Ronaldo Correia de Brito – Narrativa de mestre

Em seu primeiro romance, Galiléia, que conquistou o público e a crítica de imediato, recebendo no mês de agosto último o Prêmio São Paulo de Literatura como melhor livro do ano de 2008, Ronaldo Correia de Brito consegue transportar o leitor até o cerne dos acontecimentos, numa antiga fazenda patriarcal no sertão do Ceará. Através da narrativa construída com maestria, desvelando personagem por personagem e entrelaçando fatos do passado e do presente, ele nos leva a acompanhar de perto os dramas que envolvem três gerações do clã. A sensação é de estar ali, em meio às revelações, remontando junto o quebra-cabeça capaz de elucidar misteriosos sucedidos.

Nascido no Ceará e residente em Recife, com várias obras publicadas, entre elas os contos Faca e Livro dos homens, e a infanto-juvenil O pavão misterioso, o escritor, médico e dramaturgo fala, com cativante franqueza e sensibilidade, de suas incursões no universo literário, em depoimento exclusivo para a Revista Platero:

“Nunca enxerguei nenhum glamour na profissão de escritor. Acho que é um trabalho árduo, bastante doloroso, com algumas recompensas. Sempre busquei não dar muita importância ao que chamam de sucesso. Da mesma forma, não relevar os fracassos. O exercício da medicina me ajudou a encontrar um ponto de equilíbrio em meio aos extremos. Quando me sinto infeliz, me consolo identificando nos pacientes do hospital onde trabalho dores maiores do que as minhas.

Eu não me considerava capaz de escrever um romance, pois tenho a respiração de um contista. Mas sofria por não conseguir aprofundar discussões que me interessavam, devido ao pequeno espaço que o conto me impunha. Alguns contos se estendiam bastante e já não eram contos, nem novela e nem romance. Eu ficava anos seguidos trabalhando neles, sempre cortando, diminuindo, até alcançar a tensão e a exatidão que eles me pediam. Com o perfil obsessivo da exatidão, um romance me parecia incogitável, porque nele cabe tudo e eu prefiro sempre o minimalismo.

No dia 12 de janeiro de 2000, sentei-me diante do computador e tracei um arcabouço do que viria a ser Galiléia. Sou ‘borgiano’ e se não encontro uma boa frase para o começo, o texto emperra. Depois de muito sofrimento, comecei a narrativa na primeira pessoa do plural – Soubemos notícias do avô Raimundo Caetano bem antes da travessia dos Inhamuns – e, já no parágrafo seguinte, assumo a primeira pessoa do singular, o que me dá fôlego para continuar narrando – Penso em voltar para o Recife, obedecendo a sentimentos de desgraça, receios que me invadem em todas as reuniões da família. Gosto de brincar com os verbos, despertar o leitor com os tropeços que as mudanças no seu tempo provocam.

Acredito que Galiléia está na contramão de uma literatura calcada nos dramas e na violência das periferias urbanas. Tratei de questões universais como as migrações, os choques culturais, os conflitos entre o arcaico e o globalizado, sem perder a perspectiva do Brasil. Tentei escrever um livro forte, que prendesse a atenção do leitor e desse vontade de ler.

Sempre li o que estava ao meu alcance. Não existia biblioteca na nossa casa, mas havia um livro de narrativas maravilhoso, a História Sagrada, que é uma seleta da Bíblia. Foi nele que aprendi a ler e continuei a lê-lo pelo resto da vida, por nenhuma razão religiosa. Li HomeroÉsquiloSófoclesEurípides eShakespeare, também muito cedo. Os livros chegavam às minhas mãos, me escolhiam. Li a obra de Machado de Assis e José de Alencar até os dezesseis anos. Nunca mais desejei voltar a eles, apenas aos contos de Machado. Leio sempre Borges e Whitman, desde os vinte anos. E bem mais cedo me tornei um leitor fervoroso de DostoiévskiTolstóiGógolTchékhov e Faulkner. E, claro, li RulfoGarcía MárquezCamus e tantos outros mais.

Num poema de Jorge Luis Borges pode-se ler os seguintes versos: Não haverá nunca uma porta. E mais adiante: Não existe. Nada esperes. Nem sequer no negro crepúsculo a fera. O poema se chama Labirinto. Durante todo o tempo em que escrevi Galiléia, me lembrei desses versos. É como se o romance terminasse assim, sem qualquer esperança. Mas trata-se de um livro de final aberto. Cada leitor inventa o final que deseja. Talvez isso explique o gosto pelo livro. Ou tudo se deve à generosidade dos leitores.”

 

Matéria da Revista Platero

http://www.revistaplatero.com.br/n3/palavra_autor.htm

Produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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