Qual é sua princesa favorita?

Engana-se quem imagina que as princesas, para merecerem o título, precisam necessariamente cumprir o estereótipo da mocinha sempre impecável e obediente. Ao menos no universo da literatura, o retrato não precisa ser tão restritivo. É o que garante a escritora Heloisa Prieto, autora de vários livros infantojuvenis, entre eles A princesa que não queria aprender a ler. Inspirado num dos contos de fadas que ela mais amava na infância, tem como protagonista Rosa, uma princesa hiperativa que não se interessava pelos ensinamentos do professor. Até que surge um momento no qual a leitura vira uma necessidade de vida ou morte…

“Princesas podem simbolizar a beleza, a sorte, a bondade, uma vida de riqueza, cuidados, e, quem sabe, um casamento com um príncipe”, observa Heloisa. “Particularmente, quando garota, eu não sonhava com isso, preferindo a liberdade de brincar. Daí minha identificação com uma princesa moleque e rebelde”. No rol de suas preferidas, estão a princesa Walquíria, guerreira que luta e cavalga durante as aventuras; Morgana, a princesa maga da corte do rei Arthur, “uma figura muito polêmica e rica”; e Etaine, originária de um mito celta, jovem transgressora que se apaixona por um elfo, Midhir. Na opinião da autora, a figura da princesa é sinônimo de generosidade de espírito e não está relacionada a riquezas ou beleza concretas. “Manter-se corajosa, idealista, saber sobreviver aos perigos são qualidades inatas de toda princesa, algo a ser cultivado sempre, não importa a idade.”

Presentes principalmente nas sagas, narrativas de famílias lendárias e nos contos de fadas, as princesas habitam o imaginário e a mitologia há muitos séculos. Princesas esplêndidas são encontradas na obra O senhor dos anéis, de Tolkien, um dos maiores narradores de todos os tempos. Para Heloisa Prieto, princesas são figuras de sonho, e a maneira como imaginamos a beleza, a sorte ou a felicidade diz muito sobre uma cultura particular. “Além disso, ao longo da vida, a identificação com personagens fantásticos pode variar conforme a sensibilidade e o momento pessoal de cada um. A cada escolha, um pedaço do leitor se revela por meio de seu sonho infantil”. Será que hoje, depois de ter passado por momentos históricos como o feminismo e a luta pelos direitos civis, a figura da princesa permanece a mesma? “Pessoalmente, vejo uma figura de ficção como a aventureira Lara Croft vestindo o traje de princesa contemporânea”, afirma a escritora.

A importância da diversidade

Embora concorde que a imagem das princesas varie com o tempo e a sociedade, Heloisa Pires Lima, estudiosa da cultura africana e autora de livros voltados ao público infantojuvenil como Histórias da Preta e A semente que veio da África, acredita que a representação dessa personagem nem sempre abrange essa diversidade. “No Brasil, prevalecem as princesas de origem europeia, que circulam durante a infância nos livros, brinquedos e filmes. Se toda menina é uma princesa, aquelas que constroem sua identidade numa origem africana podem se deliciar no modelo tanto quanto uma menina chinesa, que pode brincar e gostar de ser uma princesa africana. Quanto maior a diversidade para a ideia de princesa, melhor a noção de igualdade e o prazer em conhecer a diferença”.

Atenta à presença da origem africana nesse acervo, a escritora apresentou algumas princesas explorando repertórios culturais diversos. Para o livro O espelho dourado, encontrou inspiração nas sociedades achantis do noroeste daquele continente, e nesse cenário surge a princesa Nyame, divindade cujo corpo de fogo provocou o nascimento do universo. Organizado por ela, o livro Lendas da África Moderna, de Rosa Maria Tavares Andrade, traz a lenda O brinco da princesa, que remete ao antigo reino de Gana, onde o brinco de uma princesa tem poderes extraordinários.

Para Heloisa, hoje as versões das princesas podem não permanecer as mesmas, desconstruir o padrão fora de moda e até dispensar o príncipe para ser feliz. No entanto, a audiência do recente episódio do casamento do príncipe William demonstra o quanto o ícone faz sentido para os contemporâneos. Diante disso, bom mesmo é poder descobrir em qual tipo de princesa você se reconhece, e viver feliz para sempre!

Leia mais

Princesas – Esquecidas ou desconhecidas, de Philippe Lechermeier
Até as princesas soltam pum, de Ilan Brenman
A princesa que salvava príncipes, de Cláudia Souza
Omo-Oba – Histórias de princesas, de Kiusam de Oliveira
O livro das cartas encantadas – A correspondência secreta das princesas, de Índigo
18 histórias de princesas e fadas, da Ciranda Cultural
Cada sapo com seu papo, cada princesa com sua sutileza, de Fátima Miguez
Coleção Princesas da Disney
Coleção Diário da Princesa, de Meg Cabot
Coleção Clube da Tiara, de Vivian French

 

Matéria da seção Espaço Jovem da Revista Platero nº 23 / setembro 2011 www.revistaplatero.com.br 

A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

Deixe um comentário

Arquivado em Revista Platero

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s