O leitor indica – Comentários de Marcelo Coelho


“Quanto mais palavras e formas de organizá-las uma pessoa tiver à sua disposição, mais rico é o seu mundo”, define Marcelo Coelho, lembrando uma ideia do filósofo Ludwig Wittgenstein. Considerado um dos maiores ensaístas brasileiros da atualidade, Marcelo tem uma escrita virtuosa em termos de sintaxe e de vocabulário, com certa facilidade retórica. “Certamente, o estilo ‘enxuto’ não é comigo!”

Formado em ciências sociais pela USP, após um período atuando como professor universitário ele passou a se dedicar ao jornalismo. Começou na Folha de S. Paulo como editorialista. Hoje escreve também para o caderno Ilustrada e, sob o pseudônimo de Voltaire de Souza, colabora diariamente no jornal Agora São Paulo. O escritor criou um tipo particular de crônica, mesclando o ensaio acadêmico, o resenhismo dos cadernos culturais e os comentários do cotidiano, como se vê em muitos artigos seus: (…) O fato é que algumas pessoas costumam falar mal umas das outras, mesmo quando não necessitam de informação, de ajuda, de conselho ou de aspirina. Escrever, para mim, origina-se desse mesmo impulso. Com duas diferenças, ambas determinadas, aliás, pelo meio que se emprega. Em primeiro lugar, a comunicação escrita dura mais do que uma fala casual. Em segundo lugar, o interlocutor está ausente. De modo que se em certas circunstâncias prefiro escrever a falar, é porque imagino que: um, minha mensagem interessa a um maior número diário de relações; e dois, o que estou dizendo não é para ser esquecido logo depois de ter sido pronunciado.

O jornalista conta que sempre gostou muito de ler. “Como inúmeras pessoas da minha geração no Brasil, comecei com o Pato Donald e Monteiro Lobato. Meus pais tinham muitos livros em casa, principalmente em francês e, quando fiquei maior, fui explorando o que tinha à mão”. Esse gosto levou-o ao caminho da literatura. Seu primeiro livro, Noturno (1992), é uma mistura de memória e ficção, escrito numa prosa poética. Em Jantando com Melvin (1998), tudo se passa durante um jantar. É bem diferente, mais sarcástico, preso a um esquema narrativo, com uma profunda crítica social. Patópolis (2010) é um projeto antigo, também entre memória e ficção, “em que recupero as experiências mentais e emocionais de um pequeno leitor de histórias em quadrinhos nos anos 1970”. São de sua autoria também as obras infantis A professora de desenho e Minhas férias; as coletâneas de artigos publicados na Folha de S. Paulo Gosto se discute e Trivial variado; e Folha explica: Montaigne, uma introdução à obra do pensador francês.

Para os leitores da Revista Platero, Marcelo Coelho preferiu indicar alguns livros “que se parecem com o que escrevo, ou nos quais me inspiro”:

A Adalgisa, de Carlo Emilio Gadda, é um clássico da moderna literatura italiana, feito de uma efusão enorme com a vida das pessoas comuns, só que cercada de grande aparato erudito e digressivo, que torna tudo mais divertido e fantástico.

Viagem à Terra das Moscas, de Aldo Buzzi, mantém-se nessa mesma tradição, de forma mais despretensiosa; o estilo é uma pura associação de ideias, com uma leveza imensa. Traz a sensação de que, afinal, todo mundo é livre para escrever o que bem entender.

Pinóquio: Um livro paralelo, de Giorgio Manganelli, é uma investigação genial e muito engraçada sobre as entrelinhas do clássico infantil, e seria aquilo a que Patópolis aspirou ser.

Os ensaios, de Montaigne, é outra aula de liberdade de pensamento e de escrita, tão viva hoje quanto há 500 anos.

Nessa linha da literatura do “eu”, seria necessário citar The Prelude, autobiografia em versos de William Wordsworth, certamente uma inspiração importante para Em busca do tempo perdido, de Proust, um romance de reflexões e descobertas. Suas teorias sobre o que é a vida, a beleza, o pensar, o escrever vão se espalhando ao longo da obra, na medida em que acontecem todos os tipos de reviravoltas, emoções, traições. Recomendo ler de cabo a rabo, porque os últimos volumes estão cheios de surpresas a respeito do que acontecia nos primeiros.

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero nº 19/maio, publicação da Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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