Honoré de Balzac: O grande retratista da natureza humana

A imensidão de um projeto que abarca a um só tempo a história e a crítica social, a análise de seus males e a discussão de seus princípios autoriza-me, creio, a dar à minha obra o título que ela tem hoje: A comédia humana. É ambicioso? É justo? É o que, uma vez terminada a obra, o público decidirá.

O que o próprio escritor anteviu e registrou no prefácio de sua obra monumental concretizou-se: A comédia humana foi mundialmente consagrada como uma das mais importantes e preciosas realizações literárias de todos os tempos. Nesse imenso projeto, que teve início em 1830 e engloba 89 romances, novelas e histórias curtas, Honoré de Balzac (1799-1850) compôs um painel vivo de sua época, mesclando ficção e realidade. Sentimentos contidos, paixões ardentes e amores proibidos são alguns dos ingredientes que permeiam as narrativas e cativam a atenção do leitor. Mas o que mais impressiona é a perspicácia com que são mostradas as sutilezas, as hipocrisias e os interesses que moviam a sociedade francesa do século 19. Uma sociedade que, segundo Balzac, era dominada pelo poder e pelo dinheiro.

Em meio aos mais de 2.500 personagens que transitam pelas páginas de seus livros, as mulheres ganham destaque especial e são sempre retratadas de maneira fascinante, não só pela beleza ou pelas virtudes, mas principalmente pela determinação e coragem que revelam por trás de uma aparente fragilidade, suscitadas muitas vezes pela fervorosa crença no amor inextinguível. Balzac desvendou a alma feminina como poucos e foi considerado por críticos e intelectuais de diferentes épocas um arguto observador da natureza humana. Na apresentação de diversas edições lançadas e relançadas constantemente pela L&PM com esmeradas traduções, Ivan Pinheiro Machado ressalta que “Balzac soube como ninguém captar o espírito do século XIX” e cita oportunamente um comentário de Friedrich Engels numa carta a Karl MarxAprendi mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século, inclusive nos seus pormenores econômicos (por exemplo, a redistribuição da propriedade real e pessoal depois da Revolução), do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época, todos juntos.

Balzac ficou célebre por exaltar os encantos da mulher depois dos 30 anos. A ‘mulher balzaquiana’, que ganhou destaque com a protagonista Julie d’Aiglemont, de A mulher de trinta anos, tornou-se uma referência universal. Na galeria de personagens marcantes estão ainda a sedutora Valerie Marneffe, de A prima Bete, o avarento senhor Grandet, de Eugénie Grandet, um dos mais fidedignos avarentos da literatura mundial, e a bela Antoinette, de A duquesa de Langeais, uma nobre que, rodeada de frivolidades e cortejada pelos parisienses, sucumbe a uma paixão avassaladora. Sem falar de muitos outros clássicos, como Ilusões perdidasO pai GoriotFerragusA pele de onagroO lírio do vale e tantos mais.

Com uma linguagem primorosa e um estilo preciso e descritivo, Balzac cria toda uma ambientação propícia à compreensão dos fatos e do comportamento dos personagens, transportando-nos para o seu tempo e o seu espaço. E é nessa volta ao passado que ele consegue envolver e conquistar definitivamente o interesse do leitor. A comédia humana divide-se em três partes – estudos de costumes, estudos analíticos e estudos filosóficos -, abrangendo temas diversos: cenas da vida privada, cenas da vida provinciana, cenas da vida parisiense, da vida política, da vida militar e da vida rural. Em todas essas esferas, como diz o autor no prefácio – e seus romances confirmam –,encontram-se algumas mentes dignas de estudo sério, caracteres cheios de originalidade, existências tranquilas na superfície, mas secretamente devastadas por paixões tumultuosas.

Para compor uma obra de tal magnitude, entretanto, Balzac acabou massacrado pelo trabalho, varando noites seguidas sem dormir e alimentando-se pessimamente. Nesse ritmo alucinante, obcecado pelo desejo de sucesso literário, ele produziu muitas de suas obras-primas, mas foi desastroso na condução de sua vida pessoal e de seus negócios, passando seus últimos anos falido e endividado. Morreu cedo, aos 51 anos, exaurido pelos fracassos financeiros, porém vitorioso em seu talento excepcional como escritor. A obra de Balzac sobreviveu aos seus tormentos mundanos, mostrando que, sem dúvida, ele estava um passo além dos simples mortais.

 

Matéria da revista Platero n. 25/novembro: http://www.revistaplatero.com.br Produção da ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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