforma em salvação, não há o reequilíbrio final das tragédias gregas, não há harmonia perfeita. Ao mesmo tempo, ele nos dá um ânimo, uma disposição de aprofundar a consciência, de enfrentar a covardia que a sociedade parece querer impingir a nós desde cedo. E deixa muitos versos memoráveis na cabeça.

Notas do subterrâneo,  de Dostoiévski,  foi o livro que mais me fez desconfiar dos outros seres humanos, de suas alegadas boas intenções. O personagem tenta viver sem depender dos outros, mas percebe que os outros já o habitam desde sempre, que não há autossuficiência plena.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis – Li Quincas Borba primeiro e depois me fascinei mais ainda com Dom Casmurro, tão sutil e complexo. Mas Brás Cubas é uma orgia de invenções, humores, sacadas, da percepção de como o ser humano se deixa iludir por totalidades que não se consumam jamais.

A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, é uma novela perfeita. O poder de descrição, de evocar um clima, a maneira como o escritor capta os detalhes e os paradoxos do comportamento humano, tudo é um modelo de escrita ficcional. E quantos homens mortos em vida não conhecemos por aí?

Em busca do tempo perdido, de Proust, é a maior aventura literária que vivi, uma mistura muito a meu gosto de ficção e ensaio, de reflexões sobre os indivíduos, a sociedade, a pintura, a música e as demais artes.

Odisseia, de Homero, dispensa comentários. Tudo vem dali.

Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, não é apenas um primor de criatividade linguística; é também uma grande história de amor impossível, como nas tragédias gregas, e um retrato de um sertão com toda sua particularidade cultural e existencial.

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é ainda, a meu ver, a melhor explicação do Brasil, de sua cultura complexa, em especial dos vícios que sobrepõem laços pessoais a questões objetivas, afetos a méritos.

Mensagem, de Fernando Pessoa, não vale por sua exaltação do “sonho português”, mas pela densidade de ideias, imagens e sons, pela maneira como ele mostra aquelas existências no limite do descobrimento, que era também a descoberta de si mesmos.

Os ensaios, de Montaigne, é um livro que originou muitas obras posteriores. Ali se libertou o indivíduo, na bendita petulância de escrever sobre tudo e todos e, especialmente, sobre si mesmo, em primeira pessoa, refletindo sobre as questões da moral e da existência.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em ML Jornalismo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s