O cordel de Patativa do Assaré

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer.
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará.
Patativa do Assaré

Poucos poetas retrataram com tanta sensibilidade o sertão e o povo nordestino como Patativa do Assaré, numa linguagem simples, do dia a dia, e também sofisticada. Um dos maiores representantes brasileiros da literatura de cordel, Antônio Gonçalves da Silva, natural de Assaré, no Ceará, ganhou o ‘codinome’Patativa do Assaré em alusão à patativa, um pássaro de belíssimo canto.

Filho de um pequeno agricultor rural que morreu quando o cordelista tinha oito anos, Patativa teve de trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Foi para a escola somente aos 12 anos, onde ficou alguns meses, o suficiente para aprender a ler. Sem nunca ter abandonado a lavoura (foi agricultor até os 70 anos), dedicou seus mais de 90 anos de vida (1909 a 2002) também à cultura popular. Tudo começou quando sua mãe vendeu uma ovelha para lhe comprar uma viola. A partir daí, a viola era expressão dos finais de semana, e ele passou a escrever e a cantar repentes.

Segundo o jornalista e professor Gilmar de Carvalho, autor de 10 livros sobre Patativa, entre os quais, o mais recente, Patativa do Assaré – O sertão dentro de mim, a essência da obra do prestigiado cordelista é “um cordel que não se restringe a um folheto de feira. Uma poesia com forte dicção política e que não perde sua qualidade, pelo contrário, alça voo. O mais importante é sua ligação com a terra, a política que não se confunde com o panfletário, uma diversidade de temas que não abre mão das marcas de uma autoria forte, um humor delicado, uma oralidade que ganha o suporte do impresso”.

Patativa do Assaré escreveu seu primeiro livro em 1956, Inspiração nordestina, retratando aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Uma segunda edição com acréscimos foi feita em 1967, passando a se chamar Cantos do Patativa. Em 1978, lançou Cante lá que eu canto cá, que lhe abriu as portas para o mundo intelectual e que ainda hoje é reeditado. Depois vieram, entre outros, Aqui tem coisaIspinho e Fulô e Cordel: Patativa do Assaré – Uma voz do Nordeste.

“A obra de Patativa é estreitamente interligada”, afirma Gilmar de Carvalho. “Cada livro parece que amplia o anterior, repete os melhores poemas e insiste nas temáticas que lhe eram mais caras, ajuda a difundir a literatura de cordel, mas não aquela com a qual estamos acostumados. Sua poesia traz do cordel o encantamento da fala, a magia dos sons, das rimas, a riqueza das métricas e uma visão do mundo que nos embevece”.

Para ele, Patativa é um dos responsáveis pela importância que a literatura de cordel atingiu hoje. “Ela é feita para o homem do povo e para o intelectual, para crianças e adultos, homens e mulheres. Ela nos pega pela magia e só então nos damos conta de sua força e de seu impacto em nossas vidas”.

O jornalista e escritor Xico Sá, que assina o prefácio de Patativa do Assaré – O sertão dentro de mim, resume muito bem a importância de Patativa: “Guimarães Rosa em prosa e Patativa do Assaré em versos são dois grandes autores tradutores dos sertões brasileiros”.

Mais Patativa

Melhores Poemas – Patativa do Assaré, de Cláudio Portella (org.)
Patativa do Assaré – A trajetória de um canto, de Luiz Tadeu Feitosa
Feira de versos – Poesia de cordel, de Patativa do AssaréLeandro Gomes de Barros e João Melquiades F. da Silva
Patativa do Assaré: Um poeta cidadão, de Gilmar de Carvalho
Patativa do Assaré: As razões da emoção – Capítulos de uma poética sertaneja, de Cláudio Henrique Sales Andrade
Patativa do Assaré – Porta-voz de um povo, de Antonio Iraildo Alves de Brito
Patativa do Assaré – O poeta e o jornalista (audiolivro), de Ângelo Assis

 

Matéria da Revista Platero n. 24 /outubro.

Revista Platero é produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes 

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