Mario Quintana: Em poucas palavras

Hoje é outro dia
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…

(O livro de haicaisMario Quintana)

Ao contrário do que se possa imaginar, os escritos de Mario Quintana não têm nada de ingênuos ou casuais. Quanta sensibilidade e perspicácia por trás de suas palavras simples e das imagens cotidianas que ele evoca em tom leve e descontraído nos poemas e prosa poética concisos, porém cheios de significado, de sentimento. Sua poesia é quase uma conversa com o leitor, um convite à intimidade, a partilhar de suas impressões sobre a vida e a morte, “milenar inquietação do mundo”.

Não é para menos que o poeta gaúcho nascido em Alegrete (1906-1994) seja aclamado não apenas como um dos mais brilhantes escritores brasileiros, mas também como um dos mais queridos, conforme constatam as inúmeras declarações em prosa e verso dedicadas a ele. A reedição de seus livros é contínua, assim como é crescente o número de fãs. Para os novos e atentos leitores, Quintana se revela uma descoberta deliciosa. Para os que o conhecem, uma releitura prazerosa e sempre surpreendente pela atualidade, pelas recônditas sutilezas e admirável liberdade de expressão. Poucos conseguem transitar tão à vontade por formas poéticas diversas, do soneto e da quadra rimada ao verso livre e ao poema em prosa.

Desde 2005, a Editora Globo publica sistematicamente a Coleção Mario Quintana. O acervo já conta com 20 títulos, entre eles 80 anos de poesiaA rua dos CataventosNova antologia poéticaPreparativos de viagemBaú de espantosCaderno HO aprendiz de feiticeiro; além de O livro de haicais – lançamento recente, com capa especial e ilustrações de Roberto Negreiros. A Global Editora também lançouMelhores poemas de Mario Quintana, seleção deFausto Cunha, além de bem-humoradas antologias infanto-juvenis, como Sapo amarelo e Lili inventa o mundo, em que “as coisas de todo dia ganham sentido, brilho, boniteza, uma beleza às vezes triste, mas sempre abrindo espaço para a esperança”. Destaque ainda para o volume de mais de mil páginas da Nova Aguilar, Mario Quintana: Poesia Completa, que reúne seus 15 livros publicados em vida, o póstumo Água e os cinco de poemas para crianças.

Sobre o encanto de sua poesia, ninguém melhor para tecer comentários do que os próprios poetas e romancistas. No ano do centenário de Mario Quintana, 2006, crônicas semanais eram publicadas em sua homenagem no jornal Zero Hora de Porto Alegre. Armindo Trevisanressaltou As mãos de meu pai, referindo-se ao poema como “obra-prima lírica que reúne elementos subjetivos, emotivos e simbólicos”: As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis / sobre um fundo de manchas já da cor da terra / – como são belas as tuas mãos / pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos. / Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama vida. / E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta, / uma luz parece vir de dentro delas. / (…) essa chama de vida – que transcende a própria vida… e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Moacyr Scliar citou o poema Canção de bar: Barzinho perdido / na noite fria. / Estrela e guia / Na escuridão / Que bem se fica! / Que bem! Que bem! / Tal como dentro / De uma apertada / Quentinha mão (…) “Uma visão tão insólita quanto comovente daquilo que pode representar um bar”. Cíntia Moscovich escolheu o poema Data e dedicatória: (…) Um poema é de sempre, Poeta: / O que tu fazes hoje é o mesmo poema / Que fizeste em menino, / E o mesmo que, / Depois que tu te fores, / Alguém lerá baixinho e comovidamente, / A vivê-lo de novo…, lembrando-se de seu exemplar do Caderno H, autografado 30 anos antes pelo autor.

Mais do que ler, Régis Bonvicino passou a ouvir a poesia de Quintana. “Lacônicos mas simples, seus poemas fluem pelos ouvidos”, disse, observando que Quintana era uma figura diferente. “Não transitava pelo leito vitorioso da poesia brasileira, parecia não pertencer àquele momento de seu tempo. Vivia no Sul, num quarto de hotel (…)”. Fabrício Carpinejar, em seu texto sobre o poeta, conclui: “Uma bobagem querer que a vida do escritor seja um livro aberto. Aberto deve ficar seu livro em cima da mesa e da história”.

Matéria da Revista Platero

http://www.revistaplatero.com.br/n4/resgate_literario.htm

Produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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