Os deuses do Olimpo: fantasia carregada de realismo

 
As aventuras são fantásticas, prendem a atenção do começo ao fim. Misturam elementos da mitologia grega a elementos da modernidade, despertando a curiosidade de saber mais sobre esses seres incríveis e suas histórias. É uma leitura muito prazerosa, não dá vontade de parar… O entusiasmo nos depoimentos dos jovens leitores de O ladrão de raios, de Rick Riordan, primeiro volume da saga sobre o garoto Percy Jackson e os deuses do Olimpo (seguida de O mar de monstrosA maldição do Titã e A batalha do labirinto), explica o sucesso da adaptação cinematográfica da obra, que bateu recordes de bilheteria na estreia, em fevereiro de 2010. Essa paixão se revela também no interesse crescente por outros livros sobre o tema, suscitando o lançamento de novas coleções, como a Histórias sombrias da mitologia grega, que já conta com Medeia, a feiticeira e Antígona, a rebelde.

“Os jovens adoram mitologia”, diz o ficcionista, poeta e professor de literatura e língua portuguesa Domício Proença Filho, membro da Academia Brasileira de Letras. “Descobri isso numa aula sobre Os Lusíadas, para cem alunos de pré-vestibular. Turma excelente, mas ruidosa como costuma acontecer. Em determinado momento, citei Baco, e me vi diante de olhos perplexos. Ninguém sabia de quem se tratava! Resolvi então usar de um estratagema didático: assumi a narrativa em primeira pessoa – Meu nome é Baco, mas podem me chamar de Dionísio. Eu sou, antes de tudo, um deus grego e muito me orgulho dessa condição, apesar de tudo que passei. Por isso mesmo, sei que fará bem contar a vocês a minha perseguida história. E contei a atribulada trajetória do deus do vinho. Nunca tive uma turma tão atenta e silenciosa! Daí em diante quase não consegui prosseguir o curso. Todos queriam saber mais sobre cada um dos olímpicos.”

Autor de cerca de cinquenta livros, o escritor ressalta que esse fato o inspirou a elaborar a série Estórias da mitologia – Eu, Zeus, o Senhor do OlimpoNós, as deusas do OlimpoOs deuses, menos o pai, direcionada para o público jovem, com episódios e figuras mitológicas que marcaram a cultura greco-romana e até hoje repercutem na cultura ocidental. Nesses três volumes, ele trata dos doze habitantes do Olimpo, que têm nomes gregos e romanos. São seis entidades masculinas: Zeus (Júpiter); Baco ou Dionísio (Líber); Hermes (Mercúrio); Febo (Apolo); Ares (Marte) e Hefestos (Vulcano); e seis femininas: Hera (Juno); Ártemis (Diana); Atená (Minerva); Afrodite (Vênus); Héstia (Vesta); Deméter (Ceres). Todos apresentam, em primeira pessoa, uma visão de suas próprias histórias, o que torna os textos ainda mais interessantes. “Procurei fazer um livro divertido, mas fiel à verdade mitológica”.

Em tom descontraído e bem-humorado, as narrativas permitem conhecer as aventuras e desventuras dos deuses, suas rivalidades e disputas. Zeus, o deus dos deuses, que zela pelos humanos e pelas divindades, relata seus muitos casamentos e casos amorosos. Era perfeitamente normal entre nós, os deuses. Coisas da mitologia. Ele conta que Sêmele, princesa de Tebas, de cuja relação nasceu Dionísio, foi uma de suas amadas mais envolventes. Ela era tão especial que eu cometi uma imprudência: num instante de muita ternura, assegurei-lhe – palavra divina – que atenderia a todos os seus pedidos, fossem de que natureza fossem…

Dionísio, filho predileto de Zeus, fala de suas agruras para sobreviver à implacável perseguição da esposa ciumenta de seu pai, a soberana Hera. Foi numa dessas fugas, vivendo nos campos de Nisa entre ninfas e sátiros, que ele descobriu o vinho e suas delícias. Uma sensação de liberação que eu jamais experimentara se apoderou de mim, à medida que as taças eram esvaziadas!No volume dedicado às divindades femininas, Hera, a deusa dos amores legítimos, também dá a sua versão dos acontecimentos. Se o meu Júpiter (gosto mais do seu nome romano) prevaricou ou prevarica, fá-lo por dever de ofício. É sua missão. É claro que, às vezes, fico fula da vida: sou deusa, mas sou mulher! (…) Como suportar, por exemplo, casos como o dessa desgraçada da tal de Sêmele?

Segundo o autor, o que fascina nos textos mitológicos é o fato de configurarem histórias fantasiosas, mas vinculadas à realidade da vida. “As narrativas refletem uma profunda interpretação da realidade. E os deuses são carregados de humanidade: amam, decepcionam-se, sofrem, têm momentos de realização e são obrigados a se esforçar para conseguir o que desejam. Zeus, o Senhor do Olimpo, mesmo com todo o seu poder, tem de valer-se, por exemplo, de inúmeras estratégias para garantir o sucesso de suas aventuras amorosas. Dionísio, o inventor do vinho, é um sofrido deus alegre”.

Domício Proença destaca, finalmente, dois fatores básicos de atração para os jovens: a aventura que marca o percurso de cada figura mitológica, pontuada de peripécias, e a magia das histórias, que mexem com a imaginação. “Sobretudo a magia”, ressalta, “que está na moda nos dias de hoje e garante o sucesso estrondoso de filmes e narrativas ficcionais”.

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo:  http://www.revistaplatero.com.br/n6/platero1.asp

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