Grandes histórias de amor

“Histórias de amor são tão antigas quanto a humanidade, mas parecem jamais perder a capacidade de seduzir novos corações”, diz a jornalista, escritora e professora de História da Literatura Thaís Rodegheri Manzano, que tem vários títulos publicados, entre eles Artimanhas da ficção – Ensaios de literatura. “Ao longo dos séculos de produção romanesca, inúmeros heróis se imortalizaram à custa de suas aventuras amorosas. Alguns desses heróis tornaram-se símbolos de sedução ‘maligna’, outros, de vítimas inocentes dela. Os leitores, porém, jamais se importaram com os desvios de seus heróis, apenas desejaram emocionar-se com suas desventuras.”

Ela comenta que Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, teve um efeito tão fulminante na época de sua publicação, 1774, que até hoje é um paradigma de paixões malsucedidas. Werther, fascinado pela jovem Charlotte, prometida a outro, é incapaz de conquistá-la e se entrega ao desespero. “Essa prosa poética arrebatadora conquistou as almas atormentadas por dores semelhantes. Espalhou-se uma febre wertheriana. Os menos contagiados vestiram-se com as cores do par romântico: as jovens, de branco e rosa; os rapazes, de azul e amarelo. Os mais contaminados suicidaram-se, e cidades da Alemanha chegaram a vetar a circulação do livro. Goethe, horrorizado com a onda que desencadeara, advertiu no prefácio da segunda edição: Seja homem, e não me siga!“.

Felizmente, nem todas as sagas amorosas têm um desenlace trágico. “Na Antiguidade já era possível se emocionar com o desespero de jovens apaixonados, separados pelo destino, mas reunidos em um final feliz”, pondera a jornalista. “Um desses pares sobreviveu ao desaparecimento do mundo antigo: Dafne e Cloé (Longo de Lesbos: Dafnis y Cloe), primeiro romance pastoral, datado do século II. Sua qualidade é tanta que permanece até hoje como uma das mais sutis análises dos estados amorosos. Abandonados na ilha de Lesbos, Dafne e Cloé crescem juntos; na adolescência, apaixonam-se, mas não têm noção do que seja o sentimento. O leitor acompanha a paulatina descoberta das emoções e a iniciação amorosa dos jovens”.

Na Idade Média, as histórias de amor continuaram fazendo sucesso, transmitidas de forma oral. Lendas sobre paixões imorredouras foram depois registradas pelos romancistas. Uma das mais famosas é a de Tristão e Isolda. Ele vai à Irlanda convencer a jovem Isolda a se casar com seu tio, Marco, rei da Cornualha. Durante a viagem em que a conduz para seu futuro reino, os dois bebem o elixir destinado a ela e ao marido, tornando-se indevidamente ligados por um amor indissolúvel.

Uma das particularidades interessantes em alguns livros de amor que marcaram época é que os protagonistas não se encaixam no perfil do herói bom caráter. Thaís cita como exemplo o conde de Valmont, personagem de As ligações perigosas, de Choderlos de Laclos, um libertino que se comprazia em seduzir e destruir suas vítimas. Nesse jogo cada vez mais ardiloso, ele parte para a conquista de uma jovem senhora, Madame de Tourvel, admirada por sua virtude incorruptível, e acaba caindo na própria armadilha, experimentando um sentimento que desconhecia e do qual não saberá se desvencilhar: o amor verdadeiro. “Com toda a sua libertinagem, trata-se de uma grande história de amor, com um fim romântico”.

Não se pode esquecer também do Drácula, de Bram Stoker, universalmente conhecido como o monstro impiedoso que se alimenta do sangue de suas vítimas. Thaís considera o pobre drácula um injustiçado, pois se tornou famoso apenas pelo lado “ruim” de sua natureza, sendo pouco lembrado pela sua tragédia amorosa. O conde retorna da guerra e descobre que sua amada mulher, acreditando-o morto, se suicidou. Revoltando-se contra Deus, torna-se um ser amaldiçoado. Séculos depois, ao conhecer Mina, acredita ter reencontrado sua mulher. Revive a paixão, mas se debate com sua consciência, desejando poupá-la dos horrores da vida de um vampiro. É com esse invólucro sedutor que ele retorna transfigurado na atual série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, um delírio entre os jovens.

Histórias de amor são mesmo imprevisíveis e superam todas as barreiras. É o que confirma D. H. Lawrence no romance O Amante de Lady Chatterley, que, segundo Thaís Rodegheri Manzano, causou escândalo na recatada Inglaterra ao unir abertamente amor e sexo. A jovem Constance Reid casa-se com o lorde Clifford Chatterley. Logo após o casamento, ele vai para a guerra, da qual retorna inválido. Romântica e inexperiente, Constance acaba se apaixonando por um empregado de sua propriedade, um homem de nível social inferior ao seu, vigoroso e sensível, com quem vive um tórrido romance.

“Ontem como hoje, para os leitores não há bandidos ou mocinhos nas histórias de amor”, conclui a especialista em História da Literatura. “O que conta é a intensidade emocional das obras. Assim, até maquiado como um pálido mocinho, Drácula continua, com o mesmo sucesso, a oferecer a sedutora proteção de sua capa manchada de sangue.”

Matéria produzida pela ML Jornalismo para a Revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes

 

Deixe um comentário

Arquivado em Revista Platero

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s