Marçal Aquino: “Literatura é a coisa pela qual espero ter de responder na vida”

Na quadra seguinte, ela atravessou a rua e sumiu no meio da gente que andava pelo centro. Colorida em meio ao cinzento que predominava ao redor. Olhei para o rosto no porta-retrato: tinha uma luz particular, só dela, e um ar de quem poderia ser o que quisesse na vida.
(trecho do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios)

Autor de romances, contos, livros juvenis, roteiros para cinema e para a televisão,Marçal Aquino afirma que é um escritor, antes de qualquer coisa. “Gosto de escrever roteiros, tenho muito prazer com o grande desafio que é criar em outro reino, no caso, o da linguagem audiovisual. Mas minha casa é a literatura, é onde eu de fato me sinto feliz. Costumo brincar dizendo que, no Juízo Final, gostaria de estar na fila dos escritores. Ou seja, literatura é a coisa pela qual eu espero ter de responder na vida”.

Ele começou a escrever lá pelos 15 anos, e percebeu que era o que realmente lhe dava prazer. “Mas sabia também que escritor não era – e não é – profissão, e tive de arranjar algo para fazer profissionalmente. Fui assim, de maneira muito natural, conduzido para o jornalismo”. Atuou como revisor, repórter e redator nos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, além de free-lancer em várias publicações. “O trabalho como repórter foi fundamental para contaminar a minha literatura. Tudo sempre esteve bem resolvido na minha vida, nunca houve conflito entre a literatura e o jornalismo. Conheço vários escritores que consideram a prática do jornalismo esterilizadora da literatura. Mas me permito discordar, ao menos com meu exemplo pessoal. Aquela frase maravilhosa doHemingway diz muito: O jornalismo é uma excelente profissão desde que abandonada a tempo.”

Apesar de passar horas e horas escrevendo, Marçal ressalta que não tem um método: “Escrevo ‘no escuro’, sempre, sem saber para onde vão tramas, histórias, personagens. Uso a imaginação, sobretudo, para ir atrás – mas tem também a carga das observações e vivências. É o momento de maior liberdade para qualquer escritor e, para mim, ela tem um quê de se perder dentro da história. Linguagem nem é a minha maior preocupação. O que interessa é contar as histórias que me ocorrem”.

O resultado dessa sua “falta de método” são livros marcantes, entre os quais O invasor, que deu origem ao filme homônimo; O amor e outros objetos pontiagudos, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti 2000; As fomes de setembro, que lhe valeu o Prêmio V Bienal Nestlé de Literatura na categoria Conto (1991);Miss Danúbio, premiado no Concurso de Contos do Paraná; e Eu receberia as piores notícias dos seu lindos lábios, que está sendo adaptado para o cinema por Beto Brant. Ele é autor também dos juvenis O mistério da cidade-fantasmaO jogo do camaleãoO primeiro amor e outros perigosA turma da Rua Quinze e Coleção Sete faces, além dos roteiros para a TV Globo do seriado Força-Tarefa, junto com Fernando Bonassi, que está indo para a terceira temporada.

Com textos realistas – “o real está sempre rondando, mas um real filtrado pela imaginação e pela linguagem” -, Marçal tem uma maneira peculiar de produzir: “Escrevo sempre à mão, em cadernos. Só depois passo para o computador. Em geral, dedico o maior número de horas possível ao livro que estou escrevendo. Parto de alguma coisa que não sei bem o que é, um ruído do mundo, às vezes. E daí vou escrevendo e descobrindo à medida que escrevo”.

Para ele, ler é essencial. “Acredito que o que me tornou escritor foi a soma de autores que li e gostei durante a vida. É um processo que, felizmente, se realimenta até hoje. Tem muita gente da qual sou tributário e devedor. Só encontrei voz ouvindo essas vozes. Acredito que um escritor se forma lendo, não existe outro caminho. Leio de tudo, sem preconceito. Só não leio se acho o livro ruim ou mal escrito, mas não por ser deste ou daquele gênero. Por exemplo, embora seja só prosador, leio poesia, muita poesia. Tem aqueles poetas que leio a vida inteira, nunca termina: DrummondBandeiraMurilo Mendes e Jorge de Lima. E tem prosadores como Juan Carlos Onetti e oAntonio Di Benedetto, dos quais estou amando ler a obra completa. São mestres. Isso sem falar de releituras constantes, caso do James Salter e doTchekhov” .

Matéria da seção Palavra do Autor da Revista Platero nº 23 / setembro 2011 www.revistaplatero.com.br 

A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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