Alice no País das Maravilhas


Quando um apressado coelho, vestindo colete e consultando seu relógio de bolso, passa correndo por Alice, ela não resiste e resolve segui-lo campo afora. Ardendo de curiosidade, a menina mergulha na toca atrás dele, caindo e caindo num poço sem fim, até acabar despencando num universo fantástico. Um reino povoado por bichos e flores falantes, cartas de baralho que trabalham para a prepotente rainha de copas, peças de xadrez com vida própria, Humpty Dumpty – um ovo que gosta de questionar tudo, entre tantos outros seres incomuns, pensantes, propondo novas lógicas e charadas e mostrando que tudo pode ter um sentido inverso, ononsense.

Têm início, assim, as aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do espelho, um mundo onde não existem regras e as situações e diálogos são imprevisíveis. Como nos sonhos, o tempo e o espaço são indefinidos e as formas assumem dimensões inusitadas. Poções mágicas fazem Alice encolher ou espichar para vencer os obstáculos e, através dessas transformações bruscas, ter percepções diferentes da realidade. Diante de tantos acontecimentos fora do normal, “esquisitíssimos”, mas “curiosíssimos”, a menina começa a achar que nada é realmente impossível e vai aprendendo a esperar pelo inesperado, fazendo conjecturas e descobrindo maneiras de lidar com as mudanças.

Ao buscar elementos e sequências que fogem ao senso comum, a história criada por Lewis Carroll (o inglês Charles Lurwidge, professor de matemática e estudioso de lógica) em meados do século 19 vai além do encantamento, levando a imaginação a voos mais altos. A narrativa acabou conquistando também o público adulto, tornando-se alvo de debates e reflexões filosóficas. Não à toa, inspirou uma infinidade de traduções, versões e adaptações no mundo todo.

No Brasil, há algo em torno de 30 edições traduzidas, o que impõe um desafio: identificar as que melhor preservam a concepção do autor, sem comprometer a riqueza e a magia do texto. Uma das adaptações consagradas é a de Monteiro Lobato, que conduz o leitor a esse passeio fantástico dentro de uma ambientação mais brasileira, priorizando elementos da cultura nacional. A deAna Maria Machado também traz inovações interessantes. Ao mesmo tempo que mantém os jogos de linguagem, os trocadilhos e a falta de cerimônia em brincar com as palavras, substitui algumas referências, poemas e cantigas por equivalentes do folclore brasileiro, buscando maior aproximação com o leitor contemporâneo.

É bom lembrar que o clássico original contém piadas e referências típicas da cultura inglesa e do período em que foi idealizado, daí a importância de trazê-las para o contexto atual, sem interferir na essência da narrativa. O autor e cartunista Tony Ross, em suas edições de As aventuras de Alice no País das Maravilhas e Do outro lado do espelho, condensou o texto cortando palavras, mas resguardando o conteúdo e enriquecendo a edição com ilustrações divertidas e supercoloridas.

Entre várias outras adaptações, vale destacar ainda o excelente trabalho deJorge Furtado e Liziane Kugland, que evitaram tanto a intelectualização quanto a redução da obra, apenas atualizando formas de expressão, ao partir do princípio que “uma piada só tem graça se você a entende; de preferência, sem que ninguém te explique”. Finalmente, duas menções obrigatórias: a esmerada tradução de Maria Luiza Borges em Alice: edição comentada, que traz as famosas ilustrações de John Teniel, e a de Sebastião Uchoa Leite emAventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá, considerada por literatos como brilhante, fiel e criadora.

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