Homenagem a Moacyr Scliar

“As histórias nos dão a sensação de que o mundo faz sentido, que as coisas têm começo, meio e fim. A literatura consola.” Moacyr Scliar

Em homenagem ao grande escritor Moacyr Scliar, publicamos a entrevista que ele nos concedeu para a Revista Platero, em dezembro de 2009.

 


O escritor Moacyr Scliar acaba de ganhar mais um reconhecimento importante. Sua obra Manual da paixão solitária recebeu o Prêmio Jabuti 2009 na categoria romance e foi escolhida como Livro do Ano no campo da ficção. A nova conquista vem reafirmar o que já é consenso entre os leitores: ele sabe tecer tramas interessantes. Suas narrativas, que se destacam pela fluência, imaginação e fino humor, instigam e prendem a atenção da primeira à última página.

Literatura, a seu ver, é a arte de contar histórias, de combinar uma boa ideia com um texto que emocione, dê prazer e ensine algo sobre a vida. “Não tenho dúvida de que literatura é, antes de mais nada, uma história bem contada”, enfatiza. “Isto corresponde a uma necessidade básica dos seres humanos: as histórias nos dão a sensação de que o mundo faz sentido, que as coisas têm começo, meio e fim. A literatura consola.”

Scliar diz que a Bíblia é sua grande fonte de inspiração, além das reações e sentimentos humanos que, como observador perspicaz, pôde apreender ao longo dos anos, no exercício de sua profissão como médico. “Sou um fã da Bíblia, um leitor – não religioso, mas literário – dessa extraordinária obra. Os anônimos escritores do Antigo Testamento transmitiram, de maneira absolutamente sintética e objetiva, grandes histórias, que falam da relação com a divindade, mas falam também das paixões humanas mais autênticas. Mais que isso, e exatamente por causa da síntese, há nessas histórias ‘lacunas’ que funcionam como desafio para o escritor moderno”.

Para alguém que cresceu ouvindo episódios e lendas da tradição judaica – ele morava num bairro de imigrantes russos, em Porto Alegre, onde os pais e os amigos reuniam-se à noite para contar e ouvir histórias -, que se apaixonou pela literatura desde pequeno e, garoto ainda, já compunha as próprias narrativas, o desafio não poderia ser mais propício. “Parto sempre de um acontecimento histórico, para depois pensar nos personagens e elaborar a trama ficcional. E a verdade é que não posso me queixar da falta de ideias – ao contrário, não tenho condições de desenvolver sequer um décimo delas”.

O enredo de Manual da paixão solitária baseia-se no pequeno e enigmático relato do Gênesis sobre o patriarca Judá, seus três filhos, Er, Onan e Shelá, e uma mulher, Tamar. Num congresso de estudos bíblicos, a intriga passional entre essa mulher e os quatro homens da família é enfocada em dois momentos, primeiro por um famoso professor e depois por sua rival. As exposições mostram os mesmos fatos sob diferentes pontos de vista: o do jovem Shelá e o de Tamar. Dois desabafos surpreendentes, que revelam costumes ancestrais e os dramas humanos que essas crenças acarretam.

Entre os mais de 60 títulos publicados por Moacyr Scliar, que incluem romances, contos, ensaios, crônicas e literatura infanto-juvenil, há muitas histórias inesquecíveis. O centauro no jardim, de fundo fantástico, é uma delas. Conta a saga de Guedali, que nasce centauro – metade homem, metade cavalo – e passa por muitos percalços para enfrentar os desafios da vida em sociedade. A majestade do Xingu, permeada pelas vivências de Scliar como médico, fala dos conflitos do protagonista que, num leito de UTI, evoca imagens ora gloriosas, do amigo Noel, que dedicou a vida à causa indígena, ora de sombrios espectros que o perseguem e querem exterminá-lo.

Vale ressaltar ainda um de seus livros de maior sucesso: A mulher que escreveu a Bíblia. Ajudada por um historiador e terapeuta de vidas passadas, uma mulher descobre que foi uma das setecentas esposas do rei Salomão. A mais feia do harém, mas a mais inteligente, única capaz de escrever e que, por esse dote, consegue encantar o soberano, recebendo a incumbência de registrar a história do povo judeu. Um romance envolvente que, como tantos outros do autor, proporcionam o prazer de uma boa leitura.

 

Revista Platero nº 2 – dez/2009 http://www.revistaplatero.com.br/n2/palavra_autor.htm

 

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