O privilégio de ser (e ter) amigo

Todo dia eu volto da escola com a Ana Lúcia da esquina. Da esquina não é sobrenome, é o endereço da menina. O irmão dela é mais velho e mesmo assim é meu amigo. Sempre depois do almoço, ele joga bola comigo. Já o Carlos Alberto, do lado (do lado não é nome também), tem uma bicicleta legal, mas não empresta pra ninguém.

Assim começa Amigos do peito, poema que dá nome a um dos livros infantojuvenis de maior sucesso no País. Seu autor é Claudio Thebas – ou “Olímpio”, quando sobe ao palco como palhaço, atuando com o grupo Jogando no Quintal, ou animando cursos de treinamento corporativo. Amigos do peito fala do cotidiano de uma criança. De forma lúdica, demonstra o privilégio que é ter alguém para brincar, dividir o que acontece a cada dia e depositar nele toda a confiança de que se é capaz. O livro, que já rendeu espetáculo teatral, foi escrito em 1996 e está na sua 16ª edição. As palavras têm tamanha musicalidade que ganharam versão em CD, da qual participam nomes consagrados da MPB, como Zeca Baleiro, Rita Ribeiro e Chico César. “A obra reúne poesias de vários períodos da minha vida, algumas escritas aos 15 anos…”, conta Claudio. “Não fala de computador, mas sim da bola que cai na casa do vizinho, enfim, gira em torno da convivência, de como a amizade é importante na vida da gente.”

É importante – e faz bem. Pesquisas científicas revelam os benefícios das amizades tanto para a mente quanto para o corpo. Na Austrália, por exemplo, elas apontaram melhorias em pacientes com doenças cardiovasculares e pressão alta, além de efeitos positivos na autoestima, no humor e na duração da vida – quem tem amigos em geral vive 22% a mais do que aquele que vive só. Entre mulheres, a amizade ajuda a fortalecer a identidade, conclui o estudo da Universidade de Los Angeles, na Califórnia (EUA). Em entrevista para a Rádio CBN, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi enfática sobre o tema: “A amizade ajuda a lidar com os problemas da vida. Demonstrações de afeto acalmam o cérebro, tornando a pessoa menos ansiosa e mais receptiva.”

Ter amigos implica em ter alguém por perto para dar um abraço, um carinho. “É o sinal inequívoco de amizade que o indivíduo mais precisa”, reforça Suzana. O fundamental, para ela, não é ter amigos aos montes, mas sim relacionamentos de qualidade, amigos com os quais se pode contar seja qual for a hora e o motivo. Hoje, as redes sociais, cada vez mais presentes no cotidiano moderno, roubam a oportunidade do contato físico – em particular, entre os mais jovens. “Na adolescência, amizades são fundamentais. O cérebro do jovem está em construção, ele precisa viver as novidades ao lado de quem está experimentando a mesma situação”, alerta Suzana.

Talvez por influência dos pais e professores, a criança logo aprende a chamar de amigo o colega da escola ou do clube que frequenta. “Ela não tem em conta apenas aquele a quem quer bem e a quem tem consideração”, aponta a psicóloga Rosely Sayão, autora de Como educar meu filho?, entre outros livros, e colunista da Folha de S. Paulo. Sem saber distinguir a amizade de um contato qualquer, coloca em risco o relacionamento que pode valer para a vida inteira. “Fazer amigos é uma escolha… E os jovens precisam aprender que tal escolha traz compromissos de disponibilidade, dedicação, generosidade, tolerância e lealdade, entre outros”, ressalta.

Claudio Thebas leva à risca, desde pequeno, a receita de sucesso – essa, de se entregar de corpo e alma a quem se gosta e com quem se identifica: boa parte do que já fez, ele fez ao lado de dois “amigos do peito”, os músicos Carlos Ranoya e André Bedurê. “Somos realmente muito unidos”, orgulha-se. Aos 47 anos, esse paulistano, autor de sete livros, admite ter sido influenciado por várias leituras sobre amizade, a primeira delas aos 8 anos: “O livro Os colegas, de Lygia Bojunga, abriu o meu mundo! Lembro da parceria que existia entre a minha mãe e eu, ela lendo pra mim e eu profundamente interessado nessa história de bichos, de amizade e libertação”. Depois, vieram Bolsa amarela, também de Lygia Bojunga; Nós e Loló Barnabé, ambos de Eva Furnari. “Em minha opinião, só existem dois tipos de livro, o de adulto e o prá todo mundo”, diz Claudio, eliminando qualquer dúvida sobre o tipo de leitor a quem ele recomenda sua bibliografia sobre a expressão de sentimentos – a amizade, em especial.

Leitura amiga

Histórias de valor, de Katia Canton
Filipe – Um amigo não se esquece, de Hanne Turk
Você também sonha em ter um amigo?, de Erhard Dietl
O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett
O amigo do rei, de Ruth Rocha
Amigo é comigo, de Ana Maria Machado
De amor e amizade – Crônicas para jovens, de Clarice Lispector
Histórias de amizadeDisney
Terapia da amizade, de Kass Dotterweich

Matéria da Revista Platero n. 24 /outubro.

Revista Platero é produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes 

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