A nobreza literária de Carson McCullers

Há certo tipo de pessoas que têm algo que as distingue dos outros seres humanos. Pessoas assim possuem um instinto geralmente encontrado apenas nas crianças pequenas: o instinto de estabelecer imediatamente um contato vital entre elas e todas as coisas do mundo. O corcunda, certamente, pertencia a esse tipo.
(A balada do café triste).

A obra da autora norte-americana Carson McCullers padece de um injusto desdém literário. A crítica dedicada à sua produção até hoje foi insuficiente ou ineficaz no preenchimento dessa lacuna histórica, principalmente no que se refere à sua divulgação para o público leitor. Porém, mais interessante que especular os possíveis motivos para essa imperdoável distração é apreciar as qualidades que tornam seus livros dignos de uma leitura sem reservas, de uma visão de mundo tão ímpar quanto nobre.

Coincidência ou não, legitimar vidas ignoradas consiste numa das principais proezas da escritora. Natural da Geórgia, no sul dos Estados Unidos, Carson McCullers fez questão de realçar aspectos aparentemente irrelevantes da experiência humana em um contexto marcado pelos efeitos da Grande Depressão, contrariando a interiorização de lugares-comuns relacionados à realidade sulista, como o racismo e o fundamentalismo religioso. A própria autora critica em uma passagem publicada no livro póstumo Coração hipotecado, que reúne seus primeiros textos e poemas: “… na luta pela sobrevivência, toda a vida e sofrimento de um ser humano podem ser associados a dez acres de terra arrasada, a uma mula e a um fardo de algodão”. Através da literatura, ela promoveu um resgate do valor de existências marginais, suprimido em meio àquela condição de miséria.

Sob este viés, a obra de Carson McCullers encontra pontos de referência na proposta literária de autores contemporâneos e conterrâneos, como William Faulkner e Flannery O’Connor, em geral denominada escola gótico sulista. Também Truman Capote e Tennessee Williams contribuíram para essa produção típica que, por meio de linguagens particulares, logrou descortinar tensões de um espaço geográfico assolado pela estreiteza de horizontes. O que a destaca em relação aos outros escritores é o gesto de sensibilidade. O tratamento literário que Carson McCullers dispensa às minorias e aos excluídos não implica em qualquer distanciamento crítico. Entre adolescentes vulneráveis, mães alcoólatras, jóqueis neuróticos, bandidos, surdo-mudos, corcundas etc., a autora torna-se cúmplice ao assumir uma posição de igualdade em relação a esses indivíduos desajustados, dedicando a suas desventuras nada mais que um olhar extremamente complacente.

Como observou o tradutor e crítico literário Caio Fernando Abreu em sua apresentação no livro de contos A balada do café triste, enquanto nas mãos de outros autores deformidades físicas ou morais podem adquirir um caráter excêntrico ou grotesco, a fim de produzir espanto ou estranhamento, na prosa nobre de Carson McCullers tais elementos conquistam uma dimensão lírica e verossímil. Uma hipótese que pode justificar essa habilidade é sua própria biografia, pontuada por grandes sofrimentos que determinaram sua conflituosa relação com a realidade. Acometida por febre reumática na juventude e uma série de derrames no decorrer da vida adulta, teve o lado esquerdo do corpo paralisado com apenas 31 anos. Apesar das dores intensas, sempre dedicou-se à carreira de escritora, até sua morte prematura, aos 50 anos.

A partir de seu primeiro livro, O coração é um caçador solitário (1940), escrito quando tinha 22 anos, promoveu um “desnudar impiedoso das motivações humanas”, como definiu o escritor e crítico literário Leonardo Fróes. Nessa narrativa, hoje um clássico da literatura americana, a solidão, o isolamento moral e o desejo de emancipação movem – e consomem – os personagens, que compartilham uma ânsia em conectar-se com algo que lhes ofereça sentido. Essa busca por um sentimento de pertencimento em contraposição a uma realidade hostil é evidenciada também na figura da adolescente Frankie Addams, protagonista do livro A convidada do casamento, de 1946.

Passando também por Reflections in a Golden Eye, de 1941, e Relógio sem ponteiros, de 1961, Carson McCullers compôs um profundo painel de uma sociedade anacrônica, sem perspectiva de futuro, onde, justamente por não se ter soberania sobre o próprio destino, a insegurança passou a determinar a existência. A única saída frente à derrocada é a própria literatura que, ao atuar como plataforma de um delicado equilíbrio entre amparo e abismo, demonstra que o sentido e a paz de espírito perseguidos pelos personagens brotam mesmo nas condições mais improváveis.

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