O leitor indica: Antonio Gonçalves Filho

Repórter especial do Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, com um invejável currículo no campo das artes e da cultura, o  jornalista e escritor Antonio Gonçalves Filho conta que seu gosto pela literatura foi despertado pelo cinema. “Minha família é muito simples, não tínhamos tradição de leitura em casa. Morávamos num bairro no cais do porto, em Santos. Mas eu ia muito aos cinemas de bairro, onde eram exibidos não apenas os grandes sucessos americanos, como também produções europeias e japonesas (de Akira Kurosawa,Nagisa Oshima e outros). Prestando atenção nos créditos, vi que esses filmes eram baseados em livros e, com isso, comecei a me interessar pela leitura. Foi o cinema que me indicou bons autores para ler”.

Sua ampla bagagem literária, cinematográfica, teatral e artística não foi adquirida na faculdade de Comunicações. Segundo ele, é uma formação autodidata, que se deve muito mais aos filmes, aos livros e ao convívio com intelectuais. “Santos era uma cidade muito agitada culturalmente. Nos anos 60, tinha o Clube de Cinema, criado pelo francês Maurice Legeard, que foi o primeiro do Brasil. Com 12, 13 anos, eu já frequentava esse meio cultural, participava muito de tudo isso”.

O interesse crescente pela literatura, sempre numa relação estreita com o cinema, motivou-o até a estudar alemão, francês e inglês para poder ler obras no original. “Os livros alertam para determinados aspectos da vida, mostram experiências essenciais do outro, o que possibilita uma reflexão de nossa própria existência. Você pode evitar um monte de erros se for um bom leitor. Não quero dizer com isso que a literatura tem uma função de auto-ajuda, mas acho que, de alguma forma, ela torna as pessoas mais humanas, menos brutas”.

Antonio Gonçalves Filho tem vários livros publicados, entre eles A palavra náufraga, um panorama do cinema europeu desde Fellini até Fassbinder;Primeira individual – 25 anos de crítica de arte, ensaios sobre a arte brasileira; Schubert, uma biografia do grande compositor; e Carlos Miele – Homenagem a Mario Cravo Neto, uma análise das mais recentes criações do estilista com fotos de Michel Comte e Mario Cravo Neto. Em meio a uma estante repleta, ele selecionou alguns títulos e autores para indicar aos leitores da Revista Platero:

Os moedeiros falsosAndré Gide. Foi o primeiro romance importante que li e me provocou um impacto grande. É uma obra autobiográfica bem interessante. Gostei tanto que me motivei a ler todos os livros do autor, entre os quais O imoralista (L’Immoraliste) e A sinfonia pastoral (La symphonie pastorale).

Hermann Hesse – adorei sua maneira de enfocar pessoas que estão à margem da sociedade e têm uma atitude antiburguesa perante a vida. Li todos os seus livros, entre os quais O lobo da estepeNarciso e Goldmund e O jogo das contas de vidro.

O estrangeiro e A quedaAlbert Camus. Camus foi muito importante na minha formação, sobretudo com esses dois livros. Seus personagens me perturbam por não terem uma relação concreta com o mundo; vagam sem fazer parte dele, com uma postura de distanciamento da vida.

A morte de Ivan IlitchTolstói. Imaginem o impacto de um garoto adolescente lendo a história de uma pessoa à beira da morte. Li e reli várias vezes.

O homem sem qualidadesRobert Musil. Foi minha porta de entrada para a literatura alemã e um desafio, devido à dificuldade de compreensão. Friedrich Hölderlin – todos os livros desse grande poeta alemão são geniais: A morte de EmpédoclesHinos tardiosPoemasHipérion ou o eremita da Grécia.

Cesare PaveseElio Vittorini e muitos outros realistas italianos me fascinaram. Sempre que possível, procuro ver filmes e ler livros italianos. Essa literatura é muito ligada ao cinema.

Grande Sertão: VeredasGuimarães Rosa. É difícil ler Guimarães Rosa sem orientação. Foi um desafio que valeu muito a pena, pois a obra é excelente.

Raduan Nassar – é meu autor contemporâneo brasileiro predileto: Um copo de cóleraLavoura arcaica. Destaco também Ronaldo Correia de Brito, que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura com Galiléia, uma quase metáfora do fim da cultura rural por meio da invasão urbana, e Bernardo Carvalho, comAberração, seu primeiro livro, de contos, e os romances Medo de Sade,Mongólia e O filho da mãe.

 

Matéria da Revista Platero

http://www.revistaplatero.com.br/n3/leitor_indica.htm

Produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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