Alexandre Dumas e O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas consagrou-se como mestre da narrativa, não pelos críticos, mas pelo próprio público. Seus romances grandiosos ultrapassaram fronteiras, séculos, conquistaram legiões de fãs no mundo inteiro. Há mais de 150 anos, milhares e milhares de leitores são arrebatados pelas saborosas aventuras engendradas com argúcia, apaixonando-se e torcendo pelos heróis, abominando os vilões e suas traições, compactuando e se regozijando com a merecida vingança. Dumas consegue mexer com o íntimo do leitor, puxando sentimentos profundos, como a indignação diante da injustiça e da deslealdade e a admiração pela coragem e ousadia dos protagonistas.

A edição definitiva, anotada e ilustrada de uma de suas obras-primas, O Conde de Monte Cristo, lançada pela Jorge Zahar em dois volumes, permite reviver essa experiência de forma ainda mais rica e prazerosa. Com tradução, apresentação e comentários de André Telles e Rodrigo Lacerda, a nova versão traz informações e considerações interessantes e elucidativas a respeito do trabalho e da vida do autor, assim como do desenrolar dessa trama tão empolgante. Preserva a integridade do original, com ajustes de gramática e de contradições que prejudicavam a fluência, incluindo notas de rodapé sobre as alterações e as referências feitas a pessoas, lugares e acontecimentos históricos.

Para quem não se lembra do enredo, o conde de Monte Cristo é Edmond Dantès, um jovem e audacioso marinheiro que, vítima do ciúme e da inveja de amigos, é envolvido em uma ardilosa intriga política e preso sob falsa acusação. Trancafiado durante vários anos no isolado Castelo d’If, ele consegue encontrar forças na amizade de outro preso, o abade Faria. A partir daí, os episódios se desencadeiam num ritmo vertiginoso de emoção e suspense, capturando de modo definitivo a sensibilidade e a cumplicidade do leitor. Uma fuga fenomenal, um tesouro escondido e um engenhoso plano de vingança são peças-chave dessa história fabulosa, em que o mais instigante, conforme ressalta Rodrigo Lacerda na apresentação do livro, não é a pergunta “Será que Dantès vai conseguir?”, mas sobretudo “Como será que ele vai conseguir?”.

Lacerda observa que a narrativa faz um retrato bastante fiel da França nos primórdios da democracia. E endossa a opinião de Gilbert Sigaux, que assina a edição francesa da Pléiade: “O que é verdadeiro em Monte Cristo não é o tesouro do abade Faria, não são os disfarces e as maquinações de Dantès; é a descrição da sociedade… Dumas será lido sucessivamente como um romancista ‘puro’, cuja função é entreter, e depois como um escritor que reflete e desenvolve os temas que obcecavam a consciência de seus leitores. Ele aponta, como Balzac, a força que oprime a sociedade, o poder que a domina: o dinheiro”.

Antecipando-se às dúvidas que pudessem surgir sobre seus reais intuitos, o autor das famosas aventuras de Os três mosqueteiros deixou uma declaração de próprio punho. “Em literatura, não admito sistema, não sigo escola, não desfraldo bandeiras: entreter e magnetizar, estas são minhas únicas regras.”

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