Os contos de fada perduram porque tratam de sentimentos universais

 

Há muito tempo, num reino distante, viviam um rei, uma rainha e sua filhinha, a princesa Branca de Neve. Sua pele era branca como a neve, os lábios, vermelhos como o sangue e os cabelos, pretos como o ébano. Um dia, a rainha ficou muito doente e morreu. O rei, sentindo-se sozinho, casou-se novamente. O que ninguém sabia é que a nova rainha era uma feiticeira cruel, invejosa e muito vaidosa. Ela possuía um espelho mágico, para o qual perguntava todos os dias:
– Espelho, espelho meu! Há no mundo alguém mais bela do que eu?

Quem nunca se deixou levar pela magia dessas histórias que conduzem ao reino dos príncipes e princesas, fadas, bruxas e tantos outros seres encantados? Transmitidas de geração para geração, quase sempre anônimas, elas foram reunidas por pesquisadores através dos tempos, ganhando traduções, versões similares e inúmeras edições em todos os cantos do mundo.

Charles Perrault, escritor e poeta francês do século 17, foi o primeiro a dar acabamento literário a narrativas da tradição oral, como A Bela AdormecidaChapeuzinho VermelhoCinderelaO Pequeno Polegar e O Gato de Botas, inaugurando o gênero ‘conto de fadas’. Muitas dessas histórias foram compiladas depois pelos Irmãos Grimm, dois estudiosos da linguística que, no início do século 19, se dedicaram a recolher lendas populares em diversas províncias alemãs e adaptá-las para o público infantil com enfoque educativo. Do repertório de Contos de Grimm, que privilegia temáticas como solidariedade e amor ao próximo, fazem parte Branca de NeveOs músicos de Bremen, e A inteligente filha do camponês, entre muitas inesquecíveis

A essas coletâneas, somam-se ainda outras narrativas notórias, que foram recontadas no decorrer dos séculos e até hoje enriquecem o universo da fantasia. Entre elas, encontram-se os contos de Hans Christian Andersen, os manuscritos de As mil e uma noites, saídos do imaginário árabe, e Contos filosóficos do mundo inteiro, compilados por Jean-Claude Carrière, oriundos da Índia, da China, da África, dos lugares mais distantes e tempos longínquos – histórias inteligentes e muitas vezes misteriosas que, segundo o autor, tocam todos os pontos da interrogação humana, aguçando a curiosidade e a inquietude.

“Essas histórias perduram porque tratam dos encantos e agruras da alma humana”, observa a autora de livros infantojuvenis Stela Barbieri, que dirige a ação educativa do Instituto Tomie Ohtake, é assessora de artes de várias escolas e curadora educacional da 29ª Bienal de São Paulo. “São ensinamentos que lidam com arquétipos universais. Durante a trajetória dos heróis, mostram que sempre há uma luz no fim do túnel e que a vida é cheia de desafios e dificuldades que exigem de nós tenacidade, persistência e coragem para seguir em frente.”

Segundo a escritora, as tradições orais refletem características de seus países, do clima, da cultura, e se transformam com o passar do tempo em função das mudanças sociais que vão ocorrendo. “Nas versões mais antigas de Branca de Neve, por exemplo, quando o caçador vai à floresta matá-la por ordem da rainha, ele tem de trazer de volta o fígado – que simbolizava a força – como prova da execução do crime. Isso foi substituído depois pelo coração – que simboliza os sentimentos”.

As mil e uma noites são os escritos que ela considera mais marcantes. “São histórias repletas de aventuras e ensinamentos. Em Simbá, o marujo, por exemplo, o protagonista passa por muitos desafios, chegando muitas vezes à beira da morte, no entanto, sempre segue em frente em busca de mais viagens”, comenta, citando ainda outras obras que trazem boas versões de contos e lendas fascinantes: O círculo dos mentirosos, de Jean-Claude CarrièreContos dos irmãos Grimm, de Clarissa Pinkola EstésHistórias do mar, compiladas por James RiordanSua alteza – A Divinha, de Angela LagoA formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo e Nasrudin, deRegina MachadoIfá, o AdivinhoOs príncipes do destinoXangô, o Trovão e Oxumaré, o Arco-Íris, de Reginaldo Prandi.

Com vários títulos publicados nessa linha, entre eles Bumba-meu-boiA menina do fioO livro das cobras e ABC do JapãoStela Barbieri tem um carisma especial para contar tradições orais de diversas culturas, mas adora engendrar suas próprias narrativas. “Desde criança, eu ficava imaginando aventuras para contar. Inventei muitas, como A menina do fio“…

…Era uma vez uma linda princesa que nasceu com um fio de cabelo diferente no alto de sua cabeça. Não era cabelo, era mais duro que aço, reluzente e bem comprido. Ah, e o fio enroscava em tudo que era lugar, tornou-se uma baita dor de cabeça. Nada, nem ninguém conseguia arrancar o fio da cabeça da menina, que cresceu, transformando-se numa bela moça, mas muito mal-humorada e triste.

De nada adiantavam os presentes que diversos cavalheiros ofereciam a ela; a princesa sempre os recusava e caçoava dos pobres homens. Mas um deles percebeu que ela não fazia isso por mal, e sim porque aquele fio ficava puxando sua cabeça para trás o tempo todo. Decidido, o rapaz seguiu o fio e foi desenroscando cada nó, cada volta, pacientemente, nos lugares mais distantes. Quando terminou de soltar todo o fio, a princesa percebeu que, pela primeira vez na vida, estava feliz.

E foi com esse cavalheiro que ela se casou. Mas a história não termina por aí, porque o fio continuou a crescer…

 

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo: 

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