O leitor indica – Comentários de Rodrigo Naves


“Leio muito por curiosidade, por prazer. Isso é o que mais me estimula no universo literário. É uma relação semelhante à que eu tenho com o universo da arte”, afirma o professor, escritor e crítico de arte Rodrigo Naves. Autor de A forma difícil – Ensaios sobre arte brasileiraO vento e o moinho – Ensaios sobre arte moderna e contemporâneaO filantropo – seu único livro de ficção, entre outros, ele conta que se desenvolveu profissionalmente de forma autodidata. O convívio com amigos e artistas, as visitas a museus e exposições em várias partes do mundo e o conhecimento adquirido através da leitura foram fatores essenciais para sua formação.

“Os livros foram decisivos na minha trajetória. Sobretudo porque o Brasil ainda tem um acervo de arte precário, o que dificulta o contato direto com as obras. Conhecer a visão de outros autores no campo da arte também é importante, porque possibilita atentar para aspectos às vezes despercebidos.”

A leitura, para ele, é um hábito frequente e até obrigatório. “Leio uns seis, sete livros por mês. Minha profissão é basicamente escrever e ler. Além dos livros específicos de arte, leio também gêneros como filosofia, sociologia e história, que permitem ampliar a compreensão do período a que uma obra, um artista ou uma vertente artística pertencem. Sem falar da literatura geral, que tem uma abrangência enorme. Os livros me dão experiência, me ajudam a ter parâmetros.”

Entre os títulos que passaram por sua estante, Rodrigo Naves indica alguns que foram mais significativos:

Lord JimJoseph Conrad. Conrad é um dos meus escritores preferidos. E acredito que Lord Jim sintetize boa parte das questões que o preocuparam – moral e tragédia, a busca de um comportamento justo e os reveses da ação -, com as quais me identifico muito.

Memórias póstumas de Brás CubasMachado de Assis. Cinismo e bom comportamento, a palavra exata com o andamento errado, a atenção do leitor mais a desatenção do narrador: ainda somos meio assim, e também por isso é tão triste a ironia de Machado de Assis.

A consciência de ZenoItalo Svevo. Trata-se de uma verdadeira comédia sobre os percalços da vontade na era moderna. A tentativa de parar de fumar ou a fortuna feita por acaso põem por água abaixo todas as presunções que assentavam sobre essa faculdade humana tão excessivamente valorizada.

Esperando GodotSamuel Beckett. Acho que até hoje esperamos por algo que não sabemos bem o que é. Beckett talvez tenha diminuído nossa ansiedade. Ou apenas nos ensinado a viver sem esperanças.

PoemasKonstantinos Kaváfis. Poucas vezes vi alguém que soubesse reunir de maneira tão tocante o lirismo de uma sexualidade difícil (o homossexualismo meio clandestino do poeta) e a grandeza trágica de um glorioso passado: a Grécia de seus antepassados. E a tradução de José Paulo Paes o recria em português brilhantemente.

Raízes do BrasilSérgio Buarque de Holanda. Talvez tenha sido o livro que mais me despertou o interesse para entender as peculiaridades do Brasil. O “horror às distâncias”, como o autor caracteriza nossa dificuldade de proceder segundo normas impessoais, é uma via de entrada riquíssima às mazelas e possibilidades do país.

Walter Gropius e a BauhausGiulio Carlo Argan. Argan foi o autor com quem mais aprendi sobre história e crítica de arte. O livro sobre Gropius está entre os primeiros dele que li. Foi como se eu tirasse escamas dos olhos: de repente, se abriram para mim possibilidades desconhecidas de associar trabalhos de arte e experiências de outras áreas.

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