Platero e eu

Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio por fora, que parece todo de algodão, parece não ter ossos. Só os espelhos de azeviche de seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Deixo-o solto, e ele vai para o prado, e acaricia mansamente com o focinho, mal as tocando, as florzinhas cor-de-rosa, azul celeste e amarelo-ouro… Chamo-o docemente: “Platero!”, e ele vem até mim com um trotezinho alegre, como se viesse rindo, como que num desprendimento ideal (…) 

A delicadeza com que o autor se refere ao burrinho andaluz, seu companheiro e silencioso interlocutor nas andanças pela pequena aldeia de Moguer, denota logo de início o tom afetuoso dessa prosa poética de Juan Ramón Jiménez(1881-1958), Prêmio Nobel de Literatura de 1956. Bastante cultuado na Espanha e considerado um clássico da literatura universal, Platero e eu foi retraduzido por Monica Stahel e tem versão integral, bilíngue. A cuidadosa edição em capa dura, com ilustrações de Javier Zabala, foi lançado em 2010 pela Editora WMF Martins Fontes para comemorar os 50 anos da Livraria Martins Fontes e homenageia seu fundador, Waldir Martins Fontes, que sempre sonhou em publicá-la no Brasil.

Não é difícil entender por que esta obra-prima, escrita em 1914, cativa tanto aqueles que amam a literatura: os textos transbordam sensibilidade, externando a visão poética, humana e realista do escritor espanhol. Por meio do diálogo lírico com Platero, ele conduz o leitor até Moguer, sua pequena cidade natal a cerca de cem quilômetros de Sevilha, na Andaluzia, e mostra in loco a paisagem, a vida e o povo do lugar. Revisita locais da infância, evocando lembranças ora doces ora amargas, e constata as mudanças com melancólica aceitação. Tudo é dito de maneira singela, bonita, porém o conteúdo é profundo e, assim como enaltece a natureza, não esconde a indignação diante da miséria e da crueldade do homem.

“O livro é composto de imagens e prende a emoção do leitor o tempo todo”, define a tradutora Monica Stahel. “É muito ligado à terra, à aldeia do poeta. Passeando por Moguer com seu burrinho, Juan Ramón Jiménez percorre as ruas, as casas, sobe o morro e avista o cemitério, reavivando mitos, tradições e figuras lendárias. Fala também das transformações que começam a ocorrer no lugar, de quando surge a poluição, da derrubada de matas, das crianças pobres que morrem de doenças. Em meio às recordações nostálgicas, passa muito a ideia de solidão, de estar num mundo à parte. O burrinho ganha alma, e é com ele que o autor compartilha seus sentimentos.”

Traduzir a obra foi um desafio para Monica, que fez questão de ser absolutamente fiel ao texto original. “Tentei preservar ao máximo o clima criado pelo autor, mantendo suas construções e seu jeito de dizer as coisas. Jiménez faz muitas alusões a pássaros, peixes, árvores, o que exigiu uma pesquisa grande para descobrir os nomes corretos. Mantive inclusive algumas palavras em espanhol, que não existem no português. Se você inventa vocabulários e atualiza a linguagem, para facilitar a leitura, acaba deslocando a obra do contexto em que foi criada e perdendo sua essência poética. Querer destrinchar demais é até um desrespeito ao leitor. É preciso deixar que ele faça sua própria leitura e entenda como quiser”.

O que mais encanta no livro é a “grandiosa singeleza”, conforme ressalta a tradutora. “A gente se emociona com esses escritos tão singelos e ao mesmo tempo grandiosos, dizendo coisas importantes com tanta simplicidade. O poeta nos leva a percorrer sua aldeia sem ser minucioso demais nas descrições. Fala com poucas palavras, mas muita intensidade, de forma extremamente sensorial. Ele dá vida à paisagem e aos personagens. Você consegue sentir o sabor das frutas e o cheiro das plantas, enxergar as cores do amanhecer e do crepúsculo, ouvir o alarido das crianças e o toque dos sinos, o canto dos pássaros e dos grilos, e até se arrepiar com os rugidos da tempestade”.

Platero e eu é um livro de cabeceira, como diz Monica, para ser lido aos poucos, sem pressa e sem regras. É um poema em forma de prosa que inspira liberdade, desperta o desejo de conhecer aquele vilarejo distante e uma saudade imensa da natureza.

Benditos pássaros, sem feriado fixo! (…) Viajam sem dinheiro e sem malas; mudam de casa quando lhes dá vontade; adivinham um arroio, pressentem uma copa, e basta-lhes abrir as asas para conseguir a felicidade; não sabem de segundas-feiras nem de sábados; banham-se em todos os lugares, a todo momento; amam o amor sem nome, a amada universal. (Trecho do capítulo Pardais)

 

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes: 

http://www.revistaplatero.com.br/n5/resgate_literario.htm

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