Do medo à fobia



Aquele que não conhece o medo não é corajoso.

Corajoso é aquele que conhece o medo e o domina.

(Khalil Gibran, poeta libanês)

Quem nunca sentiu medo na vida? Aquela sensação de desconforto, o coração bate mais forte, o tórax torna-se mais rijo, a boca seca, muito suor, vontade de ir ao banheiro… “O medo é o sintoma central da ansiedade, podendo se manifestar como pavor ou apenas apreensão”, afirma o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, docente do curso Aprimoramento em Terapia Comportamental Cognitiva em Saúde Mental do Programa de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Segundo ele, é normal sentir ansiedade até o ponto de ela não interferir negativamente na vida. “A ansiedade normal protege o ser humano. Um exemplo clássico é o medo de sermos atropelados que nos faz olhar para os lados antes de atravessar a rua. Quando se torna exagerado ou irracional, o medo passa a se caracterizar fobia”.

Há vários transtornos característicos do excesso de ansiedade, entre os quais o de pânico, o de ansiedade generalizada, o obsessivo-compulsivo, o de estresse pós-traumático, a agorafobia e a fobia social, em que o elemento mais comum é o medo de ficar embaraçado ou visivelmente ansioso quando observado. O temor maior é o da avaliação negativa por parte das outras pessoas. “Ainda não se conhecem exatamente as causas desses transtornos”, ressalta Barros Neto. “No entanto, sabe-se que alguns podem ter influência genética maior que os outros. É o caso da fobia de sangue, injeção e ferimentos, em que ocorre uma queda de pressão, o coração vai batendo cada vez mais devagar, chegando inclusive a parar por alguns segundos – em 70% dos casos o transtorno ocorre em um ou mais parentes de primeiro grau”.

O psiquiatra ressalta que, em um nível menor, a genética também pode influir na eclosão do transtorno do pânico e na fobia social, que tem como um dos sintomas mais típicos o rubor facial. “Fatores ambientais, sobretudo a atitude dos pais em relação aos filhos, podem ter importância na gênese dos transtornos de ansiedade. É bom alertar os pais, desde o começo da educação, para que não sejam críticos, duros, nem valorizem a opinião alheia em excesso”.

O tratamento depende de cada tipo de transtorno. “De modo geral, medicamentos podem ser úteis no caso de transtorno de pânico, de estresse pós-traumático e fobia social, mas têm pouca serventia na maioria das fobias específicas: de altura, de voo, de lugar fechado”, diz Barros Neto. “Aí entram as técnicas de terapia comportamental: o tratamento de base é a exposição, o enfrentamento gradual e sistemático das situações que a pessoa teme. Se tem medo de altura, por exemplo, ela deve começar a se expor num prédio nos primeiros andares, depois vai galgando andares mais altos que desencadeiem um pouco mais de ansiedade, e assim até ela se ver livre do problema”.

Ele comenta que, na maioria das vezes, a pessoa consegue ela mesma fazer o necessário para se livrar da fobia. Em alguns casos, ela precisa da ajuda de um acompanhante terapêutico, que faz a chamada exposição assistida, ou do próprio profissional responsável pelo tratamento. “Tive recentemente o caso de um rapaz que sofria de fobia de altura, evitava reuniões em prédios altos e viajar de avião. Ele mesmo, sozinho, resolveu subir gradativamente os andares dos prédios, chegando até o alto do Terraço Itália. Fez também exposição na imaginação com imagens de voos e decolagens do You Tube – o que lhe dava paúra era o avião se distanciando do solo. Depois, ele fez uma seção de exposição assistida comigo num voo. Viajamos para uma cidade não muito longe de São Paulo. Então, o rapaz ficou encorajado e conseguiu viajar sozinho para o exterior”.

Autor de Sem medo de ter medo – Um guia prático para ajudar pessoas com pânico, fobias, obsessões, compulsões e stress, Tito Paes de Barros Neto acredita que a leitura, sobretudo de livros de autoajuda, pode auxiliar a enfrentar os transtornos. “No meu livro, por exemplo, ensino como tratar o pânico sem usar remédios, através de alguns exercícios que provocam os sintomas e ajudam a lidar com eles. Outros livros que podem ser úteis: Medos, dúvidas e manias, de Roseli Gedanki Shavitt, Albina Rodrigues Torres e Eurípedes Constantino Miguel, que aborda o transtorno obsessivo-compulsivo para o público leigo, e Morrendo de vergonha, de Cheryl N. Carmin e Bárbara G. Markway, que trata da fobia social”.

Sem medo de ler

Psicologia do medo – Como lidar com temores, fobias, angústias e pânicos, de Christophe André
Ansiedade, fobias e síndrome do pânico – Esclarecendo suas dúvidas, de Elaine Sheehan
Mentes com medo – Da compreensão à superação, de Ana Beatriz Barbosa Silva
Fobia, de Ivan Ward
Paúra – 20 coisas que você morre de medo e como encarar todas elas, de Sergio Franco
Quando o medo vira doença, de Roberto Lorenzini e Sandra Sassaroli
É possível vencer o medo?, de Valério Albisetti
Você tem medo de quê? – Fobias modernas, de Tim Lihoreau
Pânico, fobias e obsessões, de Valentim Gentil Filho e Francisco Lotufo-Neto
Vencendo o medo – Um livro para pessoas com distúrbios de ansiedade, pânico e fobias, de Jerilyn Ross

 

Matéria da seção Revelações Curiosas da Revista Platero nº 22/agosto  www.revistaplatero.com.br.A Revista Platero é  produzida pela ML Jornalismo para a Livraria Martins Fontes

 

1 comentário

Arquivado em Revista Platero

Uma resposta para “Do medo à fobia

  1. muito informativo, não sabia que existiam casos em que os sintomas de ansiedade chegassem tão longe a ponto de parar o coração! gostaria de apontar que o fato dos pais terem sintomas fóbicos pode ser o indicativo que podem ter sido até em certo grau “aprendidos”

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