Mil e uma curiosidades da língua portuguesa

A expressão tirar o chapéu não é novidade na língua portuguesa. Ela aportou no Brasil no século 17, trazida pelos portugueses, difundindo o manual de etiqueta do rei Luís XIV da França, que indicava que o chapéu só deveria ser tirado em ocasiões especiais. Como nem tudo são flores, ter sido lírio do campo e tornar-se tiririca do brejosignifica que já não se sustenta a condição social ou posição de destaque de antes. E qual a diferença entre nostalgia e saudade? Ambos os termos refletem sentimento similar, mas enquanto saudade remete à solidão de quem ficou, nostalgia refere-se aos sentimentos de quem partiu…

“As palavras, muitas vezes, encerram em si muito mais do que o uso rotineiro que fazemos delas”, observa o professor Jean Lauand na apresentação do livroPalavras e origens, de Gabriel Perissé. “Se nós, hoje, valemo-nos da linguagem de modo meramente funcional e opaco, para os antigos a transparência da linguagem (na medida do possível) possui um grande valor pedagógico”. Ir às origens de uma língua, portanto, não é tarefa reservada apenas para quem a utiliza como instrumento de pesquisa ou trabalho, mas a quem deseja conhecer melhor o seu passado, a si mesmo e o mundo ao seu redor.

Que língua você fala? “Dialeto caipira, gírias das gangues urbanas, das cadeias, gírias profissionais, os bordões dos comunicadores, do teatro, do futebol”, sugere o professor e pesquisador João Gomes da Silveira, autor doDicionário de expressões populares da Língua Portuguesa – um “expressionário”, como classifica, com mais de 20 mil locuções elaboradas a partir de sua “mania” de juntar expressões: “Achei-as no Drummond, noVinícius, no Manoel de Barros…”

A literatura abasteceu também o Dicionário do palavrão e termos afins, do folclorista Mário Souto Maior. Depois de percorrer várias regiões do país, entrevistar diversas fontes e ler mais de 200 romances, o autor elegeu Jorge Amado um dos escritores brasileiros que mais usou palavrões em sua produção. José Lins do RegoGilberto Freyre e Oswald de Andrade, por sua vez, figuram entre os intelectuais que eventualmente tornaram legítimo o aproveitamento literário dos palavrões.

“Os nossos ‘modernistas regionalistas’ deram uma grande contribuição aos falares do povo: José Américo de AlmeidaJorge AmadoJosé Lins do Rego,Graciliano RamosRachel de Queiroz, no Nordeste; e também outros escritores, de outras regiões, como, Erico Verissimo e João Simões Lopes Neto, no Sul do país. Monteiro Lobato, em um ótimo português, era useiro e vezeiro das expressões idiomáticas”, aponta João Gomes. Sem esquecer a importância dos meios de comunicação na difusão idiomática. “A gente vê, com clareza, as pessoas utilizando-se de tais expressões nas mídias sociais. Com a corda solta, eu as uso no Facebook, no Orkut, no Twitter, nos e-mails. E, apesar dos perigos que ela traz, viva a internet! E viva o uso adequado das nossas expressões populares!”

De onde vem?

Nerd: Personagem alto, magro e vesgo do livro If I ran the zoo (Se eu dirigisse o zoológico), lançado em 1950, que passou a ser aplicada a jovens que tinham essas características. O termo tornou-se popular em 1984 com o filme A vingança dos nerds.

Gorjeta: vem do francês Gorge, garganta, e deriva do hábito de se gratificar quem prestou o serviço de “molhar a garganta”.

Propina: sinônimo de “gorjeta”, esse termo vem do latim pós-Império Romano, queria dizer taverna, lugar onde se conjugava o verbo Propinare – dar de beber. Sua semântica na América espanhola é de uma inocente “gratificação”. No Brasil, é suborno.

Rock´n´roll: batizado em 1953 pelo americano Alan Freed que, por sua vez, se inspirou na letra de um antigo blues que dizia: “my baby she rocks me with steady roll” (minha garota me embala num ritmo constante).

Grunge: referência ao som da palavra garage, que diz respeito às bandas de garagem, especialmente de Seattle, que ganharam fama internacional e explodiram o novo ritmo musical para o mundo.

Pagar mico: É possível que a expressão tenha origem no jogo de cartões para crianças chamado ‘mico-preto’, ou simplesmente ‘mico’. Quem perde a partida é o jogador que no final fica com um cartão nas mãos, tem de pagar o mico.

Otário: indivíduo que pode ser enganado com facilidade. A palavra foi importada da linguagem dos malandros de Buenos Aires, que tiraram o termo de ‘otária’ (leão-marinho) por causa do jeitão meio abobalhado do animal.

Songamonga: A origem é do espanhol falado nas Américas: songa quer dizer ‘zombaria, gozação’ e monga foi criada apenas para rimar com songa.

Leia mais

A origem curiosa das palavras e A origem das palavras para crianças e jovens curiosos, de Marcio Bueno
O pai dos burros – Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, deHumberto Werneck
Conversando é que a gente se entende, de Nélson Cunha Mello
Guia dos Curiosos Língua Portuguesa, de Marcelo Duarte
A casa da mãe Joana, de Reinaldo Pimenta
Por trás das palavras – Manual de etimologia do português, de Mário Eduardo Viaro
O pulo do gato, de Marcio Cotrim

Matéria da seção Espaço Jovem da Revista Platero nº 22 / agosto www.revistaplatero.com.br.

A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

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1 comentário

Arquivado em Revista Platero

Uma resposta para “Mil e uma curiosidades da língua portuguesa

  1. GOSTARIA MESMO É DE SABER A ORIGEM DA PALAVRA NEGRA(NEGA) NO JOGO DE SINUCA, ALGUEM SABE ??

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