Milton Hatoum: Romances de fôlego

Alguns escritores têm esse poder: contam histórias fascinantes e, com suas tramas e personagens fortes e bem-elaborados, conseguem ampliar nossa visão de mundo. Milton Hatoum, sem dúvida, é um desses talentos; a cada nova narrativa, de extraordinário fôlego, capta definitivamente o interesse do leitor. Resgatando fatos e memórias de Manaus, sua cidade natal, de suas raízes libanesas, ou ainda de suas andanças pelo exterior, seus escritos chamam a atenção pela autenticidade e pelo conteúdo universal.

Não é à toa que seus romances sejam tão premiados e tenham sido publicados em mais de 15 países.Relato de um certo Oriente e Dois irmãos, que abordam dramas e relações familiares, entrelaçando aspectos culturais do Oriente e do Amazonas, receberam o Prêmio Jabuti em 1990 e 2001, respectivamente. Cinzas do Norte, uma saga que traz à tona as desilusões, os conflitos e os impasses de uma geração submetida ao patriarcalismo e autoritarismo enraizados na sociedade brasileira, ganhou nada menos que cinco láureas: o Grande Prêmio da Crítica APCA (2005), o Jabuti como Melhor Romance e Livro do Ano (2006), o Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2006) e o Prêmio Bravo (2006). EÓrfãos do Eldorado (2008), que por trás de um conto de amor desesperado tece a crônica de uma família e do mito amazônico da Cidade Encantada, também recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance, já foi publicado em boa parte da Europa, inclusive na Croácia e Suécia, e será lançado agora na China.

Em 2009, o autor lançou A cidade ilhada, seu primeiro volume de contos, evocando passagens que vivenciou em outras terras, como Paris, no contoBárbara no inverno, e Barcelona, em Encontros na península. Para 2010, uma novidade em primeira mão: seu site www.miltonhatoum.com.br entrará no ar em maio.

“A experiência de vida é fundamental para quem quer escrever. Não se escreve a partir do nada, e sim a partir de vivências, que não vêm como uma cachoeira, mas como filetes de água que são filtrados e se transformam em matéria literária”, diz Milton Hatoum, que passou a infância e a adolescência em Manaus e depois partiu para o mundo, morando em Brasília e São Paulo – onde hoje reside -, na Europa e nos Estados Unidos. “Tudo o que você ouve, o que você vive, o que você lê e alguma coisa do que você sonha acaba servindo de inspiração. A infância e a juventude, particularmente, são muito marcantes, pois é de lá que vêm os primeiros traumas, as primeiras descobertas, as alegrias. De algum modo, todas essas coisas se refletem em meus romances.”

Manaus, na sua visão, é uma cidade atípica. Isolada e ao mesmo tempo aberta ao mundo, por ser um eixo portuário, o que lhe propiciou o convívio com brasileiros e estrangeiros, inclusive com os libaneses da própria família, “uma espécie de pequeno Líbano incrustado em Manaus”. Teve oportunidade também de conviver com índios nativos, que vinham do interior do Amazonas para trabalhar nas casas de classe média. “Tive uma babá que não falava português, falava nhangatu (língua híbrida, mistura do tupi com português)”. Além disso, considera que foi fundamental estudar em escolas públicas, como o tradicional Colégio Pedro II, onde teve intenso contato com toda a pirâmide social.

“A vida na província é interessante como inspiração literária”, comenta, “porque os acontecimentos mais escabrosos, desde um adultério até um assassinato, tornam-se públicos. É uma espécie de palco aberto, em que são encenados dramas e conflitos para a plateia, que é a cidade”. Outras influências importantes, segundo ele, foram seu avô, “um ótimo contador de histórias”, a quem prestou uma homenagem no conto Adeus comandante, do livro A cidade ilhada, e a leitura de autores como Machado de AssisErico Verissimo,Graciliano RamosJorge AmadoFlaubert. “Essas leituras foram outro tipo de descoberta, porque você sai do seu lugar e viaja por novos universos. O Brasil, que para mim era o Amazonas, foi ampliado, tornou-se mais complexo”.

“O romance é a arte da paciência”, diz o escritor. “Acho importante começar pelo alicerce e ter em mente aonde se quer chegar. A ponte entre o começo e o fim é imprevisível, tortuosa. Nessa montagem, os esboços iniciais são sempre modificados. E há o trabalho com a linguagem, que é exaustivo. O maior desafio é dar coesão e unidade a tudo o que está disperso, sabendo usar a imaginação, desprendendo-se das amarras da realidade, dos valores morais, da religião, das convenções sociais.”

A seu ver, não basta ter uma trama interessante, bem armada; o romance tem que explorar a subjetividade dos personagens, os conflitos, as relações passionais. Tem que ter personagens fortes, e isso exige uma construção mais complexa, não uma simples cópia de alguém, mas uma concepção multifacetada. É importante também que a narrativa seja bem situada em relação ao tempo e tenha alguma verdade da vida do narrador, uma experiência de vida real, que não é necessariamente a do autor. “No fim, o leitor deve ter a sensação de que aquela história de fato o convenceu, que de algum modo poderia ter existido”.

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo: http://www.revistaplatero.com.br/n6/platero2.asp

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