A felicidade que poucos veem

Por que é tão difícil as pessoas se sentirem felizes, mesmo quando têm bens, fama e até afetos sinceros? Para a filósofa Regina Schöpke, autora de Matéria em movimento, entre outros livros, e colaboradora dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, essa é a questão inicial quando se trata de falar sobre felicidade, e o grande problema é a não aceitação da vida como ela é. A existência é feita de alegrias e de dores, de sofrimentos e prazeres. Se recusamos um desses lados, vivemos pela metade. A vida é pulsação, movimento, tem momentos de alegria e de tristeza, sonhos e tormentos.

Diante dessa constatação, a ideia de felicidade como um estado permanente é utópica. Isso não significa, porém, que não exista uma forma de felicidade possível, conforme ressalta a filósofa. “É preciso entender que não existe um estado de alma imutável. Aliás, nada é imutável nesse mundo. O homem chora e ri, sofre e se alegra. Viver plenamente é poder sentir tudo isso. Negar a dor e a angústia é negar a própria vida. Segundo Nietzsche, felicidade é o poder de ação, de decisão, é a própria força de viver.”

Uma das grandes discussões da filosofia é se a felicidade consiste em ‘ter’ ou em ‘ser’. A felicidade está nas coisas ou em nós mesmos? Regina considera que a felicidade que se busca nos bens materiais é frágil e paradoxal. Como observa Schopenhauer,  “basta o homem realizar um desejo para começar a desejar outra coisa de novo”, ou seja, a felicidade se torna algo inatingível. Fato que Epicuro  já prenunciava há mais de dois mil anos: “Para quem pouco não basta, nada basta”. Num mundo que estimula e valoriza cada vez mais o consumo de bens voláteis, ela reconhece que fica difícil provar que a felicidade reside no que somos e não no que temos. O novo princípio parece ser: ‘compro, logo existo’. Sugestionadas pelas campanhas publicitárias, as pessoas se submetem a essa espécie de escravidão voluntária.

Para ter uma visão ampla de como esse mecanismo domina os tempos atuais, Regina sugere a leitura de A felicidade paradoxal, do filósofo contemporâneo Gilles Lipovetsky.  O livro retrata bem a chamada “sociedade de hiperconsumo”, mostrando que o bem-estar imediato tornou-se uma verdadeira “paixão de massa”. Em nome desse hiperconsumo, muitas conquistas e valores humanos estão se diluindo. A inveja e a cobiça, por exemplo, antigas vilãs no mundo cristão, hoje são estimuladas.

“O discurso em torno da brevidade da vida é de fato atraente, mas é ilusório pensar que os prazeres imediatos são a solução de nossas tristezas”, afirma. “É na capacidade de ser pleno, forte e senhor de si que se encontra a chave para a felicidade duradoura”. Ela salienta que os grandes pensadores nos ajudam a entender o quanto a felicidade depende muito mais daquilo que somos. “Tales de Mileto, o primeiro filósofo grego, define o homem feliz como aquele que tem o corpo sadio, forte, e uma alma bem formada. Platão liga a felicidade diretamente à virtude. Só os virtuosos podem experimentar os prazeres do espírito. Aristóteles, o mais brilhante discípulo de Platão, leva em conta, além da virtude, a satisfação das necessidades e aspirações mundanas, mas lembra que todo excesso é danoso e destrói o delicado equilíbrio da vida feliz.”

Ainda nessa linha de pensamento, Regina cita Epicuro, para quem a felicidade depende de nosso estado íntimo, e Sêneca, o filósofo romano que, séculos depois, reafirmava que a felicidade real consiste em sermos senhores de nós mesmos e de nossas necessidades. Para ele, aquele que busca apenas prazeres, sem se preocupar com o aperfeiçoamento pessoal, é um insensato; em vez de diminuir suas dores, acaba por multiplicá-las, tornando-se um escravo dos próprios desejos. Os prazeres são necessários, mas só são válidos se contribuem para nos tornar mais fortes e livres. No entender de Espinosa (século 17), é preciso fazer “bons encontros” ao longo da vida, ter afetos que nos tornam cada vez mais fortes, mais capazes de agir e de pensar.

“Não existe, por parte dos filósofos, uma objeção à riqueza em si, nem ao poder ou à fama, desde que essas coisas não escravizem a pessoa”, esclarece. “Quem não é livre, no corpo ou na alma, jamais será feliz. Isso nos leva a Nietzsche e à sua concepção de felicidade ligada à força para aceitar e enfrentar a vida como ela é, sem recorrer a anestésicos. É daí que vem a alegria contínua – e possível – de viver. Ter força é estar inteiro, plenamente vivo, seja na alegria, seja na dor. É nunca desistir, mesmo quando tudo parece perder o sentido. A vida é o verdadeiro bem que todo ser possui.”

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo:  http://www.revistaplatero.com.br/n6/platero3.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Revista Platero

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s