Tradução: uma arte que exige sensibilidade e intuição

 

Traduzir é acima de tudo um ato de humildade. É respeitar a vontade do autor como um testamento, transmitindo o seu pensamento da maneira mais exata possível. O tradutor deve imbuir-se do estado de espírito do artista no ato da criação. Conhecer-lhe a fundo a personalidade, a vida, a obra, sua época (…), estudar as personagens e os tipos humanos como um ator se prepara para a representação de uma peça teatral.

O comentário do tradutor William Agel de Mello, na apresentação da Obra poética completa – Federico García Lorca, define bem a complexidade desse ofício tão valioso para o universo literário. Para William Agel, a partir do princípio básico – aproximar-se o máximo possível do texto original -, a tradução admite uma série de gradações, inclusive a recriação, na qual se altera a linguagem, mas se conserva a integridade do sentido. O importante é preservar a qualidade, o espírito, a mensagem, e não desvirtuar o trabalho tentando corrigir erros e imperfeições.

“Um grande passo que foi dado no Brasil, nos últimos anos, é o uso maior de traduções diretas”, constata Boris Schnaiderman, que já traduziu mais de 25 livros do russo para o português, de autores comoMaiakóvskiDostoiévski e Tolstói. Exigente quanto ao próprio trabalho, ele cita a recente tradução de Khadji-Murát, de Tolstói, como um dos resultados que o deixaram satisfeito. “Não existe perfeição nesse campo. Existem grandes realizações, o que não significa ausência de defeitos. A possibilidade de criar um texto com base em outro já existente é o que me fascina e às vezes me atormenta”.

A seu ver, o tradutor é “um escritor que trabalha no campo da impossibilidade e do paradoxo”. Além de conhecimento, tem que ter muita sensibilidade em relação à língua com a qual está lidando e muita intuição, pois há peculiaridades quase impossíveis de transmitir em países com outra cultura e mentalidade. “A fidelidade semântica é essencial, mas está longe de ser tudo. A tradução tem que ter ritmo e fluência na língua de chegada e não pode perder o poético do texto. É preciso sentir a obra literária quando se lê uma tradução”.

Tradutor consagrado de Franz Kafka, um dos maiores clássicos da língua alemã, Modesto Carone afirma: “A boa tradução nunca é literal. Como dizia Mário de Andrade, ‘street jamais será rua’. Na verdade, a tradução não substitui o original. O que resta para o tradutor é encontrar as correspondências possíveis entre os dois idiomas, observando as características de estilo do autor traduzido. É um trabalho que revela as possibilidades de uma língua, ao verter o texto original e conseguir que ele frutifique em outro idioma. Para isso, é preciso conhecer bem os dois idiomas e o contexto literário da obra original, descobrir as correspondências necessárias e não fazer a ‘bela infiel’ – um texto bonito, mas que não reflete o espírito da obra. O que se traduz é o espírito da letra, não a letra”.

Mamede Mustafá Jarouche conquistou prestígio pelas traduções diretas do árabe, que ampliaram as possibilidades de acesso a essa rica literatura. Um de seus trabalhos mais famosos, o Livro das mil e uma noites, que já conta com três volumes, lhe valeu três prêmios – Jabuti, Paulo Rónai e APCA. Os desafios para transmitir o encanto desses textos seculares foram muitos: evitar os anacronismos, que poderiam suscitar interpretações errôneas; manter as metáforas, símiles e comparações do original, de modo a não quebrar o paralelismo do texto; e adaptar as estruturas gramaticais, entre outros.

“Creio que o fundamental, numa tradução, é casar a fidelidade ao original com um texto literário que seja equivalente na língua para a qual se traduz. Isso significa que nem sempre a linguagem da tradução tenha de ser vertida em algo belo do ponto de vista estético na língua de chegada”, considera Jarouche, cujas traduções se destacam pela vivacidade narrativa tão característica do imaginário árabe.

Essencial para a qualidade da tradução, segundo Paulo Werneck, é o amor do tradutor à língua. “Isso muda tudo: faz a gente perseguir as palavras, buscar equivalências, sonoridades, efeitos poéticos. Sem essa paixão pela linguagem o tradutor torna-se praticamente um digitador”. Com a tradução de Zazie no metrô, romance de Raymond Queneau, um grande erudito e ao mesmo tempo um brincalhão com a literatura e a linguagem, Werneck conquistou o segundo lugar no prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional.

“O desafio na tradução de livros como Zazie no metrô e Meu tio, de Jean-Claude Carrière, é encontrar no português do Brasil a mesma leveza e graça que os textos têm em francês. Os dois livros são muito enraizados na cultura francesa, falam do cotidiano de pessoas comuns em Paris, o que exige uma linguagem próxima do leitor, para passar a mesma sensação”. No seu entender, mais importante do que ser fiel é ser leal ao autor: “É preciso saber enxergar as marcas que o autor criou para dar a graça ao seu texto e saber identificar os equivalentes na nossa língua. Não deixa de ser um jogo”.

 

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero, publicação da Livraria Martins Fontes: http://www.revistaplatero.com.br/n7/platero3.asp

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