O mundo conectado pelas redes sociais

 

Jornalista uruguaio, crítico à lei de anistia para repressores da ditadura militar, é intimidado por grupo no Facebook. Protesto convocado na internet reivindica maior abertura democrática no Marrocos. Lei de imprensa aprovada pelo governo húngaro provoca manifestação organizada através do Facebook. As manchetes jornalísticas publicadas desde o início do ano revelam uma curiosa tendência: a massiva presença das redes sociais no noticiário. Houve quem atribuísse, por exemplo, a queda do regime de 30 anos do ditador Mubarak, no Egito, às convocações via rede social. Um líder opositor veterano declarou: “Os jovens fizeram em seis dias o que tentávamos fazer havia 30 anos”.

O fenômeno aponta para uma revolução na forma como as pessoas se relacionam hoje. Que tipo de transformações isso pode acarretar no cotidiano? “Esta é uma geração que aprendeu a se socializar através das redes sociais”, aponta Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do programa de dependentes de internet do Instituto de Psiquiatria da USP, autor de vários livros, entre eles, Teoria do apego. Além de conectar as pessoas às notícias e a qualquer tipo de informação, essas plataformas favorecem a organização de eventos, troca de fofocas entre amigos, expressão e compartilhamento de ideias, aproximação de colegas que não têm oportunidade de se encontrar pessoalmente. O intuito é que, além de voltar à rede, os usuários permaneçam conectados o maior tempo possível, por meio da oferta do que eles mais gostam de fazer. Tanto é que a lista de possibilidades de uso da rede é cada vez mais abrangente. “Houve uma mudança de hábitos sensível desde a geração anterior”, assinala Cristiano Nabuco.

Só o Facebook – plataforma desenvolvida em Harvard pelo estudante Mark Zuckerberg, experiência retratada no livro Bilionários por acaso, que deu origem ao filme e ao livro A rede social – aumentou em 479% o número de usuários no ano passado no Brasil. Os brasileiros gastam cerca de 20% do seu tempo online nas redes sociais. Para se ter uma ideia, o Facebook iniciou 2011 com mais de 500 milhões de usuários ativos no planeta. Uma pesquisa da consultoria Forrester Research revela que os norte-americanos já passam mais tempo conectados à internet do que em frente à televisão. O livro O efeito Facebook, de David Kirkpatrick, examina os efeitos dessa nova influência na vida das pessoas.

Uma matéria recentemente publicada pela revista Newsweek mostra inclusive um novo mercado, norteado pelo apelo das mídias sociais, em que faculdades, empresários e editores estão interessados em desenvolver softwares de aprendizado social, ou seja, sites de compartilhamento que tornem a sensação de estudar parecida com aquela despertada pelo Facebook. “A nossa missão é fazer do mundo um grande grupo de estudos”, diz Phil Hill, executivo do OpenStudy, site aberto ao público em setembro do ano passado, que começou como um projeto da Universidade de Emory e Georgia Tech.

Com isso, nota-se que a exposição dos jovens à internet hoje é “irrestrita, quase desmedida”, pontua Nabuco. “E as redes contribuem para uma progressiva troca de experiências reais por virtuais, principalmente para aqueles que já apresentam uma certa vulnerabilidade para a dependência da internet”. Dentro desse quadro, existem alguns critérios que colaboram para diagnosticar uma possível dependência, como esconder o número de horas que permanece conectado, ficar apreensivo de ir a lugares sem internet e deixar de fazer atividades cotidianas, como esportes ou sair com os amigos, para ficar online.

Já que o crescimento vertiginoso das redes sociais não se mostra como uma moda passageira – com exceção dos chineses, não seria um exagero dizer que estamos vivendo no mundo de Zuckerberg -, a sugestão do programa de dependentes de internet do Instituto de Psiquiatria da USP é cuidar para que a internet seja utilizada na mesma medida que qualquer outra atividade cotidiana, como estudar, fazer exercícios físicos, tomar sol ou encontrar os amigos. É importante que a sua presença não se sobreponha às outras atividades, chegando a acarretar problemas nas relações interpessoais.

 

Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero nº 18/abril, publicação da Livraria Martins Fontes http://www.revistaplatero.com.br

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