Livros de gastronomia? Um assunto para Nina Horta

Quando o assunto é gastronomia, ninguém mais indicado que Nina Hortapara falar. Escritora, cronista e proprietária do famoso bufê Ginger, ela escolheu a culinária como fonte de conhecimento e como profissão. Formada em Pedagogia pela USP, ela brinca: “Sou mais uma pedagoga que virou suco. O casamento foi a motivação inicial. Coisas do tempo que não voltam mais. Queria aprender a cozinhar e acabei pegando gosto, virou até mania e, mais tarde, profissão”.

Desse fascínio pela culinária, vem também a inspiração para as saborosas crônicas que publica há vários anos na Folha de S.Paulo e que já resultaram inclusive num livro de sucesso: Não é sopa. Em Vamos comer, escrito para o MEC e distribuído nas escolas, Nina relata sua experiência com as merendeiras brasileiras. Participou ainda de muitas antologias e traduziu algumas obras, como Sopa de romã, da iraniana Marsha Mehran.

O encanto pela literatura, segundo ela, foi suscitado pela assinatura de um suplemento chamado Globo Juvenil: “Às quintas-feiras pela manhã eu olhava por debaixo da porta, via a pontinha dele e meu coração se enchia de felicidade ao saber que iria me encontrar com o Capitão Marvel, Dick Tracy, o príncipe Namor, Mandrake… Era demais! Depois o prazer se estendeu aos excelentes livros da Madame de SégurTarzanJulio VerneDickens, toda a coleção Azul e Rosa de romances para moças, Jane AustenOs três mosqueteirosAgatha ChristieErle Stanley GardnerConan Doyle,Somerset Maughan e meus autores preferidos, Proust e Flaubert. Bem, nesta minha geração, somos todos produtos de Monteiro Lobato. Ele foi nosso Harry Potter“.

No seu entender, a partir dos 14 anos não há mais literatura de adulto e de criança. “É para ler tudo que valha a pena. E esse negócio de leitura, em mim, é exagerado. Se alguma coisa me influencia, é porque li algo sobre ela; se quero me influenciar, vou procurar nos livros. Nem que seja para discordar deles. Enfim, acho que minha vida é uma conversa constante com eles”.

No campo da gastronomia, Nina Horta diz que começou lendo receitas em revistas, comprando manuais de culinária, de como preparar os quitutes… “Um dia, em Londres, onde morava meu irmão, vi que minha cunhada, também louca por comida, lia alguma coisa. Cheguei perto e ela abraçou o livro, com medo que eu puxasse. E ficou puxa pra lá e puxa pra cá. Não roubei aquele, mas saí e fui comprando vida afora todos os livros de cozinha de Elizabeth David, que nessa época abrira uma loja em Londres com panelas e utensílios escolhidos durante suas viagens. Era de deixar a gente louca, tudo de muito bom gosto, e ela, uma escritora maravilhosa, com uma prosa de dar inveja a qualquer escritor.

Outra grande autora da área é M. F. K. Fisher, que não cozinhava tão bem mas entendia demais de comida e dos sentimentos que acompanham a comida. Há muitos e muitos livros, todos interessantíssimos mesmo como literatura.

Livros de receitas já são mais complicados. Difícil achar um que tenha muitas receitas boas. Elejo os da Marcella Hazan, (nunca errei nada com eles): Fundamentos da cozinha italiana clássica (dois volumes) e La Cucina. Sem esquecer o nosso Câmara Cascudo, com seus três volumes, Antologia da alimentação no BrasilHistória da alimentação no Brasil e Prelúdio da cachaça.

Atualmente, livros muito inteligentes, que demandam uma leitura atenta e estudiosa, são os do antropólogo Carlos Alberto Dória. Todos se aprofundam no estudo da cozinha e principalmente no estudo da cozinha brasileira. Compro até livros que têm o prólogo dele. Aliás, como nem só de livros de cozinha vivem os cozinheiros, vale citar o brasileiro e memorialista Pedro Nava, que corre o país de cima a baixo falando de comida como ninguém.

Sabem um livrinho que acho bom e já li mais de uma vez? É o da Norah Ephron – O amor é fogo – descrevendo seu divórcio, grávida de sete meses e com azia terminal! Ela é cozinheira, foi juntando boas receitas à medida que escrevia, e é muito espirituosa. E tem uma obra dos norteamericanos Jean-Georges Vongerichten e Mark Bittman, um daqueles livros de mesa coloridos, cheios de fotos, chamado Simple to Spectacular, que é justamente isto: simples e espetacular”.

 

Matéria da revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes produzida pela ML Jornalismo: http://www.revistaplatero.com.br/n5/leitor_indica.htm

 

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